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JECC 3 - RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA: A FORMAÇÃO DOCENTE EM TEMPOS DE PANDEMIA

  1. PEDAGOGICAL RESIDENCE: TEACHER TRAINING FORMATION IN TIMES OF PANDEMIC

 

 

 

Jucilene Dellagiustina Frare1

Julie Anne Willrich Mahfud da Silva2

Rosane Martins Boneli3

 

 

Resumo: Este artigo tem o objetivo de descrever as experiências do estágio curricular do Curso de Pedagogia a distância da Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC/CEAD, polo de Jaraguá do Sul, durante o percurso de desenvolvimento do Programa de Residência Pedagógica/CAPES, nos anos de 2020 e 2021. As experiências envolveram situações diferenciadas de aprendizagem e formação, tendo como campo de estágio a Escola Municipal de Educação Básica Vitor Meirelles. Este estágio ocorreu em meio à pandemia causada pelo novo Coronavírus e passou por períodos de ensino remoto e semipresencial. As atividades foram aplicadas com as turmas dos 2º anos do Ensino Fundamental em aulas de reforço já no período de retomada das aulas presenciais para os grupos que apresentaram dificuldade no processo de ensino-aprendizado, e, a partir disso, foi desenvolvido um plano de aula próprio para esses educandos. Percebeu-se que o desafio das acadêmicas/residentes foi o de não apenas apoiar por meio dos conteúdos de aprendizagem, mas especialmente de propiciar aos educandos a crença em suas capacidades, despertando o gosto pela construção de novos saberes, fomentando assim o desejo por novos conhecimentos.

Palavras-chave: Residência. Alfabetização. Planejamento. Prática Docente. Anos Iniciais.

Abstract: This article aims to describe the experiences of the curricular internship of the Distance Pedagogy Course at the State University of Santa Catarina UDESC/CEAD, Jaraguá do Sul, during the course of development of the Pedagogical Residency Program/CAPES, in the years 2020 and 2021. The experiences involved different situations of learning and training, with the Vitor Meirelles Municipal School of Basic Education as the internship field. This stage took place in the midst of the pandemic caused by the new Coronavirus and underwent periods of remote and blended teaching. The activities were applied with the 2nd year classes of Elementary School in reinforcement classes already in the period of resumption of in-person classes for groups that had difficulties in the teaching-learning process, and, based on that, a lesson plan was developed suitable for these students. It was noticed that the challenge for academics/residents was not only to support through the learning contents, but especially to provide students with a belief in their abilities, awakening the taste for the construction of new knowledge, thus fostering the desire for new knowledge.

 

 

Keywords: Residence. Literacy. Planning. Teaching Practice. Early Years.

 

 

1 INTRODUÇÃO

 

O presente artigo traz as experiências do estágio curricular no decorrer da 7º fase do curso de Pedagogia a Distância da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), no polo situado na cidade de Jaraguá do Sul - SC. O período de intervenção docente foi do dia 26 de agosto de 2020 a 30 de abril de 2021. Inicialmente apresentamos o contexto e a caracterização do campo de estágio. O planejamento foi realizado em conjunto com as professoras preceptoras e o desenvolvimento do projeto de intervenção foi realizado com a turma do 2º ano do Ensino Fundamental. Devido à reclusão e isolamento social em decorrência da pandemia causada pelo novo Coronavírus, as escolas foram fechadas e o ensino ocorreu somente de forma remota em 2020. Este fato gerou, por diversas questões, defasagem de aprendizado em todas as turmas, tendo maior impacto nos anos iniciais devido ao ciclo de alfabetização, por esta razão o foco do projeto foi a alfabetização, o letramento e a oralidade. Buscamos trabalhar de maneira lúdica, pensando em proporcionar momentos ricos de aprendizado, e ainda resgatar a autoestima e confiança das crianças em sua capacidade de aprender, uma vez que estas voltaram do período de reclusão dispersas e inseguras.

Este trabalho foi norteado pela seguinte problemática: no que os estudantes de Pedagogia, inseridos num Programa de Residência Pedagógica, podem contribuir no processo de alfabetização de educandos dos 2° anos? Assumindo como objetivo geral a ideia de contribuir no processo de alfabetização, letramento e oralidade dos educandos do 2º ano que apresentaram maior dificuldade de aprendizagem em decorrência do ensino remoto do ano anterior. Os objetivos específicos: mediar situações para que os alfabetizandos reconheçam as letras do alfabeto, o som das letras e a sua forma escrita; estimular o prazer pelo aprendizado por meio do lúdico; incentivar o reconhecimento das capacidades do educando, bem como o resgate da sua autoestima; perceber quais sons se deve representar na escrita e como; estimular a imaginação e a atenção.

