Colonizadores disputaram as terras de Jaraguá PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Jornal da Educacao   
10-Ago-2007


Militar amigo de nobres

     Uma lei provincial, de 16 de março de 1848,  fixou normas para a colonização em terras catarinenses. Entre outras coisas, estabelecia que era da responsabilidade das companhias e colonizadores reunir, transportar da Europa para o Brasil, assentar e prestar assistência integral aos colonos nos primeiros dois anos da chegada às colônias, até que eles pudessem prover-se com as próprias roças. O Governo Imperial contribuiria, por quinze anos, com subsídios. O dinheiro seria entregue à empresa colonizadora, independente de sexo ou idade dos colonos.

     A mesma lei proibia, em caráter definitivo, a manutenção de mão–de-obra escrava nas colônias. Assim, os imigrantes tinham, eles mesmos, que se incumbir do trabalho pesado do campo e da construção ou pagar pelo trabalho dos negros, dos caboclos ou dos compatriotas sem posses.

     O fundador da cidade de Jaraguá, Emilio Carlos Jourdan, nasceu na Bélgica, em 19 de julho de 1838, abandonou a terra Natal ainda jovem e veio para o Brasil, naturalizado  alistou-se voluntariamente no Corpo de Engenheiros Militares, seguindo para a Guerra do Paraguai, na qual lutou por cinco anos.

     Militar exemplar e estudioso ganhou não somente a amizade, mas também o respeito e confiança dos governantes do Brasil Império e, mais tarde dos republicanos. Terminada a guerra, continuou no Exercito. Estudioso, é  patrono de uma cadeira no Instituto de Geografia e História Militar no Brasil. O Marechal Deodoro da Fonseca concedeu-lhe o título de Tenente-Coronel honorário e Marechal Floriano o elevou ao posto de Coronel.

     Amigo do conde d’Eu, colega de batalha, da Guerra do Paraguai, antes mesmo de celebrar o contrato de medição, assinou outro, com a Princesa Isabel, arrendando, por quinze anos, 430 hectares de terras, da sede de Jaraguá e fazendo promessa de venda de dois mil hectares das terras dotais, nos vales dos rios Itapocu e Negro, no dia 11 janeiro de 1876.

     O contrato e outros posteriores estabeleciam as regras e prazos para o povoamento e extração da madeira, erva-mate e minérios. Alguns historiadores atribuem esta cessão, à iniciativa da esposa do Coronel, Elise Jourdan, junto à Dona Isabel. Outros, à “esperteza” do militar. 

     O coronel recebeu terras, ao norte da Colônia Dona Francisca, entre a barra do rio Jaraguá, a leste; e uma das suas margens, ao sul; e à margem do rio Itapocu, ao Norte.

Medição x colonização

     Emílio Carlos Jourdan teria chegado a Jaraguá, com o objetivo de iniciar o povoamento, no Sábado de Aleluia, dia 15 de abril, de 1876, acompanhado de 60 trabalhadores, dos quais 54 negros e 6 brancos, quase todos originários do norte do Brasil, conforme registrou o canoeiro Calixto  Domingos Borges, que o transportou do porto de São Francisco, onde desembarcou, vindo do Rio de Janeiro. 

     Após instalar-se na sede da colônia com relativo conforto, iniciou a alocação das primeiras famílias e as desavenças com a Cia Hamburguesa de Colonização, que atuava nas terras vizinhas e na Colônia Dona Francisca. Em sua residência, nasceu seu filho, que recebeu o nome do pai. Construiu um rancho, onde instalou a usina açucareira, com 10 fornalhas e capacidade para produzir 2400 litros de aguardente.

     A precariedade das picadas abertas no meio da mata dificultava o transporte de colonos e mercadorias. Mas ainda faltava, igreja, escola e hospital. Em um ano, além de instalar um engenho de açúcar e uma serraria a vapor, Jourdan conseguiu estabelecer 211 pessoas na sede da colônia Jaraguá; tornou navegável o rio Itapocu, pelo qual se comunicou com o porto de São Francisco e abriu mais de 30 Km de estrada para o sertão, iniciando a ligação com Rio Negro.

     Em 1877,  recebeu a visita do Governador Taunay.  Em 1880, os administradores de Parati (Araquari) município ao qual pertenciam as terras da colônia Jaraguá, elogiando-o como colonizador.

