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JECC 3 - CONTRIBUIÇÕES DA RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA NO PROCESSO DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES

CONTRIBUTIONS OF PEDAGOGICAL RESIDENCE IN THE TEACHER TRAINING PROCESS

 

Ana Rozi Alves de Oliveira1

Danubia Tamanini Fiamoncini2

Sabrina Mellies3

 

RESUMO: Este trabalho descreve a prática docente vivenciada durante o estágio realizado na disciplina Estágio Curricular do curso de Pedagogia, do Centro de Educação à Distância da Universidade do Estado de Santa Catarina/UDESC. O estágio ocorreu de forma integrada à proposta do Programa de Residência Pedagógica da CAPES, no qual os estagiários estão vinculados como bolsistas. Ambos, estágio e residência pedagógica, foram realizados na Escola Municipal, localizada na Cidade de Balneário Piçarras/SC, com a turma do primeiro ano do Ensino Fundamental. O texto se encontra organizado de acordo com os seguintes tópicos: caracterização do campo de estágio; fundamentos que embasaram a prática de estágio como práxis pedagógica; atividades formativas realizadas; reflexões acerca da atuação no campo de estágio/residência pedagógica em tempos de pandemia.

 

Palavras-chave: Estágio. Intervenção. Residência Pedagógica.

ABSTRACT: This work describes the teaching practice experienced during the internship performed in the Curricular Internship discipline of the Pedagogy course, at the Distance Education Center of the State University of Santa Catarina/UDESC. The internship took place in an integrated manner with the proposal of the CAPES Pedagogical Residency Program, in which the interns are linked as scholarship holders. Both, internship and pedagogical residency, were held at the Municipal School, located in the city of Balneário Piçarras/SC, with the class of the first year of elementary school. The text is organized according to the following topics: characterization of the internship field; fundamentals that supported the internship practice as a pedagogical praxis; training activities carried out; reflections on acting in the field of internship/pedagogical residency in times of pandemic.

Keywords: Internship. Intervention. Pedagogical Residency.

 

INTRODUÇÃO

O presente artigo compartilha as experiências vividas no estágio curricular realizado no curso de Graduação Licenciatura em Pedagogia, do Centro de Educação a Distância da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Durante essa prática, realizaram-se as atividades de intervenção do Programa da Residência Pedagógica da CAPES, ao qual os estagiários são vinculados como bolsistas.

Ambos, estágio e residência pedagógica, foram realizados na Escola Municipal localizada na Cidade de Balneário Piçarras/SC, na turma do primeiro ano do Ensino Fundamental. É importante ressaltar que esse processo ocorreu durante a pandemia (COVID-19), período atípico para a maioria das áreas e suas atividades, consequentemente, também para a educacional. Nesse sentido, toda a prática de Estágio/Residência teve de ser adequada às necessidades da presente realidade.

No decorrer deste estudo é apresentado, detalhadamente, o processo de realização da referida prática, desde seu planejamento até a intervenção e os conhecimentos obtidos em tal percurso. Nesse sentido, pretendeu-se discorrer sobre as atividades que integraram essa prática de intervenção, destacando-se as principais contribuições para a formação docente, a fim de que sirvam de objeto de pesquisa para novos estudantes.

Quanto à organização estrutural, este trabalho está dividido em tópicos: o primeiro trata da caracterização do campo de estágio, dispondo de informações sobre o espaço físico da instituição; o segundo trata dos fundamentos que embasaram a prática de estágio como práxis pedagógica, assim como as atividades formativas realizadas em preparação para a prática docente. O último tópico traz a síntese das atividades realizadas nessa intervenção, assim como reflexões e análises acerca da atuação no campo de estágio/Residência Pedagógica em tempos de pandemia.