A motivação do Projeto de Reforço foi de contribuir com os educandos do 2° ano, nos processos de alfabetização, visto que em diagnósticos estavam com dificuldades em decodificar a representação gráfica e sonora dos sistemas alfabéticos tão necessários para aquisição da leitura e escrita, desta forma, inviabilizando que avançassem nos processos de letramento, algo fundamental para a prática social. Compreende-se que esta prática faz parte dos contextos sociais e das relações e expressões dos sujeitos, uma vez que a proposta elaborada justificou-se pela importância de desenvolver as habilidades e conhecimentos no que se refere à alfabetização e letramento dos educandos do segundo ano do Ensino Fundamental.

Traz-se aqui os processos realizados na Residência Pedagógica/Estágio que incluem a leitura de contexto realizada no primeiro semestre de 2020, o projeto de intervenção aplicado na prática docente, e posteriormente suas análises e reflexões quanto à práxis pedagógica. A metodologia utilizada foi a pesquisa-ação, na qual a base da pesquisa é apoiada nas experiências vividas, tendo como apoio a teoria sobre a situação a ser estudada e com a intervenção direta dos pesquisadores e dos participantes implicados no contexto. Tudo isso tem como suporte a teoria sobre a situação a ser estudada e com a intervenção direta dos pesquisadores e dos participantes implicados no contexto. Neste caso, a metodologia de pesquisa que mais atende às características necessárias ao estágio é a pesquisa-ação.

Segundo Baldissera (2001, p. 8), ao tratar sobre a pesquisa- ação participativa diz que, “a forma de pesquisar a realidade implica a participação da população enquanto agentes ativos e conhecedores da sua própria realidade para possibilitar os conhecimentos necessários para mudanças satisfatórias”, ela busca solucionar problemas de forma mais eficaz. Esta socialização de experiências e conhecimentos com outras pessoas envolvidas no projeto faz da pesquisa-ação uma pesquisa participativa, democrática, produzida pela partilha de conhecimentos. Assim, a pesquisa-ação se encaixa perfeitamente para o estágio, proporcionando uma boa relação entre teoria e prática no qual traz para o estagiário uma dinâmica que permite pesquisar e refletir sobre a realidade do campo de estágio visando relacionar o aprendizado com a prática existente, mas também contribui com transformações em si mesma. Portanto, pretende-se não apenas imitar as práticas docentes de maneira reprodutiva, reduzindo o estágio à mero “ativismo”. A partir desta perspectiva, nela, o estágio torna-se parte fundamental do nosso processo criativo e socializador da formação docente.

Nesse sentido, são apontadas as atividades realizadas e aprendizados obtidos ao longo deste período de vivências. O estágio nos proporcionou diversos momentos ricos em experiências em que pudemos rever as teorias e metodologias estudadas a fim de repensarmos e (re)planejarmos o ensino aplicado, nos despertando reflexões quanto à necessidade de serem elaborados bons planejamentos que tenham intencionalidade de aprendizado. Percebemos que o nosso desafio enquanto estudantes/residentes foi o de não apenas apoiarmos por meio dos conteúdos de aprendizagem, mas especialmente de fazermos os educandos acreditarem na sua própria capacidade, despertando neles o gosto pela construção de novos saberes, fomentando assim o seu desejo por novos conhecimentos.    

                                     

  1. 2 PERCURSO DE FORMAÇÃO DOCENTE NO PERÍODO DE PANDEMIA

 

Ao longo dos estudos no semestre 2020/2, o processo de formação docente aconteceu de maneira totalmente a distância, devido à pandemia causada pelo novo Coronavírus, o SARS-COV 2, visto que é um vírus que se espalha de forma rápida, contaminando as pessoas, podendo levar a óbito, e, em muitos casos ocasionando problemas graves de saúde, ao se contaminar com o vírus (MARANHÃO et al, 2019). Sendo esse o motivo que forçou a interrupção dos encontros presenciais no polo UAB, como forma de conter a propagação do vírus.

