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Psicologia e Educação

Por uma Educação Transformadora (Edições Fevereiro/2007)

     No artigo anterior afirmei que as crianças acham a escola chata. Muita gente torceu o nariz, mas, para minha alegria, estes voltaram seu olhar e seus ouvidos para o educando e confirmaram o que relatei aqui.

     O mais importante é entendermos o motivo dessa repulsa pela sala de aula. Nós, professores, provavelmente estranhamos as escolhas dos alunos dos dias atuais. Isso se deve porque em nosso tempo a escola era um ponto de encontro com o novo, era o atrativo de tantas crianças que, fora da escola, tinham apenas Os Trapalhões como grande atração semanal. Chegávamos a prestar atenção ao Jornal Nacional, tamanha a nossa falta de opções e de contato com o mundo.

     Atualmente, nossas crianças, por mais carentes que sejam, estão mais “linkadas” com as alternativas de contato e exploração do mundo moderno. A escola precisa entender isto.

     Com o evidente desinteresse dos alunos pela maior parte das aulas e assuntos, cabe ao educador olhar para si mesmo como um agente transformador. Alguém que compreenda a necessidade de transformar os conteúdos obrigatórios quanto à sua forma de apresentação, de instigar, de dar sentido e vida ao que se ensina em sala de aula.

     Nossos alunos precisam de desafios, de informações, de contextualização. Mesmo os mais carentes podem ter acesso à informação, a seus projetos de consumo. Olham os carros, olham computadores e deles não têm medo. Olham os prédios, a arquitetura do seu mundo mudando, e sabem que estão fora desta corrida sem o conhecimento.

     Muitas famílias desestruturadas colaboram para que a perspectiva de mundo seja a do externo. Nossa perspectiva de mundo era através do olhar de nossos pais e mestres. A dos nossos alunos é a mídia, é a rua, a moda, o consumo, o desafio dos games.

     E chegamos à sala de aula com a mesma forma de repasse de nossos antepassados. Falando de assuntos desconexos com a vida dos alunos, mesmo quando o próprio conteúdo naturalmente desperta o interesse dos menores.

     Na verdade, o assunto é o mesmo, mas existem formas de despertar a atenção dos alunos. Não há, caro mestre, uma receita de bolo, algo pronto. Do outro lado das carteiras estão seres humanos que já contém uma carga que os diferencia entre si e entre nosso mundo e o deles.

     É preciso lembrar das dicas de Paulo Freire, sobre vincular o conhecimento à realidade do educando. Se fecharmos nossos olhos e rotularmos o aluno como alguém que só pensa em videogame, veremos apenas um alienado sentado na sala de aula.

     Quantos projetos ligados entre si poderemos elaborar, com a ajuda do próprio aluno, usando a dinâmica dos jogos de Rolling Playing Games, por exemplo? E a montagem de um DVD-ROM, com um tema sugerido por eles próprios, estaria longe de nossa realidade?

     Se a alternativa é usar  caixas de papelão e imaginação, máquinas fotográficas,  fotos antigas, teatros, simulações, aulas de vídeo, palestras, também resolvem bem muitas de nossas necessidades.

     Gravações de voz e de imagem, vivências de RPG (com consultoria dos próprios alunos), cartões e cromos com gravuras de personagens e regras gramaticais, ajudam. Tudo pode ser construído na escola...pelo grupo!

     Muitos dos leitores desta coluna devem estar  me espinafrando, questionando como sugerir isto a professores que trabalham mais de 40 horas semanais e mal têm tempo de preparar aulas e viver.  Mas o que será de nosso país sem a ação transformadora do professor?

     Se o Estado não investe em capacitação, em reciclagem de manejos didáticos então tudo está perdido e ficamos nós com o modo desinteressante mesmo? Se ninguém nos apóia, algum motivo existe, concorda?

     Talvez seja porque ensinar a pensar e compreender seu papel no mundo não faz parte da cartilha de nenhum governo da América Latina (exceto Chile). Talvez seja porque nós, educadores atuais, mesmo sem querer,  reforçamos os valores da sociedade que aí está, vazia, imediatista, materialista...

     E o professor, ao iniciar uma nova forma de inserir-se na sociedade de informação, ao ouvir seus alunos, ao criar, ao libertar-se da didática tradicional (e desinteressante), dos assuntos vazios, age  como um verdadeiro revolucionário (lembram de nossos ideais?), que faz pensar, que mostra o mundo, que desperta o interesse pela análise fundamentada dos alunos, tornando a aula e a escola um centro de troca, um centro de vida e de um pensar transformador.

 

 

* Gilmar de Oliveira, psicólogo clínico e professor universitário (INESA); especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura.

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