     Em 17 de abril de 1883, Jaraguá foi anexada a Joinville, contrariando os interesses do coronel, que preferia  Paraty (Araquari). Jourdan e Frei Aurélio Stulzer enviaram  documento, com 237 assinaturas, pedindo a revogação da Lei, sancionada pelo governador, Theodoreto Carlos de Farias Souto.

     A disputa entre Paraty e Joinville pelo domínio administrativo de Jaraguá tinha na liderança, de um lado Emílio Jourdan e de outro, Frederico Brüstlein, procurador dos príncipes de Orleans, superintendente da municipalidade de Joinville e também diretor da Cia Hamburguesa.

     A pressão dos adversários políticos, o levaram a desistir do empreendimento em 6 de junho de 1888,  parte das famílias também se retirou.
República

     A Proclamação da República, em 15 de novembro de  1889, mudou novamente o curso da história da região. Todos os contratos celebrados pela princesa Isabel foram revogados. E no ano seguinte, pelo Decreto 1050, de 21 de novembro, de 1890, as terras da Princesa Isabel, situadas no Paraná e em Santa Catarina, voltaram ao domínio da Nação.

     Neste mesmo ano, iniciava-se a colonização das terras do Estado, da região do rio Garibaldi e da Barra do Rio Cerro, afluentes da margem direita do rio Jaraguá, por húngaros e italianos. Em 1893-1894, Jourdan luta ao lado do Marechal Floriano, na Revolta da Armada, e em seguida na Revolução Federalista, recuperando seu prestígio, junto ao Governo Central.

     Com o prestígio recuperado, o Coronel retornou a Jaraguá. Em  1894, requereu ao governador a compra de 10mil hectares para colonização. Seu pedido foi aceito pelo governador Hercílio Luz. A escritura foi publicada em 4 de fevereiro de 1896, ano em que Jourdan pedia a construção da estrada de ferro para ligar o vale do Itapocu ao porto de São Francisco. Em 1895, Joinville criava uma Intendência Distrital em Jaraguá.

     O contrato com o governador previa a alocação de 250 famílias em três anos.  Associando-se a Antônio Augusto Viera, fundou a empresa Colonizadora Jourdan & Vieira. Mais tarde, com a desistência de Vieira, em 1897, uniu-se a Fritz Wirtz.

     O Coronel  teve de abrir mão de parte das terras delimitadas no acordo com o governador em favor da Cia Colonizadora Hamburguesa (com a nova denominação- Cia Hanseática), que ganhara uma reclamatória reivindicando terras ao norte do Itapocu. Jourdan concordou em recuar os limites de suas terras até o rio Dona Isabel e, no ano seguinte, reclamava de que terras entre os rios Isabel e Pedra de Amolar haviam sido invadidas.

     As dificuldades da colônia Jaraguá contribuíram para a fundação de outros municípios da região. O marco inicial de Guaramirim (Schröeder e Massaranduba) em 1887, é a chegada de um grupo de colonos que se dirigia à Colônia Jaraguá e estabeleceu-se às margens do Rio Itapocu, em terras da Cia Hamburguesa.

     No dia 18 de março de 1896, Jourdan requereu ao Conselho Representativo do Estado de Santa Catarina o retorno das terras de Jaraguá ao Paraty e no dia 6 de outubro daquele ano, a Lei 236, restabelecia Jaraguá ao município de Paraty.

     Uma consulta popular, efetivada em 1897, sobre o desejo de pertencer a Paraty, formar um novo município com Barra Velha (Glória) ou pertencer a Joinville, resultou no primeiro movimento emancipatório, liderado por Roberto Buehler e pelo comerciante Georg Czerniewicz.

     Outro abaixo assinado, encaminhado a Florianópolis pelo Deputado Schmalz, manifestava a vontade, de Vitor Rosenberg, João Butschardt, José Koch  e outros 237 moradores, de pertencer a Joinville. Ainda em 1897, no dia 7 de julho, era fundada a colônia Hansa-Humboldt (Corupá). No dia 22 de julho de 1898, após muitas desavenças e abaixo-assinados, o governo mandou reanexar Jaraguá a Joinville.