Apesar do isolamento, houve a oportunidade no decorrer do semestre de participar das mesas temáticas do I Colóquio Interdisciplinar de Pedagogia promovido pela UDESC/CEAD, integrando diversas ideias que permitiram dialogar e refletir com os professores e professoras e demais palestrantes sobre os conteúdos que fizeram parte da formação na sétima fase, no qual tiveram cinco mesas temáticas que articulavam os conteúdos das disciplinas do semestre 2020/2. Compreendeu-se, portanto, que todas foram fundamentais no processo de formação, porém é importante citar algumas reflexões, entre o que se julga fundamental, para pensar em um planejamento que contemplasse as necessidades da alfabetização.

A mesa temática 1, "Ludicidade nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental", foi abordada com as palestrantes Profa. Dra. Juliane Odinino e Me. Luciane Volken. O diálogo permitiu compreender e refletir, quanto à importância de o docente trabalhar nos primeiros anos do Ensino Fundamental propostas pedagógicas com os educandos, que propiciem a continuidade de práticas lúdicas, que se fazem presentes no cotidiano da Educação Infantil, para que as crianças não percebam uma interrupção no processo escolar, mas uma continuidade de aperfeiçoamento das aprendizagens e habilidades, propostas nos documentos que norteiam a Educação Básica.

Portanto, esses diálogos colaboraram para que a elaboração do Projeto de Intervenção trouxesse brincadeiras e jogos, buscando em pesquisas e teorias estudadas propostas de alfabetização e letramento, por meio do lúdico. Estima-se que estas práticas pedagógicas no campo de estágio, podem contribuir de forma eficaz e animadora com o ensino-aprendizagem das crianças. Lima e Pimenta (2005/2006) apontam que o estágio é uma atividade curricular, em que a atividade é fundamentada pela teoria e a prática permite o diálogo e intervenção da realidade, enfatizando que é no contexto da sala de aula da escola e do sistema de ensino que a práxis ocorre.

Com o Decreto Estadual Nº 13.715/2020, publicado no dia 17 de março do mesmo ano, no qual as escolas fecharam cem por cento, os educandos passaram todo o ano letivo em ensino remoto. Por conta deste cenário houve uma defasagem no processo de ensino-aprendizagem de muitas crianças, uma vez que nem todas possuíam a estrutura necessária para que o aprendizado acontecesse em casa. Uma adaptação necessária!

Devido a esse fato, a escola e as professoras propuseram a elaboração de um planejamento que visasse reforçar especificamente a alfabetização, o letramento e a oralidade, no qual a ação de colaborar neste processo com os educandos, se fazia imprescindível. Vasconcellos (2002) destaca que ao planejar devemos estar atentos para as necessidades que possivelmente podem surgir, ou nos problemas e contradições presentes, devendo partir da realidade concreta. Portanto, frente às dificuldades ocorridas nos processos de ensino, pensou-se em um Projeto que contribuísse nas demandas específicas dos/as educandos/as.

O Projeto de reforço escolar, viabilizado por meio do Programa da Residência Pedagógica/Estágio Curricular, foi realizado em conjunto com as professoras regentes e pensado para retomar todo o processo de alfabetização dos conteúdos iniciais, já que em sondagem anterior feita nas turmas de segundo ano, o nível de aprendizado dos alunos era ainda compatível com os conteúdos do início do 1° ano do Ensino Fundamental. A Base Nacional Comum Curricular (BRASIL/BNCC, 2018) também orienta para os 1º e 2º anos do Ensino Fundamental ações pedagógicas tendo como eixo a alfabetização e letramento, priorizando o envolvimento de práticas diversificadas de letramento, permitindo que aos poucos os/as educandos/as se apropriem da escrita alfabética e desenvolvam habilidades da leitura (BRASIL, 2018). Nesse sentido, procurou-se realizar as intervenções amparadas nos documentos curriculares, que expressam quais aprendizagens contribuem no desenvolvimento das habilidades da oralidade e da escrita dos/as educandos/as.

Entretanto, em 2021/1 o ensino nas escolas está ocorrendo de forma escalonada, na qual as crianças estão divididas em dois grupos e esses se revezam entre ensino remoto e ensino presencial semanalmente, conforme estabelecido pelo Decreto Estadual nº 1.003/2020 - que regulamenta a volta das aulas presenciais. É importante salientar que, durante o período de intervenção, seguiu-se as normas do protocolo de segurança estabelecidas pela legislação vigente. Uma das medidas realizadas com as turmas, com as quais se trabalha nesse relato, expressam-se a nova dinâmica dos encontros que acontecem a cada quinze dias, visando com isso, manter a segurança e a saúde de todos os envolvidos.