 

2 A INTERVENÇÃO DOCENTE COMO PRÁXIS PEDAGÓGICA NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL

O Estágio Curricular Supervisionado é parte integrante e fundamental do processo de formação docente. Considera-se, portanto, que o ato de intervir possibilita ao acadêmico a oportunidade de vivenciar a articulação entre a teoria e a prática, compreendendo-se que essas duas dimensões se articulam e se complementam. Barreiro e Gebran (2006) apontam que a formação para uma docência de qualidade deve estar pautada na atitude investigativa, tendo a pesquisa como princípio científico e educativo, uma vez que essa se mostra como uma proposição metodológica essencial para o rompimento das práticas produtivistas. Dentre os diversos tipos de pesquisa, destaca-se a pesquisa-ação como um importante componente na formação do futuro educador, pois:

Trata-se de uma opção teórico-metodológica que expressa um determinado posicionamento acerca da sociedade, da escola, do ensino, da profissão docente e do professor que [se] deseja formar. Formação entendida como projeto de desenvolvimento humano, por meio do qual se trabalha para que se possam produzir transformações no professor como pessoa (FRANCO; LISITA, 2008, p. 41).

Ainda de acordo com Franco e Lisita (2008), a pesquisa-ação possibilita a formação de um intelectual crítico, consciente da sua capacidade de produzir e recriar saberes, assim como, permite que o educador desenvolva autonomia em suas ações, especialmente no que trata da busca de conhecimento significativo, possibilita a renovação e a inovação constante em sua prática educativa.

A prática da pesquisa, portanto, permite que o educador esteja em constante reflexão sobre sua ação docente, pois, conforme André (2006), a pesquisa pode desenvolver no sujeito-professor a capacidade de reflexão sobre sua prática, enquanto docente, ao procurar novas possibilidades (conhecimentos, atitudes, habilidades, relações) que permitam a esse educador aperfeiçoamento, de tal maneira que ele seja um sujeito ativo no processo de emancipação das pessoas. Sendo assim, o professor deve fazer da pesquisa uma prática constante no exercício da docência, pois:

A pesquisa tem o poder de tornar o indivíduo conhecedor de novos fatos, que trarão consigo verdades, que se farão necessárias para futuras mudanças, ou simples dados que agregarão conhecimentos. A pesquisa torna o indivíduo conhecedor, curioso, pois quanto mais conhece ou pesquisa mais à vontade lhe aflora e o torna mais sábio (SANTOS et al., 2017, p. 7)

Como referente de estudo, o artigo sinaliza a prática de estágio como um importante momento na formação docente, uma vez que permite ao acadêmico dar seus primeiros passos como pesquisador, entendendo que uma prática de qualidade acontece por meio do constante exercício de ação-reflexão-ação. Segundo Paulo Freire (2013, p. 110), “a práxis na qual a ação e a reflexão, solidárias, se iluminam constante e mutuamente. Na qual a prática, implicando a teoria da qual não se separa, implica também uma postura de quem busca o saber, e não de quem passivamente o recebe”.

Essa mediação da aprendizagem, no ano de 2020, em que o mundo passou a ver e conviver com um triste cenário de pandemia, causado pelo vírus da COVID-19, sofreu um forte impacto. Por conta disso, os diversos setores como saúde, economia, educação, entre outros, tiveram de encontrar novas estratégias de atuação frente a essa realidade inédita. Falando mais especificamente sobre o setor educacional, e considerando-se a realidade de Balneário Piçarras/SC, no início da pandemia tudo ainda era incerto, com escolas adiantando seu recesso escolar, quando toda comunicação começou a ser realizada por WhatsApp ou através das redes sociais, tornando-se um momento confuso e cheio de incertezas.

A escolha de retomar as atividades presenciais, não foi tarefa fácil, pois todo esse processo gerou embates acalorados. Se de um lado havia professores e pais que preferiam que os alunos retomassem as atividades apenas em 2021, outros defendiam que a educação o retorno presencial. Para que a educação escolar não parasse, entrou em cena o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) como mediadoras no processo de ensino-aprendizagem. Quanto as TIC, elas podem ser assim conceitualizadas:

As tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) possuem um mesmo princípio, a possibilidade de usar sistemas de signos - linguagem oral, linguagem escrita, imagens estáticas, imagens em movimento, símbolos matemáticos, notações musicais, etc. - para representar uma determinada informação e transmiti-la (RIPA; GARCEZ, 2014, p. 26).