     A constante troca de parceria na sociedade colonizadora, entraves burocráticos na aprovação das medições e acusações de irregularidades no loteamento e venda de lotes, além das dificuldades financeiras, levaram o Jourdan a, pela segunda vez, desistir do empreendimento, vendendo a concessão a Pecker & Cia, no dia 1º de julho de 1898 e retornando ao Rio de Janeiro, onde faleceu no dia 8 de agosto de 1900.

     Na impossibilidade de precisar a data do estabelecimento de Emílio Carlos Jourdan na localidade, decidiu-se pelo dia 25 de julho de 1876, como a data oficial de fundação de Jaraguá do Sul.

Colonização definitiva

     Sob a administração de Domingos Rodrigues da Nova Júnior, da Pecker & Cia (1898), a colônia Jaraguá desenvolve-se rapidamente. Estradas foram abertas nas cabeceiras do rio Jaraguá e centenas de agricultores assentados.  Em nove de outubro de 1907, Pecher & Cia transfere sua concessão para César P. de Souza, Francisco Tavares da Cunha Mello Sobrinho e Ângelo Piazera, sendo dissolvida a Colônia Jaraguá em 1916, ficando o remanescente para Ângelo Piazera.

     Aos poucos, as estradas eram melhoradas e algumas pontes foram sendo construídas sobre os rios menores. A travessia do Itapocu era feita por uma pequena balsa, situada defronte ao comércio de Jorge Czerniewicz, local conhecido como Porto Czerniewicz.

     A primeira ponte sobre o rio Itapocu, construída em 1909, levada por uma enchente no ano seguinte,  foi substituída, por uma metálica em 1913. Sobre o rio Jaraguá, ligação com a Colônia Blumenau, foi construída, em 1908, uma ponte junto ao comércio de Martim Stahl.

     Os trabalhos de construção da estrada de ferro tiveram início somente em 1905, no sentido São Francisco-Rio Negro e atingiu Jaraguá em 1907, mas o trecho Hansa - São Francisco entrou em operação em 1910 e somente em 1913, a ferrovia chegou a Rio-Negro.

     A ativação da ferrovia ligava Jaraguá, definitivamente, aos grandes centros comerciais e o transporte de mercadorias e pessoas transformaram a cidade em ponto de parada dos viajantes com destino a Blumenau e sul do Estado, o que contribuiu para o desenvolvimento de sua rede hoteleira.

     Desde 1895, Jaraguá era Intendência Distrital e permaneceu como 2º Distrito de Joinville até sua emancipação,  pelo Decreto nº 565 de 26 de março de 1934, formando um novo município, com Hansa-Humboldt (Corupá), distrito desmembrado de Joinville. Os limites do novo município eram o mesmo do Distrito de Polícia, criado em 1894.

Imigrantes 

     Em 1912, o distrito de Jaraguá contava com uma  população de aproximadamente 8.000 habitantes. Um relatório paroquial da época  registrava  2000 falantes  do português,  1000 falando italiano, 4,5 mil o alemão e 500  pessoas falavam o polaco. A presença de tantos alemães, fazia com que todos os editais e anúncios fossem  impressos em duas línguas.

     Os imigrantes europeus, que vieram para Santa  Catarina,  na segunda metade do século XIX, em sua maioria, eram elementos de origem urbana com  formação artesanal,  operária, comercial, industrial e   intelectual. Até mesmo o   agricultor chegou com tendência maior para a comercialização.

     Em 1920, Jaraguá pertencia  a   Joinville, juntamente com os distritos de Hansa (Corupá) e Bananal (Guaramirim). O recenseamento, realizado em setembro daquele ano,  registrava que de uma população de 11026 habitantes, 1125 eram estrangeiros.
Em 2005,  com 130 mil habitantes, Jaraguá do Sul é o  pólo  da   microrregião  da  AMVALI - Associação  dos    Municípios do Vale do Itapocu, e é o terceiro maior movimentação econômico do estado  de  Santa  Catarina. 

 

 

 

 

Fontes:
CANUTO, Alcioni Macedo e DIEFENTHALER, Eliza M. Ressel e JAGNOW, Egon Latário. Crescendo com a nossa história - Prefeitura Municipal de Jaraguá do Sul
História de Santa Catarina – Mapa Municipal  no 10º Volume, Grafipar: 1970
http://www.jaraguadosul.com.br/prefeitura/historico.htm
Consultas: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul e à historiadora Silvia Kita.

 
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