Garcia et al. (2020, p. 6) colabora ao dizer que, “[...] do ponto de vista didático, o professor, ao ensinar remotamente, enfrenta o mesmo desafio do ensino convencional, em sala de aula presencial”. Diante disso, compete ao professor/a pensar num planejamento que ofereça aos educandos/as uma aprendizagem dos conteúdos de forma objetiva e clara, a fim de contribuir para o desenvolvimento de habilidades, inclusive com as tecnológicas, visto que é a nova forma de ensinar e aprender no ensino remoto/híbrido.

É perceptível que a escola em questão vem se empenhando no exercício de construir a sua prática de acordo com os documentos curriculares e o seu PPP. Nestes os/as professores/as têm buscado repensar a sua prática em sala de aula, bem como para os/as educandos/as que estão realizando seus estudos em casa de forma remota, assim procurado cada vez mais ressignificar as aprendizagens na modalidade online, assunto este, abordado também no decorrer desse texto.

 

2.1 Análises e reflexões docentes no campo de estágio/residência pedagógica em tempo de pandemia

 

A disciplina de estágio IV, em 2020/2, ocorreu de forma remota, porém na oportunidade de participarmos da Residência Pedagógica, foi possível articular a prática docente no modelo presencial para o estágio curricular. Leite et al. (2018, p. 721) afirmam que “[...] a formação docente é, reconhecidamente, uma ação complexa, sobretudo quando se reflete a respeito do papel do professor, bem como sobre sua função social”.

Nesse período foram realizados estudos teóricos como forma de aprofundar os conhecimentos da BNCC (BRASIL, 2018), em que a participação de reuniões formativas com a coordenação da Residência, bem como das mesas temáticas do “I Colóquio interdisciplinar na formação docente: As bases curriculares e práticas pedagógicas”, configuram-se como objetos de conhecimento em destaque. Nessa prática foi realizado também, o Projeto de Intervenção de Estágio IV, com o objetivo de ser aplicado posteriormente no campo de estágio.

Pimenta (1999, p. 18) fala, quanto aos processos na formação docente, que é necessário “[...] desenvolver nos alunos conhecimentos e habilidades, atitudes e valores que lhes possibilitem permanentemente irem construindo seus saberes-fazeres docentes a partir das necessidades e desafios que o ensino como prática social lhes coloca no cotidiano”.

Ao iniciar o ano de 2021, por força do novo decreto municipal de Jaraguá do Sul, a oportunidade de ir a campo pela da Residência Pedagógica, expressou cores, sabores e tons em seu tempo. Destaca-se que em reunião com as preceptoras, que já estavam em sala há algumas semanas e haviam realizado uma atividade de sondagem com os alunos, foi acordado que se realizasse um novo planejamento pensado exclusivamente nas necessidades que se apresentaram nesta avaliação diagnóstica. Por essa razão o projeto de intervenção realizado no início do Estágio IV não foi possível ser utilizado no momento do relato apresentado, frente a necessidade de um planejamento que atendesse às particularidades dos educandos que estão nos 2° anos, porém com nível de aprendizagem de 1° ano. Conforme Fortes et al. (2018) apontam, o planejamento deve respeitar o rigor científico, mas ser desenvolvido de maneira participativa e considerando a construção coletiva, apontando para uma intervenção crítica do sujeito na realidade e com um olhar atento, pois a realidade está em constante movimento. Assim, conforme dialogado com as professoras/preceptoras, que estavam conhecendo de perto a realidade dos atrasos nas aprendizagens dessas crianças, priorizou-se um plano de aula específico para reforço das atividades de alfabetização, envolvendo grafema e fonema, assim trabalhando os sons e escritas de letras, sílabas e palavras, durante o percurso das aulas.

A escola disponibilizou uma sala para que o Projeto de reforço com os educandos dos 2° anos em dificuldades no processo de leitura e escrita fossem atendidos/as de forma mais individualizada pelo Programa da Residência Pedagógica, sendo uma sala ampla, bem estruturada com equipamentos multimídia e materiais escolares disponíveis. Viu-se a oportunidade de organizar o espaço e pensar nos recursos didáticos que se pudesse dispor no ambiente, o varal do alfabeto e disposição das mesas em U, sempre convertendo o ambiente conforme a necessidade da aprendizagem para aquele momento.

