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Psicologia e Educação

UM DESAFIO À EDUCAÇÃO: Ensinar e Aprender com Auto-Estima Elevada (Edição Julho/2007)

     A auto-estima é um conjunto de fatores formadores de nossa auto-imagem, do conceito que desenvolvemos sobre nós mesmos, da importância que nos damos e de nossa posição na relação com o meio. É a forma como percebemos nossa situação quando interagimos com alguém ou perante um grupo. É mais que apenas "gostar-se": é sentir que somos capazes de realizar nossas tarefas  e  desejos;  é lutar  por nossas  opiniões com a convicção de que somos importantes no contexto em que nos inserimos, é equilibrar-se, incluir-se, dar a si mesmo voz e vez.

     A auto-estima é fator primordial no desenvolvimento de um processo de aprendizagem sadio, vivo e efetivo porque leva a pessoa a acreditar em si, em sentir seu valor e sua capacidade de mudança.

     É provável que, atualmente, a auto-estima seja o fator diferencial na aquisição de novos conhecimentos. Tanto para alunos quanto para professores. Os alunos pouco elogiados ou criticados em seu meio familiar tendem a se interessar menos pelos assuntos da escola, não apenas nos temas da família. Em sala, tendem a se identificar com os alunos que apresentam problemas de disciplina e de comportamento. Estudam menos e participam pouco da aula. Parece, para o professor, orientadores e pais, que é um caso de desinteresse e de desleixo consigo mesmo. O aluno representa aquele ar de deboche, de indiferença, quase um riso. Está-se aí frente a uma descrição típica de problema com a auto-estima. Mostrar  "que não está nem aí" é uma forma de defesa e de mascarar a situação.

     Aluno que depreda a escola ou detona sua aprendizagem está, em geral, dizendo algo sobre si mesmo; algo como: "eu não mereço nada bom; não mereço aprender, meu ambiente tem de ser sujo e estragado"... Claro que muitas escolas são mal conservadas mesmo por inépcia administrativa, mas isto é outra mostra de baixa auto-estima na educação.

     Alunos que ouvem críticas do professor (quase sempre na frente dos colegas) tendem a se identificar menos com a disciplina e a fugir de suas obrigações, recebendo novas reprimendas e formando um círculo   vicioso. Porém, em muitos casos não há um fator específico nem um motivo para que o indivíduo esteja com a auto-estima rebaixada. Trata-se de traços adquiridos na formação da personalidade, nos 5 primeiros anos de vida. Depende da forma como a relação afetiva com os pais foi reforçando sua condição de ser que aprende, que explora e recebe elogios, de como foi recompensado e festejado ou o contrário, ao sofrer repreensões e humilhações, passou a montar uma imagem negativa de si, a se achar incapaz e inferior.

     O elogio e o incentivo não motivam (como afirma Bergamini e Coda: O Mito da Motivação: 1995, cap. 2), nem fazem mágica; apenas garantem condições da pessoa sentir-se capaz, sentir-se um ser nas mesmas condições e direitos que os outros, empolga, encoraja, inclui.

     Importante lembrar que as políticas educacionais falidas de nosso país destruíram a auto-estima do professor.

     Assim como alguém com a auto-estima rebaixada não liga se é passada para trás ou se é esquecida, anda desalinhado com roupas e asseio corporal, o professor com a auto-estima rebaixada já não liga mais de entrar em salas de aula caindo aos pedaços, de permanecer em salas do professor apertadas, com móveis velhos e cartazes velhos empilhados. Tudo fica normal: salários atrasados e baixos, aumentos insignificantes e até ofensivos, politicagem na escola. Tudo fica aceitável para quem esquece de si mesmo: cair de nível social, sentir a desconfiança do vendedor na hora de pedir crediário nas Casas Bahia... E pensar que, nas sociedades desenvolvidas (e no Brasil de anos atrás), o professor era uma autoridade: ser professor era um desejo de criança, era um cargo que trazia consigo respeito e confiança.

     Claro que apenas um cargo ou o status quo não mantém nem eleva a auto-estima de ninguém: Mas se tivéssemos políticas educacionais sérias, elaboradas por profissionais, escolas modernas e planos de desenvolvimento profissional e de valorização, nossos professores não seriam tolerantes com situações de desvalorização.

     Em recente pesquisa de meus alunos da Pedagogia com professores de escolas públicas, 47% dos mestres afirmaram que, se pudessem voltar no tempo, mudariam a escolha da carreira profissional. A escola foi atingida por uma crise de auto-imagem.

     A escola pode e deve constituir um ambiente de superação de limites, de incentivo, de confiança. Num lugar em que se vislumbra futuro e sentido de vida, onde se conquista autonomia, segurança e qualidade em cada ação, manteremos alta nossa auto-estima e elevar-se-á a daqueles que não tiveram a oportunidade de cultivar um bom conceito de si mesmo.

 

 

 

 

* Gilmar de Oliveira, psicólogo clínico e professor universitário (INESA); especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura.
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