QUALIDADE NO ENSINO, SEGURANÇA E VISÃO DE MUNDO (Edição Setembro/2007)

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     Um ponto fundamental na Educação e pouco refletido começa a aparecer, aqui e acolá, nas revistas e sites especializados em educação: a qualidade do ensino brasileiro.

     No Brasil, pouco se traz à luz esta questão, verdadeira dor de cabeça em muitos países, que possuem órgãos fiscalizadores que envolvem membros do Governo, comunidade, educadores de renome e universidades. Gerenciar a qualidade de ensino na Europa ou no Canadá, por exemplo, é garantir mais do que o futuro profissional do indivíduo: é garantir condições do país competir com mercados internacionais, é aumentar a qualidade de vida e tornar seguro o indivíduo que, sabendo construir o conhecimento, sabe interagir e dominar a situação.

Uma pessoa que tem mais conhecimento torna-se segura, tem a auto-estima elevada, sabe ler o ambiente, não se deixa explorar. Ter mais conhecimento não significa ser uma enciclopédia ambulante, mas saber conversar, saber procurar informações, produzir com com qualidade, exigir mais de si mesmo sem se tornar neurótico, exigir qualidade nos produtos e serviços, ser crítico, objetivo e seguro.

     As pessoas passam a respeitar quem domina o conhecimento e domina o assunto do qual está tratando. Respeito e admiração, que garantem as doses de segurança, de auto-estima e confiança de que necessitamos no cotidiano.

     A escola atual está preocupada com a qualidade? E se está, o que tem feito para adequar conteúdos ao mundo atual, mais competitivo, mais ágil?

     Os resultados do ENEM (aliás, com questões vivas e contextualizadas) dos últimos anos, mostram uma realidade assustadora: nossos alunos apresentam dificuldades de compreensão de textos, de lógica e na interpretação, além de mal saberem somar, após onze anos de estudos.

     Não existem culpados (exceto a cegueira política), mas vítimas: alunos-vítimas (as maiores), professores-vítimas, nação-vítima. Veja a questão:

     - Quais as chances de uma criança pobre (classe E) ao adentrar a escola e conseguir, após terminar a faculdade, subir de classe social?

     Segundo a UNESCO, estas chances no Brasil ficam entre as 10 piores do mundo. Piores até do que nações tribais africanas em guerra.

     A exclusão e a desigualdade sociais contribuem para este terrível fato, que atinge a auto-estima da criança que recebe, muitas vezes, um ensino morto, que não lhe abre horizontes.

     Mas se as faculdades oferecessem cursos de licenciatura com alta qualidade, nossos professores teriam mais recursos pedagógicos adequados ao mundo atual.

     A maioria dos professores está capacitada para usar a informática como recurso pedagógico? Existem computadores para todos os alunos e programas educacionais neles inseridos nas escolas públicas? Quem os deixou à margem das inovações?

     Saber lidar com inovações tecnológicas, como CD-ROM, kits multimídia, filtrar conteúdos e informações de mensagens e sites, trabalhar com a pesquisa, com aulas de campo, aulas interdisciplinares com um mesmo assunto sendo abordado por vários professores, trabalhar com projetos são, apenas de começo, a base para se educar com qualidade.

     Desenvolver o espírito crítico, a capacidade de gerenciar sua vida e seu destino, é o que a escola deve oferecer, para que os alunos se sintam participantes deste importante momento histórico do qual somos testemunhas: a Era da Informação. Mais do que participantes, a escola deve oferecer chances de ascensão social e preparar para se viver com qualidade.

     É preciso também que se sintam capazes de competir no mercado de trabalho, de valorizar a escola como um local de aprendizagem real para a vida, que é muito mais que meras teorias sobre absolutismo ou relevo do Norte da África.

     O preço de se educar sem qualidade é excluir milhões de jovens do sucesso profissional, de sentirem-se inferiorizados ou, pior, sem condições de analisar a própria condição de vida.

     É chocante ouvir de muitos alunos de escola pública, estando no 8º ou 9º ano do ensino fundamental, que seu sonho é trabalhar na produção de uma empresa próxima à sua casa e se aposentar como encarregado, pois “nem muito estudo precisa” (sic).

     Na idade dos sonhos, ver uma vida limitada, é esperar de menos de si mesmo.
A própria depredação do prédio e a indisciplina em sala de aula é, para muitos especialistas, uma linguagem do aluno para demonstrar quue a escola perdeu seu valor e função.

     Claro que os fatores sociais e familiares cúmplices neste caso, mas... curiosamente, em comunidades carentes onde a escola é parte da transformação social dos alunos, não há depredação e raros são os casos de indisciplina.

     Por muitos anos, a escola formou massa de manobra sem visão crítica (prova cabal disto são as pessoas que elegemos) nem cidadania. Lutava-se, em geral sem saber, para manter a injusta desigualdade entre as classes.

     Quem sabe ainda a classe política não manipule a educação para manter gerações de dependentes?

     Uma das conseqüências sociais da política educacional de 25, 30 anos atrás foi a nossa passividade frente à tantas situações absurdas que vemos no dia-a-dia, como nossos direitos usurpados, decisões políticas levianas, violência, despreparo político e desigualdade social. Quadro ruim o bastante para qualquer país do mundo paralisar e exigir soluções imediatas (além dos políticos responsáveis nunca mais serem eleitos). E nós?  Será que essa passividade, essa indiferença nos faz bem? Claro que não...
Onde a escola pode colaborar para mudarmos este quadro?