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Histórias da Educação

Conselheiro Mafra: O primeiro “templo de civilização” catarinense (Edição Janeiro/2007)

Por Gladys Mary Teive Auras*

 

No dia 15 de novembro próximo passado(2006), Dia da Proclamação da República, foi comemorado o 95° aniversário do primeiro grupo escolar implantado em Santa Catarina: o Grupo Escolar Conselheiro Mafra, de Joinville. A data não poderia ser mais emblemática: os grupos escolares foram criados no Brasil, a partir de 1890, para serem os pilares da República, a instituição que segundo o imaginário republicano, deveria civilizar através da alfabetização, da educação moral e cívica e do acesso a conhecimentos científicos básicos, assim como integrar o imigrante estrangeiro a nação, enfim, nacionalizar, higienizar, ajustar o povo brasileiro aos novos valores e aos novos costumes da sociedade capitalista.

Templos de civilização, como bem os denominou Rosa Fátima de Souza, os grupos escolares representaram até o início da década da 1970 – quando por força da Lei 5692/71 foram substituídos pela escola de 1° grau-, o ideal de escola moderna: ensino graduado e racionalizado, classes divididas por idade, sexo e grau de adiantamento das crianças, prédios, instalações e mobiliários construídos segundo os modernos preceitos higienistas, predomínio de disciplinas de caráter enciclopédico, aulas de ginástica, música e trabalhos manuais, método de ensino e materiais didático-pedagógicos baseados nos últimos ensinamentos da pedagogia, leia-se do método de ensino intuitivo ou lições e coisas, principal ícone da pedagogia moderna.

Foi alicerçado nos pressupostos desse método que o professor paulista Orestes Guimarães – especialmente contratado pelo governo do Estado para reestruturar/modernizar a instrução publica catarinense -, organizou o Grupo Escolar Conselheiro Mafra e, posteriormente, os demais seis primeiros grupos escolares catarinenses, a saber: Grupo Escolar "Jerônimo Coelho", em Laguna e Grupo Escolar "Lauro Muller", em Florianópolis, ambos no ano de 1912 e os Grupos Escolares "Vidal Ramos", em Lages, "Silveira de Souza", em Florianópolis, "Victor Meireles", em Itajaí e "Luiz Delfino", em Blumenau no ano de 1913.

Tal como se pode constatar, os primeiros grupos escolares foram implantados nos centros urbanos de maior porte do Estado, haja vista a exigência, para a sua criação, de no mínimo uma demanda de 300 crianças em idade escolar, dos sete aos quatorze anos e, sobretudo, devido aos altos custos que representavam para os cofres públicos a sua instalação e manutenção. Nos municípios de médio e pequeno porte – a grande maioria na época -, continuaram funcionando as escolas isoladas e as escolas reunidas, de modelo multisseriado, com um/a só professor/a. Com efeito, nas quatro primeiras décadas do século XX, os grupo escolares constituíram-se numa forma escolar eminentemente urbana, o que aponta para o fato de que o ideal republicano de civilização através da educação escolar via grupos escolares, não alcançou uma parcela significativa da população catarinense.

Todavia, até mesmo na memória daqueles/as que não puderam freqüentá-lo, os grupos escolares permanecem como modelo de escola de qualidade, não sendo difícil encontrar ainda hoje pessoas que se referem à escola fundamental de 1ª à 4ª série como "grupos escolares". Ademais, a cultura escolar inaugurada nesta forma escolar, mesmo tendo passado quase meio século de sua extinção, ainda pode ser percebida nas escolas atuais, seja no que se refere ao ensino graduado e simultâneo, nos horários pré-determinados e na racionalização do trabalho escolar ou, ainda, em outras práticas escolares mais sutis, tal como as premiações e os castigos morais.


Professora titular do Departamento de Estudos Especializados em Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado de Santa Catarina. Doutora em Educação pela Universidade Federal do Paraná. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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