Assim, nesse município, adotou-se o ensino virtual por meio da plataforma Google Classroom para os alunos que tivessem acesso à Internet. Já para os alunos que não possuíam o tal acesso, disponibilizou-se nessas instituições atendimento aos alunos por meio de atividades impressas. Frente a essa realidade, o estágio curricular supervisionado IV não pode ocorrer no sétimo período, em 2020/2, considerando as mudanças ocorridas nas escolas em todo o país como também aconteceu na instituição de ensino onde os estagiários da UDESC realizariam sua prática pedagógica. Dessa forma, como a intervenção docente não seria possível de maneira presencial, decidiu-se que ela ocorreria somente no ano de 2021, no oitavo período do curso.

Nesse período iniciou também o Programa da Residência Pedagógica (RP), ao qual os estagiários estão vinculados como bolsistas pela CAPES. Como forma de preparação para o estágio no ano de 2021 e seguindo o cronograma da RP, aconteceram diversos momentos de estudo e formação, os quais contribuíram para o pensar e o fazer docente.

Anteriormente as atividades de intervenção docente, aconteceu o I Colóquio Interdisciplinar na formação docente: as bases curriculares e práticas pedagógicas que faz parte do Projeto de Ensino denominado A indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão na formação inicial: um olhar atento aos direitos humanos, organizado e oferecido pela Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC). Essa atividade foi parte integrante da prática estágio, com o objetivo de auxiliar no planejamento da prática docente em uma perspectiva interdisciplinar.

Em decorrência desse Colóquio, foi construído um resumo expandido, e a apresentação dos conteúdos se deu em forma de seminário temático. O seminário teve como temas principais: Ludicidade nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental; e Diversidade e Inclusão, os quais abrangeriam outros subtemas relativos a esses. Todo o processo de elaboração dessas atividades foi realizado pelos grupos formados para o estágio, sendo que cada um desses pôde optar por um subtema de seu interesse. Nosso grupo optou pelo tema Ludicidade nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, com o subtema Literatura Infantil e Educação Sexual na Infância.

O processo de elaboração e apresentação do resumo expandido foi uma tarefa bem desafiadora e relevante para a formação docente dos participantes, uma vez que permitiu o ensaio de novos passos aos pesquisadores. Esse trabalho realizou-se, inicialmente, por meio da pesquisa bibliográfica e teve como objetivo o levantamento de subsídios que sustentassem a aplicabilidade da literatura infantil nas práticas voltadas à educação sexual na infância.

As apresentações dos seminários temáticos aconteceram no mês de novembro, sob forma de intercâmbio, com acadêmicos pertencentes a outros polos de Pedagogia da UDESC. Foram quatro dias de trocas de conhecimentos, quando cada grupo apresentou os resultados de suas pesquisas, cujos assuntos foram pertinentes à formação acadêmica de todos.

A mesa temática do grupo de estagiários em questão teve como objetivo destacar a importância do uso da literatura infanto-juvenil como uma ação intencional para se trabalhar Educação Sexual. No dia, além de se falar sobre conceitos que denominam sexo, sexualidade e Educação Sexual, também se falou do uso da literatura infanto-juvenil como um importante subsídio cultural para se trabalhar diferentes temas, especialmente sobre temáticas relacionas à sexualidade. Além do que já foi referendado anteriormente, contou-se a história intitulada “Pipo e Fifi”, de Carolina Arcari e Isabela Santos cuja temática refere-se à prevenção da violência sexual na infância.