As atividades foram desenvolvidas com vinte educandos/as dos 2° anos, por meio do Projeto de Reforço Escolar, visto que estavam em nível pré-silábico e silábico. Soares (2004) enfatiza que os métodos de alfabetização alternam-se entre os de princípio da síntese e pelo princípio da análise, a fim de que a criança se aproprie tanto de fonemas e sílabas quanto da palavra, frase e texto, e que portanto, o objetivo é a aprendizagem do sistema da língua escrita, independentemente do método utilizado.

Assim as atividades desenvolvidas focaram no processo de fonemas e grafemas, no qual, após abordar com vídeos e histórias que trabalhavam o som de cada letra e o nome, tiradas do contexto da história contada, ou do cotidiano dos educandos. A autora Callai (2005) traz a importância que a leitura do mundo tem para nos construirmos como cidadãos, em que o ensino da leitura e da escrita das palavras ocorram a partir da leitura do mundo. Freire (1989, p. 9), fala que, “[...] Linguagem e realidade se prendem dinamicamente”. Esses processos ocorriam no diálogo com os educandos, no qual buscamos ao máximo trazer significado e uma aproximação com a realidade deles. Atividades como escrever a letra inicial do seu nome e qual o som dela ou a primeira letra/sílaba do material escolar, entre outros objetos do cotidiano.

Em cada aula, com duração de quatro horas, apresentou-se uma letra do alfabeto, trazendo uma história que contemplasse a letra estudada no dia. Para apoiar esse momento, fez-se o uso da data show e dos palitoches tornando o processo mais lúdico e dinâmico. Segundo Volken (2014, p. 95), “é preciso que o planejamento contenha atividades lúdicas no qual seja considerada as brincadeiras e os jogos como pontos importantes a fim de estimular as aprendizagens dos educandos”. Outro momento trazido em cada aula foi um vídeo em que mostrou a abertura labial para fazer o som da letra trabalhada, visto que este recurso do vídeo se deu devido a impossibilidade de fazer-se dos sons, o uso por máscaras. No momento seguinte foi aplicada uma atividade de escrita por meio de listas de palavras, relacionando a imagem apresentada e fazendo tentativas de escrita das letras faltantes, sílabas e palavras completas; jogos de alfabetização; cruzadinhas; jogo de adivinhas (o que é, o que é?). O eixo das aulas é tirar do contexto da história palavras que contemplassem a escrita da letra trabalhada e outras mais que fazem parte do cotidiano dos educandos.

Outra ação que sempre foi realizada em grupo, após cada aula do Projeto de reforço, foi a avaliação individual de cada educando, sendo este momento indispensável para avaliá-los e avaliarmos as estagiárias, quanto as nossas práticas, além de rever o que se planejou, a fim de buscar novas possibilidades/estratégias de ensino que contemplassem as dificuldades, seja no individual ou coletivo.

A primeira vez em sala foi sem dúvidas o momento mais desafiador, pois ainda não se conhecia bem as crianças e não se tinham as experiências necessárias para conduzir uma aula para o 2º ano sozinhas. É importante destacar que o que nos deu a segurança necessária foi estar amparadas não só pelas preceptoras, mas também entre as colegas de residência, o que proporcionou confiança para conduzir a aula e para passar tranquilidade aos educandos com relação ao nosso trabalho. Com o passar dos dias houve a familiarização com a turma, com o ambiente, então, organizaram-se mais facilmente as aulas, o que tornou a prática mais prazerosa, conseguindo auxiliar melhor cada educando/a.

Durante as aulas, surgiram inquietações, questionamentos e reflexões sobre as dificuldades apresentadas pelas crianças e as possíveis estratégias para ajudá-las a superar, como envolvê-las no processo de aprendizagem e como tornar este momento cativante, interessante e prazeroso. Estas sempre são questões que pensamos em grupo, e isto nos trouxe muito aprendizado, pois sempre há uma consonância nas atitudes e planejamentos advindos destes questionamentos, auxiliando muito a fluidez das aulas. Procurou-se sempre ao final das aulas trocar ideias entre o grupo de residentes, refletindo as vivências havidas, confrontando com as leituras e materiais de estudo com a realidade prática, a fim de nos aprofundarmos os conhecimentos obtidos por meio do processo de alfabetização, letramento e oralidade aplicada. Surgiram diversos questionamentos como: que tipos de dificuldades as crianças apresentam? Como conquistar e envolvê-las no processo de alfabetização? É possível tornar este processo mais efetivo, bem como mais prazeroso para as crianças?

