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Psicologia e Educação

ESPECIALISTAS OU MEROS SUBSTITUTOS DE PROFESSORES? (Edição Agosto/2007)

     Um dos assuntos mais importantes em Educação é a função específica dos educadores nas escolas. Sem uma clara especificação de papéis, a escola não organiza as atividades ligadas à aprendizagem.

     Por melhores que sejam os professores, para uma escola funcionar e cumprir seus objetivos educacionais e sociais, os demais profissionais devem exercer plenamente suas funções.

     Só existe aprendizagem plena e um equilíbrio no ambiente educacional, quando professores ministram aulas bem planejadas e contextualizadas, diretores administram e controlam a escola, orientadores trabalham na prevenção de déficits educacionais com encaminhamentos à equipes multidisciplinares; quando executam trabalhos planejados de orientação social; supervisores instrumentalizam e planejam aulas vivas com os professores, administradores realmente disponibilizam suas atenções para as contas e projetos da escola.

     Os alunos sentem o funcionamento da escola e passam a preservá-la e a valorizá-la.

     Mas, o que dizer de uma escola onde os professores faltam e "deixam matéria" para algum orientador ou supervisor entrar em sala e substituí-los? Depois reclama-se da bagunça dos alunos...

     Hábito comum em muitas das escolas públicas de nosso Estado, as faltas dos professores trazem prejuízos imensos ao andamento da escola e da cidadania de nossos alunos.

     Professor faltando é prejuízo ao trabalho de especialistas que, diante da sala sem mestre, vêem-se na iminência de deixar seu trabalho e preencher o vazio docente. E não deveriam! Professor é insubstituível.

     Trazem prejuízo a alunos que, de novo, viram meros copistas de assuntos vazios, tornando a escola um centro de repetição de conteúdos desprovidos de vida e de realidade.

     Certa vez uma secretária municipal de educação disse que nas faltas de professores os orientadores deveriam aproveitar para trabalhar temas importantes com a sala. Como se temas importantes fossem trabalhados com êxito no improviso da falta de um professor.

     Os alunos que precisam de atenção especial dos orientadores, como encaminhamentos a psicólogos, fonoaudiólogos, neurologistas, programas de inserção social ou entrevista com os pais que fiquem esperando, pois o professor faltou ao trabalho, não há professor disponível em horário de planejamento (que jamais deveria ser enforcado também), não há professor "volante" em nossas escolas e fica tudo por isto mesmo.

     Mesas de especialistas entulhadas de encaminhamentos, relatórios. Supervisores que há tempos não pesquisam nem sugerem trabalhos diferenciados por virarem substitutos de professores. Alunos desrespeitados, pedagogos desvalorizados.

     Pois se deveria buscar compreender o motivo de tanta falta. Penso que a insatisfação com a educação seja mais intensa que a necessidade de consultas em horário de trabalho. Isto não ocorre nas escolas particulares. O número de faltas de professores é mínimo e geralmente um professor é designado para cobrir o colega, isso mesmo em emergências. Quem já não viu professor faltando na escola pública e, no outro turno, na escola privada, estar presente? Talvez a estabilidade no emprego, talvez o modelo de escola não satisfaça ao professor; ou a politicagem gera um elevado nível de stress que faz o corpo adoecer, o professor faltar. Há um motivo e não é o horário médico...

     Ou porque os professores notam que muitos orientadores e supervisores limitem suas funções a "bedéis" (os antigos inspetores da disciplina), que apenas distribuem advertências e broncas e se limitam a fazer enfeites e cartazes? Quem realmente sabe as funções de orientadores e supervisores?

     Há escolas em que secretárias, auxiliares de biblioteca e até serventes entram em sala...

     Quando não se valoriza um profissional da educação, algo está errado: ou professores não são informados das reais funções dos especialistas (superiores a eles na hierarquia escolar), ou os especialistas não cumprem suas reais funções, ou há insatisfação.

     E, de tão desvalorizados, muitos    especialistas sequer sabem que não podem entrar em sala! Sequer lutam por suas funções.

     Qual escola explica em reunião as funções dos especialistas e funcionários?    Veríamos que substituir professor não pode ser por especialista. Veríamos especialistas mais valorizados em suas reais funções, valorizados.

     Sabemos que é tradição este costume de "professor-falta-pedagogo-substitui". Mas até quando? Recebi alguns alunos do primeiro bimestre somente agora, pois alguns orientadores ficaram meses em sala...

     Estes alunos ficaram  todo este tempo sem atendimento e muitos ainda estão sem a atenção.

     Sei que mexi num vespeiro. Mas, tomates à parte, vamos refletir.

     Se sua falta não faz falta, algo na sua atuação não está bem. Se um especialista é visto como substituto e nada muda, como fica a qualidade e o equilíbrio no ambiente  educacional?

 

 

 

 

* Gilmar de Oliveira, psicólogo clínico e professor universitário (INESA); especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura.
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