Jornal da Educação

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Edição 290- Outubro 2015

QUEM CUIDA DO PROFESSOR?

Edição especial do dia do Professor 2015

 

 

QUEM CUIDA DO PROFESSOR?(JE290)
QUEM CUIDA DO PROFESSOR?(JE290)
Quando criança, meu pai tinha uma rural. O carro saia da garagem raríssimas vezes. Mas todo primeiro dia do ano, visitávamos meu tio na  cidade vizinha. No carro eram meu pai (motorista), minha mãe e nós seis irmãos. A viagem era muito esperada. 
Assim, logo cedo, entrávamos no carro fazendo festa. Invariavelmente o carro não pegava ao toque da chave.  Meu pai ao volante, cruzava os braços e perguntava: todos já entraram? Depois de um sonante SIM. Ele acrescentava: e agora quem empurra??
Neste mês em que festejamos, o Dia Mundial do Professor (5) e o Dia do Professor (Brasil) ao pensar na situação do professor nas escolas brasileiras,  recordei daquela cena da infância.  
Assim como nós, que entrávamos no carro felizes para ir passear, quem escolhe a profissão de ensinar, sabe que terá pela frente muitos desafios. 
Ainda durante o estágio curricular, o futuro professor sabe que encontrará uma sala de aula heterogênea e sem muitos recursos. Um salário que sempre será insuficientes para pagar a necessária dedicação, só superado pela satisfação de sentir que participou determinantemente para mudar a vida de um aluno.
Seguramente, a quase totalidade dos que escolheram a profissão de professor, o fez porque ama o ser humano. Por ser um idealista, que acredita na possibilidade de mudar a natureza do animal denominado homem, humanizando-o ainda mais. 
O ideal que o move é dar sua contribuição, registrar sua marca em alguém, melhorar as pessoas e, como consequência direta, melhorar o mundo. 
Ninguém escolhe uma profissão como a de professor porque pretende ter uma vida financeira confortável ou porque é um aventureiro a procura de novos e grandes desafios radicais junto a natureza, mesmo que a humana. 
Todo professor é, antes de tudo, um idealizador, um amante da vida, um guerreiro cujas armas são o conhecimento e a própria sabedoria  em escolher o meio e modo corretos e eficazes de compartilhar  o próprio saber com os estudantes.  Por querer construir um mundo novo é muito mais do que um ensinador. 
Antes de tudo, o professor é um comunicador de boas e novas facetas de um universo cheio de novidades comprovadas cientificamente, mas que precisam ser desvendadas e contrapostas pelas novas gerações. 
Nas escolas é um cuidador que consegue ouvir e aconselhar como um psicólogo. Curar as feridas da ignorância como uma enfermeira. Administrar como uma gestora, o conhecimento, o relacionamento e o tempo de dezenas de vidas. É também um engenheiro que planeja e constrói os alicerces da obra de muitas vidas. Outras vezes é um orientador capaz de mostrar o caminho para a sabedoria. 
Um jogador que dribla os sentimentos, ressentimentos e conflitos pessoais e profissionais, deixando-os do lado de fora da sala de aula para, após respirar fundo, encontrar em algum lugar de sua alma, a energia para motivar os alunos a aprenderem mais. 
É ainda um religioso e tem fé profunda para acreditar que aquela criança que o desrespeita com o olhar, gestos e palavras (assim como seus pais, e muitas vezes com a cooperação velada de diretores), será melhor e se tornará um adulto capaz de dar sua contribuição para a humanidade. 
Durante os conselhos de classe, é um vidente que prevê o futuro daqueles alunos que insistem em não fazer as atividades e tarefas solicitadas por ele e seus colegas professores. 
Em verdade, a professora ou o professor tem pura e tão somente a missão de ensinar, de repassar para as novas gerações o conhecimento e seus benefícios, construído pela e para a raça humana ao longo da história. 
E por isso sua importância para a sociedade é inquestionável. Mesmo que possamos questionar a maneira como a sociedade brasileira demonstra a importância que dá ao professo
Ainda assim restará a grande pergunta: Quem cuida da professora ou do professor? Esse ser apaixonado pela humanidade e idealizador que acredita que é possível ensinar às pessoas a melhorar. Quem afinal cuida de quem ensina? 
Não é o aluno. Não é o gestor da escola que está cuidando dos alunos para entregá-los aos pais no final de cada dia letivo. 
Não é a secretaria da educação que adota como missão primordial garantir o direito de aprender do aluno e cobra especialmente do professor que o faça. 
Não é o prefeito que tem uma cidade inteira para administrar . Não é o ministro da educação que se ocupa mais das coisas políticas do que das práticas.  
Será que os pais, que por quererem o melhor para seus filhos cuidam do professor? São eles que em casa ensinam aos filhos o respeito aos professores e a disciplina necessária à aprendizagem? 
Será a equipe pedagógica da escola que olha por aquele ser humano em formação, como o são também seus alunos?
Numa discussão com o aluno,  na dificuldade que detecta em ensinar ou em aprender, a quem o professor pode recorrer?
Afinal, quem na escola, cuida do principal agente do ensino? Quem está com ele no momento exato em que um aluno tem uma convulsão na sala de aula? Quem irá verificar se ela está constrangida porque um aluno de 9, 10, 11 anos a mandou pra PQP?
O professor é o adulto, o profissional que está ali por escolha própria, fez até concurso de seleção para conquistar a vaga. Mas, quem cuida de fazê-lo sentir-se realizado e feliz com sua escolha?
Basta passar alguns minutos numa escola, seja pública ou privada, para perceber que as professoras e professores brasileiros precisam de cuidados. 
Seja para suprir carências na sua formação, seja para dar uma sugestão para solucionar um problema financeiro ou familiar, seja para compartilhar a dificuldade de relacionamento com um aluno, com os familiares ou com a vizinha. Sim, a vizinha, porque professora também tem alguém morando ao lado, que pensa e age de modo diferente do seu e isso gera conflitos. 
Quanto mais procuramos, menos encontramos quem cuida do professor e da professora. Neste mês em que as homenagens são muitas, os elogios e até agradecimentos são inúmeros, quem dará ao professor o que ele mais precisa: um colinho, uma carícia, palavras motivadoras e energia, um decreto em forma de salário digno e, principalmente, um cuidado verdadeiro e diário. 
Cuidar da professora é tratá-la com respeito, é reconhecê-la como figura central da escola no cumprimento de seu dever maior: ensinar seus membros a construir uma sociedade mais humana. 
Quem deve cuidar do professor são aqueles que estão mais próximos: a equipe gestora e pedagógica das escolas. São estes profissionais, geralmente igualmente professores, que precisam cuidar das professoras e professores. 
Em vez de apontar seus erros, acolher seus defeitos e ajudá-lo a superar seus limites. Em vez de impor que ouçam desaforos dos alunos e dos pais, intermediar as punições para os infratores das regras pré-estabelecidas e da disciplina necessária. 
Impor aos pais, e não aos professores, horário para conversar sobre seus filhos, especialmente os que foram mal educados.
Se a sociedade brasileira, a começar pelos gestores das escolas, efetivamente cuidarem dos corajosos guerreiros da atualidade: os professores, haverá esperança para este país que ainda não descobriu seu caminho para ser uma Nação.
E agora, que todos já embarcamos neste carro sem energia para dar a partida. Quem empurra?

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