Estar em sala de aula durante o período de pandemia trouxe alguns desafios específicos. Encontram-se algumas dificuldades quanto ao som das letras com o uso das máscaras, visto que a alfabetização trabalha muito com a expressão facial, principalmente a região da boca. As máscaras também dificultaram a identificação do nível de aprendizagem dos educandos, pois existem muitas especificidades no processo de leitura e escrita de cada um. Além disso, as máscaras dificultaram bastante que o som das vozes fosse ouvido com clareza, pois não foram poucas as vezes de desentendimento entre as residentes e os alunos, forçando-os a elevar a voz, o que ao longo do tempo se mostrou desgastante. Muitas crianças também falam baixo devido à timidez ou pelo próprio hábito e a comunicação ficou um pouco comprometida em alguns momentos.

Aos poucos, foi se descobrindo formas de nos adaptar a esta nova realidade e driblar as dificuldades que se apresentavam ao longo da intervenção. Os educandos ouviam as estagiárias com atenção e também eram estimulados a se expressar de maneira clara, pois poderiam confiar em si mesmos. Acredita-se que o maior desafio nesta experiência, junto a estes alunos com maior dificuldade, está em ajudar a fortalecer sua autoimagem, enfatizando a ideia de que eles são capazes de aprender, ao passo em que é despertado a familiaridade e o gosto pela construção dos seus conhecimentos, pensando em como oferecer algo com mais significado que abranja a sua realidade e seus interesses de maneira leve e efetiva.

 

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

A participação no Projeto de Reforço, por meio do Estágio Curricular/Residência Pedagógica, possibilitou ampliar a visão em termos de possibilidades de trabalho com as crianças em sala de aula. Ao longo das intervenções houve oportunidades de conhecer um pouco da realidade dos educandos que apresentavam maior dificuldade de escrita e leitura, e de trabalhar a perspectiva da alfabetização, do letramento e da oralidade.

Considera-se que o processo da prática docente é fundamental na formação do professor, pois são nas vivências e desafios em campo, que surgem as oportunidades de refletir a prática junto aos educandos, sendo um momento oportuno para rever as teorias e metodologias aprendidas a fim de (re)planejar, conforme as necessidades e especificidades de cada criança, repensando de forma individual e coletiva.

A guisa conclusiva sustenta-se na ideia de que realizar o Estágio Curricular/Residência Pedagógica em tempos de Pandemia, mostrou os desafios que relacionam os protocolos e cuidados necessários, especialmente pelo uso das máscaras, pois elas influenciaram muito na qualidade de comunicação com as crianças. Apesar dos desafios que ocorreram ao longo do experimento, acreditou-se que a maior parte das vivências aqui sinteticamente relatadas, resultam-se fazeres de uma construção docente positiva e proveitosa, pois, o contato com os educandos trouxe satisfação, especialmente nos momentos em que foi observado o quanto os estudantes chegavam na aula com vontade de aprender a ler e a escrever, o que motivou o caminho de busca nos objetivos.

A experiência relatada despertou reflexões quanto à prática docente, levando a pensar na necessidade de serem elaborados planejamentos que tenham intencionalidade de aprendizado e que possam envolver os educandos na busca da sua autonomia e na construção do seu saber. Acreditou-se que o objetivo do professor se sustenta na direção de proporcionar aprendizagens que façam sentido às crianças, fazendo com que elas sejam mais participativas e melhorem o seu desempenho em sala de aula, por meio de uma boa prática que permita o desenvolvimento dos educandos e que também se ampliam na sua formação como cidadão, e sobretudo, fazendo com que sejam mais conscientes e atuantes no meio em que vivem.

Nesse sentido, percebeu-se que o desafio enquanto estudantes/residentes foi o de não apenas apoiar, por meio dos conteúdos de aprendizagem, mas especialmente de incentivar os educandos a acreditarem nas suas próprias capacidades, melhorando a sua autoimagem e desenvolver o gosto pela construção de novos saberes, fomentando assim o seu desejo por novos conhecimentos, que também ocorrem nas relações com os demais educandos e professores.

Por fim, ter a oportunidade de exercer a prática do estágio curricular, enquanto residentes pedagógicas durante a formação docente mostra-se uma experiência muito rica. O saber adquirido na prática expressa a importância para a futura docência, pois os aprendizados mostraram-se como recursos incríveis que se somam à bagagem das futuras possibilidades de intervenções.

 

REFERÊNCIAS

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