Araquari - primeiros moradores vieram pelo mar

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Pesquisa e texto: Professora Mestre Maria Goreti Gomes     

Alguns historiadores defendem que os primeiros homens brancos a pisarem nas terras onde hoje se localiza Araquari foram, provavelmente, navegadores portugueses provenientes  da região dos Açores, por volta de 1540. Naquele ano, o navegador espanhol Álvaro Nunes Cabeza de Vaca aportou onde hoje é Barra Velha e incentivou a exploração da região norte, até então habitada por indígenas da etnia Carijós. A expedição reuniu 250 homens da confiança de Cabeza de Vaca, 40 cavalos, alguns escravos e um grupo de índios catequizados pelos jesuítas.

     Um mês depois, chegavam a Araquari, que chamaram primeiro de Paranaguá Mirim (ou boca da Barra - “enseada pequena”, em tupi-guarani) e depois de Paraty. Entretanto, os registros escritos da chegada dos primeiros navegadores açorianos datam de 1658, quando os primeiros bandeirantes portugueses fixaram-se na região.

     Em 1848 chegava a Araquari, Joaquim da Rocha Coutinho, senhor de escravos. Ao chegar, Rocha Coutinho já encontrou estabelecido à margem esquerda do rio Parati, o português Manoel Viera. Os dois decidiram fundar uma vila, mas não conseguiram chegar a um acordo quanto ao local. O Juiz da Comarca de São Francisco decidiu em favor de Rocha Coutinho que mandou construir casas às margens do rio Parati, cercando pastagens e plantações. 

     Joaquim da Rocha Coutinho e Manoel Viera são considerados os fundadores da freguesia de Senhor Bom Jesus do Paraty, parte do município de São Francisco do Sul. As casas eram construídas às margens do rio Parati e Cubatão, local onde ainda hoje existem ruínas de casarios antigos. 

Proprietários com registro

     O Livro No 1 de doações de Sesmarias, onde estão registradas as doações efetivadas no período de 1753 a 1806, registraram  a doação de 150 braças de terras (cada braça tem 1,60 metros) do governo da capitania de Santa Catarina para Manoel de Oliveira Cercal, no dia 30 de abril de  1806.  Este é portanto, o primeiro morador com posses de terras da região de Araquari.

     No ano  seguinte, no dia 23 de julho, quando a região ainda era denominada Paranaguá Mirim, registrava-se nova doação de 150 braças de terras, de frente as de  José Antônio de Miranda, no rio Paranaguá, no termo da vila São Francisco. Um ano mais tarde, no dia 23 de junho, ocorre nova doação de terras desta vez junto ao rio Parati.

     Sebastião Budal recebeu ali 200 braças de terras. No dia 18 de junho de 1806 foi cedido sesmarias de 150 braços de frente a André Borges Pitta, no Itapocu, provavelmente um dos primeiros proprietários de terras na região e também um dos primeiros moradores não indígena. 

     Salvador Dias do Rosário ganhou 1500 braças de terras, muito mais do que seus antecessores, no dia 6 de outubro de 1813, de frente para o rio Cubatão onde hoje se localiza o Município de Araquari. As doações continuaram acontecendo e as terras da antiga Paraty foram sendo ocupadas sistematicamente desde o início do século XIX.

     Os primeiros posseiros eram, em sua grande maioria, de luso-brasileiros que moravam em São Francisco do Sul. Os fundadores vieram para colonizar e também para explorar os recursos naturais e nos primeiros tempos dedicaram-se à pesca e a agricultura.

Escravos negros e mestiços

     O arraial do Parati, como era chamada a localidade, pertencia a então vila de Nossa Senhora das Graças do Rio São Francisco e foi elevada à categoria de freguesia (ou distrito) pela Lei Provindical No 375, de 8 de junho de 1854. O território compreendido entre os rios Cubatão e Itapocu no município de São Francisco foi desmembrado da Paróquia de Nossa Senhora da Graça, para formar a Freguesia Senhor Bom Jesus do Parati. A  Matriz da freguesia foi construída em terras doadas por Manoel Pereira Lima e sua mulher.