Todo o percurso descrito até aqui, somadas às experiências vividas no programa da Residência Pedagógica, tais como o estudo crítico da BNCC (BRASIL, 2017) e a intervenção docente no contexto online, ofereceram subsídios que ajudaram a pensar o planejamento e prática da intervenção docente.

2.1 Análises e Reflexões sobre a Experiência Docente no Campo de Estágio/Residência Pedagógica em Tempos de Pandemia

O estágio de intervenção foi realizado na mesma instituição na qual os estagiários são vinculados, ou seja, no programa da Residência Pedagógica. A Escola Municipal, localizada Balneário Piçarras/SC, no ano de 2020, adotou o sistema de aulas remotas por conta da pandemia. No início do período letivo de 2021, a instituição adotou o ensino híbrido, além de oferecer atividades impressas, ficando a critério dos estudantes/famílias a escolha da modalidade que desejassem cursar. Os estudantes que optaram pelo ensino híbrido se submetem a um revezamento, por meio do qual cada turma, separada em dois grupos, revezam o tempo de permanência na unidade escolar, sendo que as atividades presenciais se realizavam por semanas para cada grupo.

A turma na qual se realizou a intervenção de estágio/Residência Pedagógica detém vinte e dois alunos, sendo que quatorze estão no ensino híbrido (dois na modalidade online e seis na modalidade que recebeu atividades impressas). A atuação de nossa equipe se deu somente com os alunos no formato híbrido, com a turma dividida em dois grupos, conforme a organização já relatada.

A retomada ao campo de estágio ocorreu no mês de março do ano de 2021, quando se optou por permanecer na turma do primeiro ano do Ensino Fundamental, mesmo com as recomendações de que fosse acompanhada a turma do ano anterior, para que, de alguma forma os alunos fossem melhor mediados durante a prática do estágio de apoio pedagógico, por conta das condições enfrentadas no ano de 2020. Permanecer na turma em que a preceptora da Residência leciona e conciliar a residência pedagógica com o estágio exigiu mudança de intenções didáticas, mas foi uma experiência riquíssima.

Aproveitou-se parte do tema da sequência didática, elaborada para o Estágio Curricular Supervisionado IV, para a prática da Residência Pedagógica, na qual todas as atividades foram adequadas e elaboradas para que fosse possível se trabalhar a alfabetização de maneira lúdica, conforme orientações da professora regente da turma. Assim sendo, não foi possível desenvolver o projeto construído e apresentado no seminário referente ao colóquio anteriormente mencionado. Durante a prática, portanto, muitas atividades foram realizadas, porém para este relato se destacam os momentos abaixo descritos.

No primeiro dia de intervenção, após as apresentações pela professora Sandra, houve um momento de interação com os alunos, para expor a eles qual era a proposta de trabalho. A primeira sequência didática foi iniciada com a historinha sobre o “Bairro do Marcelo”, de Ruth Rocha, livro que narra as visitas de Marcelo e sua família aos estabelecimentos comerciais do seu bairro. Na sequência, foi explicado o que era bairro e quais os existentes no Município. Todos eles interagiram entre si e com os estagiários, tornando-se um momento muito gratificante e enriquecedor, pois pode-se conhecer a realidade do contexto social deles. Posteriormente, realizou-se um bingo de letras. Para essa atividade, todas as crianças receberam uma cartela de bingo alfabético (devidamente plastificada e higienizada). Em seguida, era sorteada cada vez uma letra de dentro de um saco plástico, que continha um alfabeto móvel completo, anunciadas em voz alta e as crianças tinham um tempo para reconhecer o nome da letra. Caso não conseguissem decodificá-la, tal letra era escrita no quadro para que eles pudessem marcá-la nas suas respectivas cartelas. Foram feitas quatro rodadas. Os alunos manifestaram bastante contentamento com a atividade do bingo alfabético, pois foi um momento de muito aprendizado.

