Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Cultura da escola contribui para a formação de corruptos (JE 309)

“É por isso que se mandam as crianças à escola: não tanto para que aprendam alguma coisa, mas para que se habituem a estar calmas e sentadas e a cumprir escrupulosamente o que se lhes ordena, de modo que depois não pensem mesmo que têm de pôr em prática as suas idéias”.  Immanuel Kant (1724 – 1804)

Imagine todas as escolas públicas brasileiras decidindo sobre quem seriam seus professores e o quanto cada um receberia pelo trabalho que desempenha. Imagine o fim das pilhas de livros didáticos escolhidos para garantir o faturamento de editoras alinhadas com os diretores do MEC.

Imagine a escola poder administrar sua merenda escolar com a ajuda de nutricionistas lotadas nas secretarias. Melhor que isso, ter psicólogos escolares atuando nas escolas para prevenir e solucionar problemas de indisciplina.

Agora imagine esta escola tendo somente professores comprometidos com a tarefa de ensinar, cumprindo horários, o planejamento de ensino, o PPP e, principalmente, o plano de estudos e ensinando todos os conteúdos previstos pela BNCC e planos municipais para cada uma de suas turmas.

Imagine os alunos chegando à escola sabendo que precisam estudar, prestar atenção nas explicações e, principalmente, reconhecendo que são estudantes e estão ali para aprender aquilo que não aprenderão em nenhum outro espaço social.

Imagine TODOS os alunos concluírem a educação básica sabendo pelo menos o conteúdo básico. Um pouco mais em algum conteúdo e menos no outro, porque nunca se aprende tudo de tudo.

Agora pare de imaginar e saiba que muitas escolas assim existem pelo mundo afora. E o país crescendo e muito, porque os trabalhadores têm o conhecimento mínimo para operar uma máquina de produção, ler um manual de algum produto eletrônico importado e até mesmo fazer a própria comida e cuidar da própria casa e da vida financeira.

Nas sociedades em que a escola e a aprendizagem são o centro das ações e as escolas têm autonomia financeira e de ensino (não de conteúdos, pois estes são obrigatórios para todos os alunos do país), e principalmente, em que a escola cumpre seu papel social de formar cidadãos cumpridores de seus deveres para então usufruirem dos direitos, essa escola é sempre o polo irradiador e o gerador do crescimento social e individual.

O principal objetivo da escola é formar o cidadão que saiba muito do conhecimento linguístico, matemático e científico. É preciso buscar a excelência, porque para se chegar ao ótimo, você sempre terá que perseguir a excelência no seu dia a dia.

Mas, ainda bem que podemos continuar sonhando, pois acordar para a dura realidade das escolas públicas brasileiras é, um pesadelo diário para a maioria dos professores deste país. E será ainda maior se analisarmos a participação das escolas na formação dos corruptos desviando nosso dinheiro em malas, apartamentos, cuecas, contas bancárias...

Quando se diz que a corrupção está institucionalizada no Brasil, nos referimos também às escolas. São aqueles minutos roubados para fazer oração, festa de fralda, chá de panela, festejar o aniversário do diretor, do secretário. Estes preciosos minutos farão falta, e muita, para que o professor consiga ministrar sua aula planejada para uma aula de 50 minutos e não de 30.

Noutros setores do serviço público, ação prática necessita da participação dos funcionários públicos. Não por acaso, 506 funcionários públicos federais foram exonerados em 2017, por prática de corrupção. O estado do Rio de Janeiro foi o campeão das exonerações, 116 a maior parte deles por atos de corrupção.

Somente no primeiro trimestre deste ano foram mais 142 servidores públicos federais “no olho da rua”. Desde 2003, 4.544 servidores já foram expulsos da administração federal por esse motivo. Vale lembrar que todos passaram por processo administrativo e tiveram a chance de demonstrar que seriam inocentes. Não são.

 No filme “O Clube do Imperador”, quando o professor William Hundert (Kevin Kline) da St. Benedict’s, ouve do Senador Bell, o ‘benfeitor’ da escola e pai de um de seus alunos, que seu papel na vida do rapaz é ensinar sobre os filósofos gregos e romanos e não moldar o caráter de um homem.

O senhor ensina, quem educa, quem vai moldar meu filho é minha família, sou eu’, reafirmou o senador. Já está mais do que na hora da escola pública brasileira fazer seu papel: o de ensinar. E permitir que a família faça sua parte: educar.

A escola não pode moldar o carácter. Ela deve ensinar a ler, escrever, argumentar, filosofar, analisar, rejeitar, não envolver-se e denunciar as más ações e falcatruas. As instituições são de ensino, não podem fazer corrupção pedagógica. Confraternizações, mesmo as tidas como de valorização de valores como família e religião são roubo do pouco tempo de aula dos alunos.

Escola não é família, não é templo, escola é laica, é local de trabalho. Lá aluno está para estudar e o professor para ensinar. Para os demais trabalhadores da equipe, o trabalho é garantir as melhores condições possíveis para que estes dois principais trabalhadores da educação façam a sua parte.

Não basta abrir o verbo contra os políticos e funcionários públicos corruptos (vale lembrar que professores também são funcionários públicos). Eles passaram pelos bancos escolares e nenhum programa de discussão de ‘valores’ foi capaz de mudar suas condutas. Os funcionários públicos passaram em concurso, têm altos salários, passaram muitos anos nos bancos escolares e nada os demoveu de pegar para si o dinheiro público.

Temos que concordar com o senador do filme. A escola tem que ensinar os conteúdos para que os bons cidadãos, educados com valores, passem nos concursos para as melhores vagas e sejam eleitos para os principais cargos.

Não basta ensinar uma parte, cada conteúdo negado ao bom estudante, contribui para que ele seja suplantado pelos outros na prova do concurso público. Cada texto a menos lido e analisado tira dele a experiência da comunicação que seria necessária para conquistar mais pontos ou votos.

Não podemos aceitar que os indisciplinados, os mal educados, tenham mais atenção dos professores em sala de aula do que os que querem estudar e aprender. Ao fazermos isso, estaremos fazendo como o professor do filme, querendo moldar o caráter, e esse não é o papel do professor.

O papel do professor é ensinar aquilo que gerações de homens e mulheres descobriram ser importante para a evolução e o desenvolvimento da sociedade. O papel da família é moldar o caráter.

Se a família não fizer a sua parte, moldaremos o caráter dos seus filhos com as grades da prisão. Se o professor não ensinar os conteúdos de sua disciplina, teremos de nos prender dentro das grades de nossa casa e deixar os bandidos soltos nas ruas.

A escola tem que escolher em qual lado está: dos alunos e professores fazendo tudo para que cumpram seu trabalho de estudar e ensinar ou tentando moldar o caráter dos pais que não fazem a parte deles na educação dos filhos.

As ações ou omissões da família não podem continuar a interferir na ação da escola. Afinal é a escola, com seus profissionais, quem deve ditar as regras para o ensino e não os pais.

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