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O professor precisa de cuidado (Outubro/2008)

Desde a Grécia antiga, os sábios se constituem numa classe privilegiada de homens com direito a cuidados especiais, pois têm a missão mais do que especial de orientar os governantes. Sempre coube a estes intelectuais também educar os filhos dos governantes e a casta "superior" da sociedade.
Os sábios e intelectuais eram os professores dos únicos alunos possíveis, os filhos da elite política e econômica. Portanto, a humanidade sempre cuidou bem de seus sábios e intelectuais (os professores, filósofos, cientistas e pensadores).
A eles sempre coube ensinar, assessorar, manter e ajudar os governantes a permanecer no poder, para ter tranqüilidade para pensar em estratégias e pesquisar o comportamento humano, lhes foi dado uma vida tranqüila sem sobressaltos do ponto de vista da sobrevivência financeira.
Os professores, até a Era Moderna, continuavam com a incumbência de educar os filhos da elite e dos mandatários. Portanto,  sua importância e influência sobre a sociedade e seus líderes eram inquestionáveis. Por esta razão, o tratamento, os aposentos e principalmente os "salários" a eles dispensados, especialmente nos palácios, despertavam a inveja e a ira dos demais "amigos do Rei".
Com a industrialização e a necessidade de que a população em geral tivesse mais conhecimento técnico e científico a classe média passou a ter o privilégio de  colocar seus filhos na escola. Os sábios e pensadores, que até então educavam somente os filhos da elite detentora do poder, passaram a ensinar a um grupo intermediário e muito maior.
Imediatamente, sua proximidade com os mandatários foi questionada porque a escola continuou a educar do mesmo modo, colocando em discussão a necessidade de rodízio do poder.
Os pensadores, sábios, cientistas e professores deixaram de ter os privilégios de ser a terceira elite: a elite pensante. Sem este privilégio tiveram que começar a "correr atrás da sobrevivência financeira". Sem dúvida uma boa maneira de deixá-los com menos tempo para pensar em modos de provocar o rodízio no poder.
A medida que o acesso à escola foi sendo democratizado, foi aumentando a necessidade de professores, que em grande quantidade, foram perdendo seus privilégios, seus salários e até mesmo seu status, por conta, principalmente, do poder e influência sobre as classes populares que agora já poderiam almejar o poder, pois recebiam escolas semelhantes às elites hierarquicamente dominantes. 
No Brasil, os professores (intelectuais e sábios) foram ao poder com Fernando Henrique Cardoso e as classes populares estão no poder com Lula, muito bem orientado por professores, intelectuais e sábios.
Entretanto, os professores perderam todos os seus privilégios, a categoria é uma classe indispensável para a sociedade, mas já "está em extinção" .
Nas últimas eleições, a quantidade de candidatos professores surpreendeu até mesmo às elites dominantes economicamente.
Os profissionais da educação continuam a ser uma categoria com status de sábio, mas perderam todos os privilégios que garantiam a tranqüilidade para pensar e procurar o saber.
Os professores deixaram de ser autores do conhecimento, porque precisam cuidar da sobrevivência material e já integram a classe intermediária entre o poder e a aristocracia. Agora, tanto quem está no poder, quanto a elite econômica que descuidou do professor mandando-o produzir em série, precisa rever sua situação.
As filhas e filhos da classe média já não querem ser professoras ou professores. As meninas da classe alta não precisam mais serem professoras porque já têm licença para exercer outras funções no mercado de trabalho. Os herdeiros das dificuldades das classes baixas preferem outras profissões que possibilitem ascensão mais rápida ao poder.
Portanto, já que ninguém mais quer ser professor, a categoria está em extinção.
E assim como todo ser vivente em extinção, os governos precisam implementar, com urgência, políticas de cuidados especiais, projetos de valorização e, principalmente, um lugar especial para os professores na sociedade.
Esta "raça",  responsável  pela educação, tanto dos governantes, quanto das elites econômicas e dos trabalhadores necessários à máquina produtiva, está sofrendo de problemas psíquicos, com a violência natural do ser humano que não está mais sendo devidamente controlada nem pela espiritualidade, nem pela força física e nem pela dominação intelectual.
Essa categoria está extinguindo-se e existe somente um modo de reverter o processo, que é mundial, assim como a crise financeira: cuidados e lugares especiais.
Que os professores voltem a ter sua condição de vida, tempo e privilégios econômicos suficientes para produzir conhecimento verdadeiro e necessário.
E talvez até mesmo serem incluídos na nova lista das espécies em extinção que será publicada nos próximos dias em Brasília
Os professores precisam de cuidados especiais,  assim como o Mico Leão Dourado, a Ararinha Azul, a Onça Pintada...    

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