A escola ajuda na construo da cultura da impunidade no Brasil (Maio/2008) PDF Imprimir E-mail
Classificao: / 3
PiorMelhor 
Escrito por Jornal da Educacao   
08-Jul-2008


O Brasil est analisando os 18 anos do Estatuto da Criana e do Adolescente e descobriu inmeros erros cometidos nestes anos de existncia da Lei, que deveria melhorar a relao de nossa sociedade com seus cidados menores de idade.

Passamos os ltimos 18 anos, superprotegendo nossas crianas e adolescentes e esquecemos de cobrar a contrapartida, o cumprimento de seus deveres. Chegamos ao cmulo de institucionalizar a impunidade no pas, pois ao completar 18 anos, os infratores, mesmo os que cometeram crimes hediondos, tm sua ficha criminal apagada.

Durante a semana em que se analisava as conseqncias positivas e negativas dos 18 anos do ECA, o Poder Legislativo Nacional analisava a proposta, aplaudida por toda a populao de bem de acabar com "a borracha dos 18 anos". So dezenas de casos famosos de menores que cometeram crimes gravssimos e, ao completarem 18 anos, reiniciam a vida, sem mcula ou registro. como se nascessem novamente, inocentes tal qual um anjo cado do cu. Um completo absurdo do ponto de vista social.

Esta prtica de impunidade e super-proteo aos infratores das regras sociais, tem incio na escola. No af de diminuir os ndices de reprovao e forar os professores a garantirem a aprendizagem, institui-se a prova de recuperao, exige-se a aplicao de atividades extras e "trabalhinhos" para melhorar a nota dos estudantes, indiscriminadamente.

Deste modo, o aluno que no estudou, deixou de entregar suas atividades ou simplesmente optou por no fazer aquilo que deveria descumprindo as regras, premiado. Comea ali, na escola, a no ter que arcar com as conseqncias de seus atos, pois a nota que deveria espelhar o descumprimento das regras estabelecidas pela sociedade, ensinadas e cobradas pela escola sempre modificada para cima, independente das razes que a teriam feito ser menor.

Neste momento, o estudante aprende que, no importa o que faa, depois dar sempre um jeitinho de melhorar sua situao e descumprir impunemente as regras. O inocente trabalhinho e prova de recuperao ensina nossas crianas e adolescentes que, no precisam cumprir as normas, pois tero uma segunda chance.

Do mesmo modo como os criminosos de 15,16, 17 anos que mataram tm, quando completam 18 anos, a chance de renascer para a sociedade como pessoas que NUNCA teriam descumprido as leis. Ensinamos ainda mais. Ao substituir a nota mais baixa, pela maior da prova de recuperao, estamos deixando claro com atos, que no ser preciso fazer o melhor a cada momento de sua vida inteira, bastar fazer de qualquer modo.

Tempos depois, j adultos, seguramente ser mais fcil aceitar o roubo do dinheiro pblico e "dar uma nova chance" aos polticos corruptos, aos criminosos de colarinho branco e mesmo aos assassinos de nossos pais e filhos no trnsito. Ensinamos que no preciso cumprir as regras e educamos para a violncia, o desrespeito e impunidade. E, finalmente, chegamos a um pas que ao perder um Senador sente pesar por perder um poltico honesto, como se todos no devessem ser.

Obviamente esta situao tem suas origens na histria da educao pblica brasileira. Somente h uma dcada, o Brasil conseguiu matricular todas as crianas de 7 a 14 anos na escola. H 40 anos, a maioria da populao precisa investir tempo e muito dinheiro para conseguir que seus filhos estudassem alm do ensino primrio. Era preciso fazer o curso de admisso e passar no teste, mais difcil do que um vestibular, para ento freqentar o que seria o segundo ciclo dos estudos. As escolas tinham, efetivamente, os mais inteligentes, estudiosos e interessados em suas salas de aula.

Os professores tinham status de Mestres e o ensino era de qualidade, as notas eram em dcimos e no havia provas e nem chance de recuperao. Mas com a universalizao da educao, auxiliada verdade, pela fora da lei e da promotoria pblica que prende pais que no mandam seus filhos para a escola e, ainda mais, por programas governamentais que pagam para que os mais pobres mandem seus filhos para a escola.

E, se j temos todos na escola: os pobres e os ricos, os deficientes fsicos e mentais ento, a escola precisa encontrar sadas para ensinar a todos o que vida em sociedade, o que ser gente. Entretanto, mais uma vez, os professores esto sendo requisitado para uma tarefa para a qual no tm formao. A alternativa tem sido a institucionalizao da impunidade pelo mau comportamento, pois o Estado no quer "gastar muito dinheiro com defunto ruim", aprove-se todos e mande-se adiante. Estamos somente adiando o problema, empurrando com a barriga, na linguagem popular corrente.

No h punio para os ndios que atacaram o engenheiro que foi explicar o projeto da hidreltrica, no h punio para o professor que faz de conta que d aula, no h punio para o aluno que no cumpre as regras mnimas de convivncia com seus colegas e com os professores e no h punio para as autoridades educacionais que deixam de cumprir as 800 horas letivas por ano, divididas em no mnimo 200 dias de quatro horas.

Ou seja, institucionalizamos a impunidade a partir da instituio criada pela prpria sociedade para ensinar nossas crianas que as leis foram feitas para serem cumpridas. Se no as cumprimos, como vamos cobrar de nossas crianas, adolescentes, jovens e mesmo adultos que o faam?

E a impunidade, a me da violncia!

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
Advertisement

Qual a sua opinio?