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Psicologia e Educação

A escola aprendendo a ouvir (Edição Junho/2007)

     Consegui meu objetivo. Foram centenas de mensagens para minha caixa de e-mails após a publicação do artigo "uniforme que aterroriza". A maioria reclamando que o uniforme é feio e disso nada eu disse, outros testemunhando diretores ou orientadores ferozes ameaçando devorar criancinhas sem uniforme... Obrigado pelas mensagens, mas aspectos estéticos são difíceis de serem questionados, por isso os omiti...

     Lamento apenas a enormidade de erros de ortografia e concordância nas mensagens dos professores. 

     Mas o objetivo do artigo era mobilizar educadores, pais e as comunidades para refletirem sobre a forma como as crianças são tratadas nas escolas, principalmente de como ela é cobrada, muitas vezes sem o devido tato e sem a devida análise da situação por parte do educador. De como leis  e regras são impostas, mesmo quando injustas à maioria.

     Também relembro que, se o estatuto da escola ainda obriga o uso dessa "indumentária educacional", ele deve ser usado, mas com o devido bom-senso de se analisar questões, por parte dos diretores e orientadores, como clima chuvoso persistindo ou da obrigatoriedade do uso diário se apenas uma peça é dada. Quem sabe propor alternativas com os próprios alunos?

     Se quisermos desenvolver cidadãos críticos, comecemos pela escola dar voz e vez aos alunos, dentro de assuntos do cotidiano deles, como merenda, tarefa, atividades... Até porque, dentro das questões psicológicas implicadas no uso do uniforme está a inserção ao grupo, a necessidade de auto-afirmação não repousar na roupa de grife e, claro, da economia de roupas. Mas acima de tudo a pessoa se sente inclusa quando é ouvida, quando é percebida como alguém que pensa, que sente, que pode compreender o mundo, seus limites e potenciais.

     Nossas crianças estão cada vez mais achando a escola chata. Também achávamos... Sim, nós, com mais de 30 (...) anos, lembram-se? E isso é um processo normal, se considerarmos que a escola não atende, há tempos, aos anseios das crianças e adolescentes que por ela passam. Os apelos do mundo externo e multimídia  são mais fervorosos e abalam a capacidade de julgar dos mais novos...onde está a escola nesta luta? Apenas reprimir ou ditar normas resolve?

     Regras devem ser trabalhadas na escola, para que esta ensine os porquês das regras, ou seja, seus motivos. Nenhuma escola deve ensinar o que é certo ou errado: isto é tarefa dos pais.

     A escola ensina, a família educa. Não quero que ninguém diga aos meus filhos que roubar é errado. A escola deve ensinar que roubar é crime, é contra as leis sociais. O máximo que a escola pode e deve fazer, numa sociedade laica, é explicar porque existem as leis, o motivo da  sociedade seguí-las. O aluno e a família podem discutir  e encontrar suas conclusões sobre seguir ou não leis e normas e assumam a responsabilidade sobre suas escolhas e atos.

     Assim também com o uniforme. Discutir soluções à falta de camisas, discutir e entender sua "obrigatoriedade", discutir e propor situações menos opressivas, eis a escola democrática e cidadã. 

     A severidade deveria sair dos atos dos educadores e ser oferecida aos professores que mal sabem sua disciplina, às secretarias que contratam professores substitutos sem a mínima qualificação, aos pseudo-profissionais, os quais não sabem sequer para quê serve o que ensinam, quando ensinam; para diretores que mal sabem escrever ou interpretar

     A escola atual deve ser acolhedora, compreensiva com a diversidade, preparada para atender situações específicas, conforme o caso, sem deixar leis e regimentos flexíveis, apenas humanos.

     As leis devem servir à justiça, e não a justiça ser morta por leis cegas (ou mal interpretadas).

     Não estou aqui falando do uniforme, você, leitor, notou. Ele é mais um ponto a ser repensado numa escola humana e aprendiz. Verso aqui pela cidadania, pela humanidade, pela responsabilidade do educador ser exemplo, que é o que educa de fato.

     Pela cordialidade no tratamento com nossos filhos. Por uma escola dinâmica, prazerosa, que faça sentido na vida dos jovens.

 

 

 

* Gilmar de Oliveira, psicólogo clínico e professor universitário (INESA); especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura.
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