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Universitários podem pagar formação com trabalho (Março/2008)

     Nas primeiras semanas de março, os brasileiros tomaram conhecimento, por meio de jornais e telejornais, de que o Ministério da Educação disponibilizará dinheiro às universidades federais desde que as instituições que hoje atendem a uma minoria da população, se comprometam a cumprir metas.

     As principais diretrizes visam reduzir drasticamente os índices de reprovação e abandono dos cursos e aumentar consideravelmente o número de vagas em cursos noturnos. A primeira vista, pode parecer óbvio, mas se considerarmos os índices de reprovação que em alguns cursos passam de 50%, as universidades públicas terão muito a fazer nos próximos anos, se quiserem receber mais dinheiro. 

     Nos primeiros anos da aprovação do sistema de cotas, o Jornal da Educação já levantava a discussão sobre a necessidade das universidades públicas se prepararem para receber um público diferente do que costuma ter em suas salas de aula.
Com a obrigatoriedade de aceitar estudantes advindos de escolas públicas e minorias étnicas, as universidades públicas passaram a receber não somente as "mentes brilhantes", os melhores colocados em praticamente todos os vestibulares, mas também jovens brasileiros que, muitas vezes, sequer tiveram "notícia" do conteúdo curricular mínimo obrigatório da Educação Básica.

     Estes estudantes, advindos de classes populares, levaram as universidades a repensar suas ações. Desde então,  é preciso dar conta de atender as necessidades intelectuais e, em alguns casos, materiais dos estudantes que receberam um diploma de Ensino Médio sem ter tido sequer o número de aulas a que tinham direito. Ou porque seus professores estiveram diversas vezes em greve, ou porque estudavam em cursos noturnos e/ou em escolas, nas quais a quantidade de horas aulas é menor do que as 800 anuais estipuladas pela LDB.

     Além disso, os espaços sociais de onde vêm, não oferecem acesso à cultura erudita, não raro, sequer às mídias digitais. Ao mesmo tempo, reportagens mostravam a evasão de grande parte dos estudantes que ingressaram pelo sistema de cotas, para trabalhar.

     Na semana seguinte, os jornais anunciavam o envio de um projeto propondo que estudantes que tenham financiado seus cursos de licenciatura em Matemática, Biologia, Física e Química pelo FIES possam pagar as mensalidades com serviços prestados em escolas públicas.
Já os estudantes de medicina devem prestar serviços nas cidades do interior, onde não há médicos. Outros cursos poderão ser contemplados com este projeto, especialmente os de engenharias, profissões em que há maior carência de profissionais no mercado.

     Além de pagar a dívida, os formados receberão seus salários normalmente e irão adquir experiência profissional.

     A proposta não é nova, a novidade é sua formalização e envio ao Congresso para votação, e, mais uma vez, é estratégia para "apagar o fogo" e não para prevenir o incêndio. O MEC justificou a proposta informando que faltam mais de 100 mil professores das quatro disciplinas para atuar em todo o país. E que as populações das pequenas cidades, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, nascem, vivem e morrem sem nunca ter recebido atendimento médico.
Diante desta dura realidade, o ideal seria aproveitar o momento e juntar a esta, outra proposta que exigisse dos formados em universidades públicas, o mesmo tipo de trabalho comunitário, para que devolvessem, pelo menos em parte, o investimento do país em sua formação acadêmica.

     Afinal, também estes estudantes se formaram às expensas dos cofres públicos e, diga-se de passagem, custaram bem mais caro, do que aqueles que pegaram financiamento estudantil para estudar em escolas particulares.

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