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JECC 3 - Resenha _ O PASSO A PASSO DA PRODUÇÃO DE UM PROJETO INOVADOR

 

SEIXAS, Caio Dib de. Guia de sobrevivência da educação inovadora/ Caio Dib de Seixas. 1 ed. São Paulo: Ed. Do Autor, 2018.

 

O livro “Guia de Sobrevivência da Educação Inovadora” foi escrito e publicado por Caio Dib de Seixas, jornalista formado pela faculdade Cásper Líbero, escritor de “Caindo no Brasil: uma viagem pela diversidade da educação” e “Educação Reinventada: a tecnologia como catalisadora de uma nova escola”. Faz parte do conselho editorial da revista do Sindicato do Ensino Privado do RS (SINEPE/RS), do comitê de inovação do curso de Pós-Graduação “Gestão da Aprendizagem” da Universidade Braz Cubas. A obra tem como objetivo trazer dez tópicos para a sustentabilidade de um projeto educativo, a partir das experiências vividas por ele nas entrevistas e convivência com educadores inovadores. Ou seja, ele traz uma perspectiva dos “bastidores” do desenvolvimento de um projeto educacional sustentável e formas de mantê-lo.

O livro conta com um prefácio da Priscila Cruz, presidente e fundadora do movimento “Todos pela Educação”, que expõe dois grandes problemas da educação brasileira: um de natureza técnica, que viria da falta de coerência entre políticas públicas e a baixa capacitação profissional, e o outro, de natureza política, no qual ocorre uma precarização da gestão. Assim, ela constata que é preciso ouvir e apoiar os professores, afinal um país sustentável não se faz sem a educação.

Antes de começarem os capítulos, cada um correspondendo a um dos tópicos para a construção de um projeto educacional, tem-se dois tópicos curtos. O primeiro traz a fala do professor Cássio Bastos retratando o pioneirismo de Caio Dib ao retomar sua empreitada da construção do livro “Caindo no Brasil” e reforçando a importância dos estudos desse autor para ajudar nas inseguranças e dúvidas de quem quer transformar a educação. O segundo trata em responder a indagação: por que escrever esse livro? Nesse questionamento, ele traz a proposta de conectar conhecimentos em conjunto com entrevistas de professores e especialistas, já que a inovação acontece no ecótono, uma metáfora ambiental para intersecção. E assim constrói a ideia do que um professor precisa para construir, divulgar, patrocinar e manter seu projeto. Segundo Seixas (2018), apoiado nos estudos de Elizabeth Green e Lee Schulman, o professor, como o médico, precisa localizar o problema, determinar a melhor intervenção e agir. Aqui entra a verdadeira intenção do seu livro: traçar passos estratégicos, a partir de uma linguagem publicitária e empresarial, de como criar um projeto inovador e mantê-lo a longo prazo, com paralelos com empresas, ONGS, e projetos educacionais.

No primeiro capítulo depara-se com o conceito de marketing de desing centrado, e com a organização de um bom sistema de atendimento empresarial, a fim de tratar da importância de o professor conhecer a sua turma. E reforçar que o educador precisa saber quem é o seu aluno e como seu papel pedagógico está sendo empenhado na proposta educacional, trazendo como exemplo o livro “Cidade que brinca” da Nayana Brettas. O capítulo dois, intitulado “Base teórica pra que te quero”, Seixas reflete que o rigor científico da universidade pode acabar afastando os professores e os levando a agir com base no sentir. Mas ele alerta ter notado em suas buscas que os projetos mais interessantes e inovadores possuíam bases teóricas bem estruturadas. Para exemplificar, o autor discorre sobre o Programa de Educação em Células Cooperativas (PRECE), caracterizado por um hibridismo teórico, partindo de Paulo Freire e passando pelo psicólogo Carl Rogers. Seixas apresenta em seguida as três grandes lições que adquiriu com essa experiência: as iniciativas precisam partir de educadores que conhecem seus estudantes, é preciso fundamentar a prática com teorias e outras iniciativas para maior potência, e por fim, o inverso também se faz necessário, transformar boas práticas em teorias, sistematizando-as. Dessa forma, o capítulo busca abordar a dialógica da teoria e prática, citando as experiências da Cidade Escola Aprendiz, uma proposta de bairro escola e da Escola da Toca, uma proposta de dança das polaridades na práxis.

