Escolas reabertas para a democracia ou só para a eleição??!!

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Após nove meses praticamente fechadas, as escolas de todo o Brasil, voltaram a ganhar vida em praticamente todas as salas de aula. Diferente do público regular destes espaços, os adultos permaneceram em filas para segundo prevê a lei, exercer seu direito ao voto. Mas, assim como o público regular das escolas, muitos faltaram. Aliás, no primeiro turno, mais de 35% não compareceram às urnas.

Seja por medo de se contaminar pelo Corona vírus, seja para protestar ou mandar um recado aos políticos, independentemente da razão, para 1/3 do eleitorado do país, não votar apesar de ser obrigatório, foi a melhor opção. O recado é, as eleições são dispensáveis neste momento. É preferível justificar o voto por aplicativo, como tem sido a vida de quase todos os brasileiros, ou pagar a multa que pode variar entre R$ 1,05 e R$ 3,51, por cada turno.

É triste perceber que para manter os políticos lá onde estão, tanto eles mesmos por meio dos deputados, senadores e poder judiciário e executivo, mantiveram as eleições a pretexto de que é manter a serem indispensáveis à manutenção da democracia. Mas, eles mesmos não proveram meios dos frequentadores regulares das salas de aula, os estudantes das redes públicas, manterem-se presentes para estudar, seja presencia, seja virtualmente. Num claro recado à sociedade de que para os mais de 88% de brasileiros em idade escolar, aprender não é essencial para a manutenção da democracia.

Abrir as escolas para as eleições, deixou ainda mais escrachada a realidade de que o Brasil é sim uma sociedade de “castas”. Os políticos pretendem-se a casta superior, os cidadãos com dinheiro para pagar as escolas particulares, os “amigos do rei”, os funcionários públicos, a corte e o cidadão comum, aquele que tem os filhos nas escolas públicas regulares de ensino básico, a casta inferior.

Obrigados a viver com o auxilio governamental, seja em forma de auxílio emergencial, de seguro desemprego, bolsa família, num sub emprego ou ensinando os filhos por meio de ensino remoto por fotocópia.

Já para o cidadão matriculado numa das universidades públicas o tratamento é de ‘amigos do rei”. Estes sim ganharam internet paga com dinheiro público e até equipamentos eletrônicos como celulares, tablets e até computadores, para acompanhar as aulas on line.

Enquanto os professores de escolas públicas básicas tiveram que se virar para montar suas aulas e fazê-las chegar aos alunos, na solidão de suas casas. E, na maioria das vezes, sem auxílio algum das secretarias de educação, os professores das universitários públicas começaram a dar as tais aulas on line, quando e quiseram. Os alunos, mesmo os que estavam em período de conclusão de curso, tiveram que se adaptar e esperar a data de formatura adiada, no mínimo por seis meses.

A pandemia deixou à mostra a calamidade e o descaso do país com nossas crianças e adolescentes. Transpareceu claramente que em anos e anos, nada crescemos em efetiva qualidade do ensino público efetivamente entregue à maior parte da população. E mostrou também que dar uniforme, merenda e material escolar são assistencialismos que provocam o distanciamento e a desresponsabilização crescente dos pais em relação a vida escolar dos próprios filhos.

Se de um lado, principalmente os professores, com uma dedicação nunca antes percebida, demos um salto em uso e aprendizagem das tecnologias já disponíveis; por outro, ficou evidente a falta de percepção da realidade vivenciada por mais de 90% dos estudantes do ensino básico do país.

Enquanto os professores se reinventariam para chegar aos alunos e avaliar sua aprendizagem, as secretarias, a parte burocrática do sistema, sequer conseguiu averiguar a presença ou não do estudante.
Quem pode imaginar que um país que sequer sabe quantos e quais de seus estudantes matriculados está frequentando a escola (ou pelo menos abrindo a aula ou a apostila para tentar estudar), poderia proporcionar oportunidade de aprendizagem real.

Desnecessário dizer, mas necessário lembrar que o ensino público é a única porta de saída da miséria ou da pobreza para milhões de brasileiros menores de 18 anos. Brasileiros que não conseguiram superar a pobreza, não têm as mínimas condições de frequentar as salas de aula em tempos “normais”, imagine em tempos de pandemia. Grande parte filhos de pais sequer alfabetizados ou mesmo letrados.

Mas estes mesmos brasileiros serão os que estarão em dois anos, frequentando novamente as salas de aula para votar em números. Sim, por números, porque se fosse para escrever o nome de seus candidatos, seguramente a grande maioria dos votos seria anulada por incompreensíveis.

Será este o novo e grande objetivo da reabertura das escolas para o público?! Eleger números do descaso e da ignorância coletiva?