Reformas em escolas devem acontecer só nas férias (Março/2009) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por David Gomes da Silva   
27-Mar-2009


A morte da menina Kelly Kristyn Kruger(5) em decorrência de traumatismo cranioencefálico e os ferimentos provocados em sua colega Camila da Silva (5),  por causa da queda da trave de um brinquedo, do parque do CEI Espinheiros, em Joinville, terá que provocar alguma mudança na administração pública.
Afinal, um país que não sabe cuidar de suas crianças, não se preocupa com o futuro. Ou melhor, não tem futuro. Portanto, é preciso ter mais seriedade com as escolas públicas.
Enquanto as escolas particulares aproveitam o período de férias para fazer as obras, as públicas são abandonadas. Depois de um mês e meio de férias - mesmo para os funcionários que sequer completaram um ano de trabalho- os professores devem ser os primeiros a chegar para planejar o ano letivo pedagógico.
Cabe aos professores enfeitar as salas de aula, os corredores e preparar a recepção aos alunos. Mas ninguém cuidou das infiltrações, da tinta caindo, dos azulejos quebrados nos banheiros e cozinhas, da rede elétrica, às vezes em estado de choque, dos parques, das calçadas, os portões e muros quebrados e do mato que cresce nos patios.
Em seguida, vem as crianças e adolescentes, que devem estudar em salas com infiltração, sem ventilação e iluminação adequadas, brincar nos brinquedos podres e quebrados, instalados nos pátios cheios de mato e ervas daninhas.
Então, se faz a licitação, vem as comunicações internas, os pedidos insistentes das diretoras e  comunidade, coloca-se algumas tábuas como tapumes e vai se consertando as coisas ao mesmo tempo em que os professores devem ensinar e os estudantes aprender, entre marteladas e sons estranhos de máquinas de construção.
Os alunos precisam andar devagar para não tropeçar nos entulhos da construção e as diretoras precisam dedicar toda sua atenção para a estrutura física da escola, em detrimento da questão pedagógica, para evitar acidentes e manter alunos e professores em segurança. Rotina quebrada, por vezes, por causa chegada da Vigilância Sanitária. 
O debate sobre de quem seria a culpa teve início logo após o acidente com as meninas e foi ainda mais acalourado, porque os repórteres, hávidos por notícias ruins e sem saber o que realmente aconteceu, noticiaram que as meninas estariam sozinhas no parque e em horário de recreio.
A primeira versão dizia que as meninas estariam sozinhas no parque e Camila teria conseguido levantar-se sozinha e pedido ajuda. Esta talvez tenha sido uma das mais descabida de todas as informações veiculadas pela imprensa. Com base em inverdades, a sociedade começou a buscar culpados.
A tragédia abalou todos os profissionais de centros de educação infantil pois a escola é lugar de vida, de cuidar do futuro, de alegria e de muitos sorrisos de crianças, não é e nem será aceita, como lugar de morte.
A vida não somente dos pais de Kelly e dos profissionais que atuam naquela unidade de ensino, mas de todos os professores mudou. Mas afinal, quem deveria ter visto a insegurança do brinquedo?
A diretora da escola e os pais que por diversas vezes solicitaram vistoria e consertos nos dois parques e chegaram a interditar vários brinquedos, antes mesmo da tragédia? A professora que estava  desenvolvendo uma atividade pedagógica lúdica com seus 23 alunos de cinco anos? A empresa que fez a vistoria no parque no final do ano passado e NÃO detectou qualquer problema no balanço? Os pais que mal conseguem chegar em tempo na unidade para levar e trazer os filhos antes e depois do trabalho, mas deveriam ter vistoriado os brinquedos antes de levar seus filhos no início do ano letivo? A administração municipal que deixou para vistoriar os parques somente depois de colocar as crianças nas escolas e de acontecer uma tragédia? O novo Secretário da Educação que adiou o início do ano letivo nos quatro CEIs entregues pelo estado porque as professoras não tinham feito inscrição no processo seletivo de ACTs da prefeitura e porque as unidades estavam em condições inseguras de uso? A Vigilância Sanitária que foi chamada para  “um acordo” pelos novos administradores, mas que devem vistoriar todas as instituições que prestam serviço à comunidade? Ou daremos  a clássica resposta: o culpado é o sistema.
Uma série de pessoas (e são sempre pessoas) está diretamente envolvida na questão, mas mesmo que se aponte um culpado, a menina Kelly será relembrada somente como uma flor, simbolizada pela Camélia plantada na entrada do CEI, onde passou os três últimos anos de sua vida.
Todos os esforços e cuidados, seguramente devem ser voltados a ações que evitarão novas tragédias.
Em 2006, após a morte por sufocamento de uma criança, na unidade do bairro Guanabara, a Prefeitura ofereceu curso de primeiros socorros a todos os profissionais que atuam nos centros de educação infantil. Este curso ajudou no primeiro atendimento à menina Camila, que saiu praticamente ilesa do acidente.
E agora, qual será a grande lição que a Secretaria da Educação aprenderá? As primeiras ações visam a garantir a segurança física das crianças nos parques públicos da cidade e psicológica das pessoas diretamente atingidas pela tragédia.
Mas, qual será a ação pedagógica? Será discutido o CUIDAR e o EDUCAR. Ou será que as diretoras e as escolas continuarão a ser as únicas responsáveis pela segurança das crianças? E os professores, vão aceitar continuar trabalhando em condições tão precárias? Ou não seria precariedade uma professora cuidar sozinha de uma turma de 23 crianças de 5 anos, em período integral?   
Que lição a morte de Kelly nos dará? Será que quando retornamos ao ano letivo de 2010, com os parques e estabelecimentos de ensino já vistoriados, reformados e recuperados, pois convenhamos, não existe uma única unidade que não precise de reparos após um ano letivo. Pagaremos a indenização milionária aos pais, nós os cidadãos joinvilenses e brasileiros, mas o que teremos aprendido? 
 
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