Os capítulos 3 e 4 abordam a colaboração e envolvimento. Vale ressaltar que o design do livro cria uma interação com o leitor, abrindo espaço para que o leitor coloque suas ideias no papel. Primeiro o autor vai tratar da interação com a turma, alertando que nem sempre sua proposta vai ser bem recebida, e aponta estratégias para conexão com ela: empolgação, aplicação prática da proposta, acreditar no trabalho por etapas e a longo prazo. No segundo momento, Seixas aborda a relevância de envolver toda a escola em um projeto, exemplificando com o projeto de extensão da Universidade de Brasília, Autonomia. A partir desse exemplo, ele consegue discorrer sobre a importância de uma rotina de encontros, debates, até que seja estabelecida uma cultura coletiva na escola. A importância de resultados parciais, eventos, trocas, uma gestão horizontal e deliberativa, e cita o filósofo Spinoza para trazer a alegria como potência em um projeto. Ao trazer os desafios, ressalta a dificuldade que se tem de lidar com os diversos significados de colaboração, e para embasar essa questão apoia-se no consultor canadense Adam Kahane e indica seu livro “Trabalhando com o inimigo”. E conclui que não há uma única solução para os problemas, é preciso aceitar os conflitos e ir aos poucos com as necessidades colaborativas.

Os próximos cinco capítulos trazem uma linguagem empresarial mais forte, a fim de ajudar na durabilidade de projetos inovadores, porém reforça uma visão mercadológica da educação. Assim, em capítulos como “A arte de negociar”, “Nas manchetes do jornal” e “Pagando as contas”, Seixas mostra como estar preparados para resolver conflitos e ter apoio de instituições. Ter boas estratégias de planejamento como entender que as negociações são feitas em etapas, ter o objetivo claro do seu projeto, adequar a linguagem para cada apoiador, como melhor divulgá-lo e como saber direcionar os resultados e trazer retorno para cada tipo de patrocinador. Essa etapa é permeada por dicas de marketing, a fim de criar um tom apelativo para que seu projeto alcance visibilidade e inspire outros, em certos escritos e design das páginas depara-se com uma linguagem de coaching. Mas em meio a esses capítulos, dois deles abordam a importância do registro na prática pedagógica e da avaliação, porém sem mudar a forma e a linguagem. Para falar do registro, ele traz novamente a experiência da Escola da Toca que se baseia na teoria U e na tematização para a produção e análise dos registros, na qual os educadores devem estar abertos a perceber e refletir sobre suas práticas junto aos demais. Para falar de avaliação, ele exemplifica com a ong Gaia+, que faz avaliações trimestrais com três tópicos: felicidade e autonomia, valores gaia e conhecimento formal das disciplinas. Conclui-se que projetos pontuais, por mais incríveis que sejam no momento, têm efeitos pontuais a longo prazo, por isso a necessidade de sustentabilizar projetos.

O último tópico, capítulo 10, aborda sobre a saúde do educador. Seixas reforça que um projeto não pode desestabilizar a saúde do professor. E apesar do alerta de buscar ajuda profissional em caso de sentir que precisa de um apoio maior para as questões de saúde, ele fala do uso da hipnose em tratamento de atletas, e do coaching mental, que não possuem comprovação científica. Em seguida, passa para um terreno um pouco mais seguro, e aborda os cuidados com a voz e com o corpo a partir dos especialistas: Cauê Ferreira, preparador vocal e André Trigueiro, psicomotricista, refletindo sobre esses dois instrumentos de trabalho do professor, que atuam diretamente na prática pedagógica e da necessidade de se manter saudável. Para concluir, deixa como mensagem final que seu objetivo foi aconselhar os educadores com maneiras de resolverem questões das mais diversas no dia a dia para que garantam a continuidade dos seus projetos.

Pode-se dizer que “Guia de Sobrevivência da Educação Inovadora” tem uma abordagem diferenciada na sua forma, design e linguagem, que são colocadas em uma perspectiva corporativa, de marketing empresarial. Porém, seu conteúdo não traz grandes novidades para além dos exemplos de projetos educacionais inovadores, abordando conceitos já muito discutidos dentro do meio pedagógico por Paulo Freire, Luciana Ostetto, Selma Guarrido Pimenta, Fátima Freire, e outros. Apesar da estrutura atrativa e interativa do livro, ele reforça o elo do inovador com o viés mercadológico e não transformador da sociedade. E por fim, seu objetivo de aconselhar formas de exercer uma práxis pedagógica ficou mais próximo de um passo a passo para estabelecer projetos com visibilidade e apoio, um guia para sobrevivência da educação como produto.

 

 Por -  Fernanda Gomes Vieira da Universidade do Estado de Santa Catarina

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