Por que as eleições americanas são tão diferentes assim?

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Em um mesmo momento termos eleições em mais de 5000 municípios brasileiros e com resultados claros e objetivos saindo tão rapidamente, e ver o país que é a maior potência econômica do mundo ter eleições que parecem tão estranhas e desorganizadas nos faz levantar essa questão. Por que motivo as eleições deles são tão estranhas?

Para isso, como para quase tudo, temos que olhar para a origem. Em 1776 tivemos 13 colônias inglesas da América do Norte declarando sua independência da metrópole e se unindo na guerra que teriam pela frente, formando assim os Estados Unidos da América. Na luta contra a monarquia inglesa decidiram que iriam criar um governo republicano (copiando ideias da república romana – e as inspirações ficaram tão claras que muitos dos prédio governamentais hoje possuem arquitetura greco-romana e até estátuas dos primeiros líderes usando togas).

Ao contrário do que muita gente pensa a ideia de repúblicas não tinha morrido na Idade Média e Moderna, mas os Estados Unidos (que ainda tinham menos de 1/5 do seu território atual) seriam a maior república moderna a ser criada (em extensão e população).

Mesmo a França, que chegou a ter alguns poucos anos de república durante a Revolução Francesa, teve muita dificuldade para organizar eleições em seu território considerado extenso para uma época sem telefone telégrafo ou tecnologias do tipo. Fazer eleições em um território tão extenso era tão complexo que os franceses por exemplo não determinaram de quanto em quanto tempo essas eleições existiriam quando criaram a regra (mas logo a república caiu)

No caso dos Estados Unidos, entretanto, queriam organizar um sistema em que todos os homens livres votassem e que não houvesse nenhuma opressão sobre eles (por isso cada uma das 13 colônias virou um estado com suas próprias leis e governos e não submetido a quase regulamentação federal nenhuma) e na hora de escolher um presidente para o país todo, devido ao tamanho da complexidade disso, cada estado faria a sua própria eleição interna da forma como bem desejasse, os estados eram pequenos, podiam organizar isso. Após terminarem as eleições internas cada estado enviaria seus delegados para a capital com a função de fazerem uma eleição federal onde somente esses delegados votassem representando os desejos de seus estados, e assim o presidente seria eleito.

Ao contrário de um país como o Brasil (ou como a França) onde houveram tantas trocas de poder e novas constituições, os Estados Unidos conseguiu se manter estável até os dias de hoje tanto que sua mesma constituição continua ativa até hoje. Mesmo hoje sendo 50 estados e não 13, cada estado organiza suas eleições internas (e cada um com suas regras que vão desde aceitar voto por correio a urna eletrônica) e após ganhar em um estado os delegados desse estado repassam o voto final (claro que hoje não precisa haver deslocamento físico a cavalo desses delegados para votarem).

O fato é que isso faz com que é possível que um presidente vença tendo tido menos votos totais (como ocorreu com Trump em 2016) uma vez que ele tenha ganhado em mais estados levando mais delegados e perdido na soma total de votos (que não importa na decisão da escolha do vitorioso)

E é verdade que nos Estados Unidos só existem dois partidos? Não, nada mais longe da verdade. Existem centenas de partidos lá, até mais do que no Brasil. A diferença é que lá partidos podem ser locais, apenas de um estado ou apenas de uma cidade. E ainda é possível se lançar candidato sem partido. Assim sendo a maior parte dos partidos não lança candidatos a presidência. Mesmo assim, só essa última eleição foram 4 candidatos oficiais nas eleições, e por incrível que possa parecem mais de 1200 candidatos à presidência no total. Mas como assim?

Isso por que antes de ocorrer as eleições finais existem as prévias locais, as regionais e as nacionais. São eleições internas dentro de cada partido que começa com a eleição para ver quem será o candidato a ser candidato (parece estranho né). Então cada estado escolhe quem será o candidato daquele estado até que haja as prévias internas de cada partido a nível nacional, onde chega-se a dois candidatos principais e na última eleição interna o partido escolhe quem será o candidato oficial. Em geral esse processo todo faz com que haja muito mais participação política no dia a dia e não apenas na hora de uma eleição a cada 2 ou 4 anos.