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O suicídio nosso de cada dia - JE 315

 

No mês de setembro, as atenções se voltam para ações visando a Prevenção do Suicídio. Questão que nos remete a várias reflexões.

É sabido que, diante da escassez de água que põe em risco a vida, uma planta pode perder suas folhas e mudar sua dinâmica para economizar a energia vital.

A natural pulsão pela sobrevivência é comum a plantas, animais e homens. Talvez por isso o matar seja mais facilmente banalizado do que o morrer por escolha própria. Mas se assim o é até para as plantas, o que faz o ser humano, o mais capacitado dos seres, desistir da Vida, antes que a apoptose -a morte programada – lhe chegue naturalmente?

Quando chega aos nossos ouvidos a notícia de que alguém deu cabo à própria vida, o impacto imediato fica ressoando vários dias. E a pergunta é: mas por que?

E quem se vai pode deixar atrás de si um rastro de infelicidade para quem fica. O sentimento de alguma culpa pode levar familiares (principalmente nas relações entre pais e filhos), a nunca mais se sentirem no direito a viverem plenamente. Ano após ano, nas comemorações familiares, aquela dor é revivida.

As dúvidas acerca do Por Que talvez não fossem respondidas, nem mesmo por quem se foi, pois sabe-se de casos cuja tentativa não obteve êxito, e o sobrevivente apenas lembra de ter ouvido vozes que o incitaram a cometer o ato. E é também comum a tendência a voltar a repetir a tentativa.

Podemos aqui refletir que o Suicídio Ativo, com a ação concreta, que sempre causa impacto, é certamente antecedido por um período de Suicídio Passivo, no qual a pessoa não se dá conta, e muitas vezes não busca uma solução.

Como uma rã colocada na água fria que vai esquentando lentamente, permanece passiva e assim morre, a maioria de nós também esteja se suicidando aos poucos, silenciosamente.

A sensação de não pertencimento numa sociedade onde se estimula o consumo para que o ter possa substituir o ser. É uma relação amorosa insatisfatória, contando-se os anos até as bodas do faz de conta, onde se reúne a família sorrindo para a foto. O emprego sem nenhuma motivação, que não o receber o parco salário para pagar as contas. Sem criatividade, mera peça de engrenagem.

São os sonhos não realizados, ou a total falta deles que nos fazem Durar, ao invés de Viver.

Aqui fica, então, uma pergunta a ser feita a cada dia: estou Passivamente me suicidando?

 

* 1 - Avany Maia é médica especialista em Cirurgia Oncológica e Cuidados Paliativos. Pós-graduada em psicoterapia analítica (Junguiana). 

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