Para a segunda sequência, foram realizadas atividades de Matemática com os números de 1 a 10. Mas, antes de iniciar essa atividade, houve um momento de conversa com os alunos, para descobrir o que já conheciam a respeito dos números. Nessa atividade os alunos tinham que relacionar o número a uma respectiva quantidade de elementos. Foram entregues a cada aluno uma cartolina na qual estavam escritos os números de 1 a 10 representados em uma linha horizontal e separados por linhas verticais que serviam para delimitar o espaço que poderia ser utilizado (para esta atividade os alunos receberam papel colorido em tiras, cola e tesoura). Depois das orientações de como realizar a atividade, os alunos cortaram quadrados e preencheram as lacunas com as respectivas quantidades estipuladas. Em todo o momento os estagiários estavam à disposição deles para auxiliá-los, orientando-os de que primeiro seriam dispostos sobre a cartolina os quadrados e somente após nossa conferência eles iriam colar a quantidade de quadrados que representavam o respectivo numeral. Ao mesmo tempo, também se trabalhou a noção de tamanho, pois quanto maior a quantidade, menor o quadrado tinha de ser. Nesse aspecto, pode-se perceber dificuldades por parte dos alunos. Essa atividade superou as expectativas, pois os alunos, também demonstraram bastante satisfação em realizá-la, e todo os artefatos ficaram com eles, para serem usados como material de estudo.

A terceira sequência didática foi a contação da história “Gotinha Plim Plim”, realizada em comemoração ao Dia Mundial da Água, comemorado dia 22 de março. A colega Ana Rozi contou a história do ciclo da água, que foi lindamente ilustrada em um livro produzido por ela e suas parceiras do Magistério. Ela conversou com os alunos sobre a importância da água em nossas vidas e também explicou para eles quais eram os três estados da água (sólido, líquido e gasoso). Na ocasião foi entregue aos alunos um exercício impresso em folha A4 sobre os estados da água, e no quadro foi desenhada a atividade que seria feita no papel para facilitar o seu desenvolvimento em classe. Desta forma, a atividade foi feita de maneira colaborativa.

A quarta sequência didática iniciou com a contação de história cantada, denominada “Coelho Tangolomango” inspirada na história contada e adaptada pela acadêmica Fernanda Gomes. Tratou-se de uma história divertida e diferente por ser cantada. Além disso, utilizou-se como recurso personagens feitos de papel e colados em palitos, que iam sendo mostrados conforme o enredo da história. Para continuar o trabalho com os numerais de um a dez, optou-se por realizar uma atividade de Matemática. Para isso foram impressas 10 cestas e eles deveriam desenhar os ovos nessas cestas, seguindo a sequência de 1 a 10, para depois colorir. Após terminarem essa última atividade, colocaram seus nomes e colaram no caderno. Em seguida, foi realizada uma pequena sessão de filmes animados sobre a presença da água nos bairros. Para tornar a tarde mais divertida, decidiu-se levar pipoca para estourar na escola, claro que tudo foi devidamente conversado e combinado com a professora Sandra, regente da turma.

A quinta sequência didática possibilitou uma troca efetiva de aprendizagem, através do “Ditado Estourado”, o que se consistiu em colocar dentro de balões algumas letras do alfabeto (menos as letras K, W, X, Y Z), pois os alunos, que estão em fase de alfabetização, precisavam reconhecer a letra sorteada, desde que essa sugerisse o início de algo presente no bairro em que moravam. Para trabalhar a alfabetização, também foram distribuídos alfabetos móveis, de uso individual, cuja intenção era que eles se familiarizassem com as letras e montassem as palavras que cada um decodificasse, utilizando o alfabeto móvel. Os alunos foram chamados um a um, para escolherem em um balão, falarem a letra que iniciasse o nome de algo que existia no bairro. Assim que o aluno falava a palavra, era escrita tal palavra no quadro e eles montavam no alfabeto móvel e copiavam no seu caderno de atividades. Essa atividade foi muito produtiva, pois todos interagiram e participaram com muito entusiasmo.