     A Lei Provincial 271 de 3 de dezembro de 1856 desmembrava da Freguesia, área de terra que formaria a Freguesia do Glorioso São Pedro de Alcântara da Barra Velha.
Em 1866, o mapa da população (espécie de censo da época) mostrava que 2536 pessoas (1347 mulheres e 1195 homens) , agrupadas em 451 famílias (média de 4 filhos por casal), habitavam a Freguesia de Parati. Destes, 486 eram escravos. O curioso é que dentre os escravos, havia 166 mestiços (filhos de brancos com negras), pois que a Lei do Ventre Livre foi decretada somente em 28 de setembro de 1871.

     Os primeiros moradores dedicavam-se à atividade agrícola, pesca e coletora de frutas, madeira e ervas da mata. Estas atividades em franco desenvolvimento no século XIX foram determinantes para o estabelecimento de relações comerciais com a colônia alemã Dona Francisca (atual Joinville). E contribuíram inclusive para atrair os colonos recém chegados da Europa a se instalarem na Freguesia.

     Deste modo, a população de base cultural luso-açoarina se fundiu aos africanos e europeus formando o Município de Araquari com características próprias, mas preservando os traços e a cultura dos primeiros habitantes.

     Em 1876, a Lei Provincial No 797, de 5 de abril, elevou a freguesia à categoria de Vila (município), efetivamente instalado no dia 5 de janeiro de 1877. O primeiro prefeito, Francisco José Dias de Almeida foi empossado somente em 1887. Alguns anos mais tarde, a Lei Estadual No 1451, de 30 de agosto de 1923, o município foi suprimido e voltou à jurisdição de São Francisco do Sul.  A condição de município foi restabelecida dois anos depois, pela Lei estadual nº 1512, de 30 de outubro de 1925 e sua reinstalação se deu no dia 1º de janeiro de 1926.

     Parati era administrada à época por um Conselho Municipal (espécie de Câmara de Vereadores), composto por cinco membros: Crispim Henrique Ferreira (presidente), Jovenal Pereira Walter, Hercílio Rosa, Onofre José Bernardes e Emílio Manoel Junior. E somente em 1926, o distrito voltou à categoria de Cidade.

     O Município de Barra Velha foi desmembrado de Araquari pela Resolução nº 1, de 6 de novembro de l956, da Câmara de Municipal de Araquari, aprovada pela Lei nº 271, foi desmembrado de Araquari.  Entretanto, em 11 de maio de 1957, o Supremo Tribunal Federal declarou a Lei de criação de Barra Velha inconstitucional e somente 7 de dezembro de 1961, o então distrito de Araquari voltou a se emancipar.  O Distrito de Balneário Barra do Sul foi desmembrado, no dia 9 de janeiro de 1992.

     E por fim, a Lei Estadual nº 11.717 de 10/5/2001, desmembrou o Bairro de Paranaguamirim que passou a ser território do município de Joinville.

Uma cidade, vários nomes

     A primeira denominação foi Paranaguá-Mirim, que significa “boca da barra pequena”, dada por Manoel Vieira. Norberto Bachmann o nome se comporia de “paraná”, semelhante ao mar, e “guá”, de “cuá” enseada, ou seja: pequena enseada do mar.

     Em 1854 a vila passou à condição de freguesia do Senhor Bom Jesus do Paraty, distrito de São Francisco do Sul. E mais tarde, por abreviação, simplesmente Parati (designação indígena para tainha pequena) peixe abundante nas águas da região.

     O nome definitivo de Araquari veio apenas em 1943, por força do Decreto-lei Estadual nº 941 de 31 de dezembro. O nome originou-se do canal que separa a cidade de São Francisco do Sul. Em mapas antigos, o nome é grafado como Lecori, Ancori, Lencori, Aracoary e Araquari. A grafia exata provavelmente provém de “ará” – papagaio grande; “quara” ou “cuara”- buraco, garganta, refúgio e “y” – água.