Na sexta e última sequência didática, trabalhou-se o ensino das vogais e encontros vocálicos, assunto que alunos já vinham aprendendo com a professora regente. Então foi contada a história “O reino das vogais”, utilizando-se como recurso um cenário de caixa de papelão com personagens confeccionados com palitos e cartolina. Após a contação dessa história, distribuiu-se aos alunos cartelas impressas, contendo as vogais e encontros vocálicos, assim como tampinhas de garrafas pet. Também, foram entregues a eles fichas individuais contendo as mesmas vogais e encontros vocálicos das cartelas, todas viradas para baixo, dispostas em uma mesa. Individualmente, os alunos vinham até a mesa, escolhiam uma ficha, a viravam e liam em voz alta para os colegas, sem que estes vissem o que estava escrito. Tendo feito isso, cada aluno deveria marcar com a tampinha em sua cartela a vogal/encontro vocálico que julgassem sorteadas e posteriormente passavam a colori-la, caso a opção estivesse correta (para isso foram mediados pelos estagiários/as).

A realização da intervenção estágio/residência pedagógica foi uma experiência bem instigante, apesar de alguns momentos desafiantes, mas de muitas aprendizagens. Por ser um momento atípico decorrente da pandemia, adentrou-se o campo de estágio com certa insegurança quanto à maneira de como agir, mesmo considerando-se as medidas de segurança a serem tomadas. No entanto, durante todo esse percurso, os estagiários foram muito bem acolhidos pela professora regente da sala, assim como foram retribuídos pelos estudantes que participaram ativamente de todas as atividades propostas.

Um dos principais desafios enfrentados ocorreu durante o planejamento das atividades, fato que se deu por dois motivos: primeiramente foi preciso adaptar o projeto de intervenção, levando-se em conta a defasagem de ensino ocorrida no ano anterior, considerando que os alunos estudaram de forma remota. Nesse sentido, houve mudanças no planejamento que precisou se adequar a essa nova realidade encontrada. Além disso, durante a realização do referido planejamento, surgiram dificuldades para selecionar propostas que se constituíssem em medidas de proteção, pois como trabalhou-se com materiais lúdicos e concretos, foi preciso cuidado quanto ao distanciamento e higiene dos estudantes.

Em meio a esses desafios, muitas aprendizagens aconteceram, no sentido da percepção acerca da necessidade de se reinventar atividades específicas do fazer docente. No que diz respeito ao cotidiano da sala de aula e quanto ao processo de ensino-aprendizagem, o sentimento foi de privilégio por se participar do processo de alfabetização dos estudantes. Foi muito satisfatória a troca de conhecimentos, estabelecida entre as acadêmicas, a professora regente e os estudantes. Todas as atividades tiveram pontos positivos e também aspectos a serem melhorados na prática. Destaca-se, ainda, que a professora regente ajudou muito neste processo, demonstrando várias especificidades do fazer docente, principalmente no tocante à alfabetização.

De acordo com a concepção de Cavalcanti (2010), percebeu-se que “ao estudar o lugar, pode-se atribuir maior sentido ao que é estudado, permitindo que se façam relações entre a realidade e os conteúdos escolares”. Neste sentido, as atividades realizadas na referida prática pedagógica, referentes ao estudo do lugar, contribuíram efetivamente para o processo de alfabetização dos estudantes.

Nos termos de Freire (2001, p. 98), considera-se que “o exercício da curiosidade convoca a imaginação, a intuição, as emoções, a capacidade de conjecturar, de comparar na busca da perfilização do objeto ou do achado de sua razão de ser”. Com base neste pensamento, acredita-se que as atividades realizadas perpassam o mero conteudismo, possibilitando momentos de questionamentos e reflexão acerca do objeto estudado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Procurou-se apresentar a prática de intervenção docente, realizada no âmbito da disciplina de Estágio Curricular Supervisionado, do curso de Pedagogia da UDESC, durante o Estágio Curricular e a Residência Pedagógica. Os fatos aqui apresentados centraram-se na descrição do itinerário e reflexões acerca dos conhecimentos obtidos por docentes e estagiários durante a intervenção docente nos anos iniciais, em tempos de pandemia.

Como se percebe as ações do estágio supervisionado em tempos assim peculiares foi realmente uma experiência desafiadora, quando vários sentimentos foram despertados, tais como medo, insegurança e ansiedade. Entretanto, experiências dessa natureza são momentos de muitas aprendizagens, quando se pode perceber a força e a capacidade de um professor de se reinventar. As atividades preparatórias, vivenciadas no segundo semestre de 2020 (atividades da Residência Pedagógica e mesas temáticas do Colóquio Interdisciplinar), somadas às experiências obtidas na prática de intervenção, contribuíram de forma efetiva para o crescimento das acadêmicas do Curso de Pedagogia.

Vivenciar o campo de ensino, nessa etapa de escolaridade, possibilitou compreender o rico universo da alfabetização. Foi algo muito relevante, pois permitiu o reconhecimento dessa prática, os pressupostos que embasam a aquisição da leitura e da escrita e a possibilidade de se acompanhar, mesmo que por um curto período de tempo, a rápida evolução dos estudantes em relação a esse processo.

Perceber os pequenos avanços dos estudantes em relação à leitura e à escrita reforça a importância da tarefa do professor alfabetizador, a qual exige responsabilidade e engajamento em prol de um ensino significativo e de qualidade. Realizar o estágio em meio a tantos desafios e adaptações, decorrentes do enfrentamento à pandemia do COVID-19, certamente foi uma experiência única e profícua.

Por fim, vale ressaltar que apesar de todas as dificuldades e inseguranças sentidas, realizar o estágio em tempos de pandemia foi uma grande oportunidade e uma experiência riquíssima, que com certeza marcou positivamente a formação acadêmica dos estudantes de Pedagogia/2021 da UDESC. Foi gratificante, portanto, vivenciar na prática a reinvenção das atividades educativas, o que favoreceu a compreensão acerca da profissão docente que deve se constituir em um constante processo de aprendizagem.

 

REFERÊNCIAS

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BARREIRO, Iraíde M. de F.; GEBRAN, Raimunda A. Prática de ensino e estágio supervisionado na formação de professores. São Paulo: Ed. Avercamp, 2006.

FRANCO, Maria Amélia Santoro; LISITA, Verbena Moreira Soares de Sousa. Pesquisa-ação: limites e possibilidades na formação docente. In: FRANCO, Maria Amélia Santoro. PIMENTA, Selma Garrido. (Orgs.) Pesquisa em educação: Possibilidades investigativas/formativas da pesquisa-ação. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação. 16. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

RIPA, ROSELAINE; Garcez, Ana Flávia. Educação a Distância e as Tecnologias Digitais: retomando conceitos e construindo possibilidades. In: GRACEZ, Ana Flavia; RIPA, Roselaine (Org.); ESCOBAR, Tatiana Pires; UNGLAUB, Tâni Regina da Rocha (Org.). Metodologia da Educação a Distância II. Florianópolis: DIOESC, 2014, p. 15-51.

SANTOS, Suani dos; FRANCISCO, Maria Aparecida; RAUPP, Graziela; LORENZET, Odimar. As contribuições da polícia pública municipal de Palhoça-SC no âmbito do desenvolvimento dos profissionais da educação. Redin-Revista Educacional Interdisciplinar, Rio Grande do Sul, v. 6, n. 1, p. 1-12, 2017. Disponível em:<https://seer.faccat.br/index.php/redin/article/view/649/505>. Acesso em: 14 maio 2021.

 

1 Acadêmica do curso de Pedagogia.

2 Acadêmica do curso de Pedagogia.

3 Acadêmica do curso de Pedagogia.

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