     Portanto, rio de refúgio das aves ou pássaros, ou garganta de água (canal) dos papagaios, nome dado pelos índios ao braço de mar existente no município.  Acredita-se que a ave a qual se referem os indígenas seja o aracuã, que ainda hoje habita as matas da região. A descrição desta última forma foi defendida por Norberto Bachmann, Lucas Boiteux e João Medeiros.

Economia e festas

     As atividades comerciais com os municípios vizinhos eram constantes e a construção da estrada de ferro, com a inauguração da Estação Ferroviária em 1926, era o prenúncio de mais progresso. A nova fase para a cidade que continuou se expandindo e teve sua natureza modificada com o fechamento do Canal do Linguado para a passagem da estrada de ferro na década de 1940.

     Com as facilidades de transporte entre a colônia Dona Francisca, o Porto de São Francisco do Sul e com o Paraná, a cidade continuou crescendo. A industrialização tem crescido nos últimos anos mas a agricultura, a pecuária, a piscicultura (criação de peixes) e a pesca continuam sendo as principais fontes de renda dos araquarienses até os dias atuais.

     A cultura do maracujá, o quarto principal produto agrícola do município, começou a destacar-se a partir de 1993, sendo pioneira a Granja Sinuelo, pioneira nessa plantação no Estado de Santa Catarina.  Em 1995, o Município realizou a 1ª Festa do Maracujá e a 1ª Expofeira Agropecuária e Industrial, objetivando a Araquari a consagração do título de “Capital Catarinense do Maracujá”, estabelecido pela imprensa catarinense. A festa é realizada de dois em dois anos, no mês de abril.

     Hoje a economia de Araquari está alicerçada principalmente na agricultura. O arroz, a banana e o maracujá são seus principais produtos. Mas a pecuária, a olericultura e a carcenicultura (cultura de camarões) também geram renda ao município. Seu parque fabril  esta sendo ampliado com a instalação de novos empreendimentos.

     O comércio local é preparado para receber turistas em grande número tanto para participar das festas religiosas realizadas em diversos locais e períodos do ano ou simplesmente para descansar e seguir viagem num dos postos de combustíveis com ampla infra-estrutura para receber dezenas de pessoas.  

Festas religiosas

     A festa religiosa do Senhor Bom Jesus de Araquari é também uma das principais atrações turísticas da cidade e acontece todos os anos de 28 de julho a 6 de agosto, iniciando com as novenas e culminando com a procissão em homenagem ao Senhor Bom Jesus atraindo muitas pessoas ao Município. A Quermesse de Santo Antônio, será realizada pela primeira fez este ano de 2004, no dia 12 de junho na casa da Cultura.

     O sincretismo religioso da comunidade negra do Itapocu representado na Festa do Catumbi, realizada anualmente na semana do Natal e que tem seu ponto culminante no dia 25 de dezembro, é uma manifestação folclórica realizada desde 1854, em homenagem a Nossa Senhora do Rosário. Os rituais do Catumbi podem ser divididos em preparatórios e do Natal. Os preparatórios iniciam-se em setembro e se estendem até dezembro e os do Natal incluem a véspera do dia 25. 

 

 

 

 

 

 

Fontes:
Pereira, Carlos da Costa. História de São Francisco do Sul, São Francisco do Sul/Florianópolis: Editora da UFSC/Prefeitura Municipal de São Francisco do Sul,1984.
Farias, Vilson Francisco de. De Portugal ao Sul do Brasil 500 Anos, História, Cultura e Turismo. Florianópolis: Editora do autor, 2001.
História de Santa Catarina – Mapa Municipal  no 10º Volume, Grafipar: 1970 (O texto sobre Araquari foi elaborado pela Inspetoria Regional de Estatística Municipal de Santa Catarina em 1958)
www.sc.araquari.gov.br; www.araquari.com.br; www.amunesc.org.br, www.sfs.com.br; www.saofranciscodosul.com.br; www.sc.gob.br; www.ibge.gov.br