“Enquanto o sono não vem”- MEC recolhe 93 mil livros do PNLD-Pnaic (JE302) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes   
03-Jul-2017


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História conta história de casamento entre pai e filha
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Incesto e crença religiosa
 A nota técnica da UFMG não menciona a estrofe em que a menina dá a mão esquerda ao pai.
A nota técnica da UFMG não menciona a estrofe em que a menina dá a mão esquerda ao pai.

 
MEC recolhe das escolas os exemplares do livro ‘Enquanto o sono não vem’ distribuídos pelo PNLD/Pnaic.  
Livros serão redistribuídos para bibliotecas públicas. 

Com base em parecer técnico da Secretaria de Educação Básica (SEB), o ministro da Educação, Mendonça Filho, decidiu recolher os 93 mil exemplares do livro Enquanto o sono não vem distribuídos pelo Programa de Alfabetização na Idade Certa (Pnaic) para alunos de primeiro, segundo e terceiro anos do ensino fundamental das escolas públicas. 
O parecer técnico considera a obra não adequada para as crianças de sete a oito anos do ensino fundamental, pela abordagem do tema incesto. 
Um dos contos,  “A triste história de Eredegalda” trata do desejo de um rei em casar com a mais bonita de suas três filhas e transformar a mãe da menina em sua criada. Diante da negativa, a menina é castigada e  mantida em cativeiro. O rei ameaça matar quem desse um único copo d’água à menina que morre de sede. E acaba transformando-se em um anjo porque teria morrido virgem.
 
INADEQUADO
 
Em novembro de 2014, o livro foi selecionado para compor o acervo do processo PNLD/Pnaic. A obra foi avaliada e aprovada por uma equipe composta por doutores e mestres especialistas do Centro de Alfabetização,  Leitura e Escrita da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais- UFMG. 
A instituição é considerada de notório saber e referência nas áreas de alfabetização e literatura no país. A partir dos questionamentos feitos por professores e pais de alunos em todo o país, o MEC solicitou  parecer técnico da SEB e da Consultoria Jurídica.
  A Secretaria de Educação Básica do MEC concluiu pela inadequação da obra à faixa etária a que se destinou o livro, recomendando o recolhimento e a redistribuição para bibliotecas de todo o Brasil. 
“As crianças no ciclo de alfabetização, por serem leitores em formação e com vivências limitadas, ainda não adquiriram autonomia, maturidade e senso crítico para problematizar determinados temas com alta densidade, como é o caso da história em questão”, afirma o parecer. 
A partir do redesenho do programa Pnaic em Ação 2016, o MEC adquiriu 19 milhões de livros desses seis acervos, com base nos pareceres do Ceale.
Do total de 19 milhões de obras, 93 mil unidades foram do livro Enquanto o sono não vem, de José Mauro Brant. 
 
UFMG DEFENDEU SELEÇÃO EM NOTA  TÉCNICA
 
Em nota técnica composta por 13 itens, publicada no dia 1 de junho de 2017, a Universidade defende a avaliação e a permanência do livro nas escolas. 
A alegação principal é a de que a leitura dos pais e professores é equivocada, pois temas como estupro, pedofilia, fratricídios, violência, alcoolismo, sequestro e o incesto são recorrentes em livros infantis e que, “estão tematicamente presentes até na Bíblia”. 
No item de número seis, a nota discorre especificamente sobre o conto em questão faz análise de aspectos linguísticos que seriam importantes ser apresentados aos alunos em fase de alfabetização, como, por exemplo, a função condicional exercida pela conjunção subordinativa “se”, na fala do pai: “Se quiseres casar comigo, / serás minha esposa”. 
Mais adiante, a análise dos tempos verbais usados pelo autor, estariam negando a possibilidade de realização do pretenso incesto, na análise da UFMG. 
“Ao tentar amenizar seu castigo, solicitando água a seu pai, ele, novamente, reconhece a negativa ao seu desejo (‘Não te dou um copo d’água, / pois tu não quiseste ser minha.’). O tempo verbal utilizado, pretérito perfeito, confirma, mais uma vez, a não ocorrência do incesto, ao dar por concluída a negação acontecida no passado”. 
Entretanto, a análise não contemplou o verso em que a menina dá a mão esquerda ao pai (mão da aliança de casamento).
Na sequência da nota são registrados outros aspectos que justificariam a continuidade do livro no PNLD/Pnaic, mas que podem ser mais um indicativo de que são os professores que atuam nas salas de aulas, os únicos profissionais efetivamente gabaritados para selecionar os livros didáticos e paradidáticos que devem ou não ser usados em suas aulas.  
 
 ALERTA  da Editora do JE: 
A história não versa apenas sobre incesto, mas também da crença cristã de que a mulher que morre virgem torna-se santa (ou anjo). No trecho indicado acima, a menina dá a mão esquerda ao pai (mão da aliança de casamento). 
A estrofe seguinte, foge da narrativa linear da história. Restando ao leitor criar uma versão livre para a origem dos três pretendentes que trariam água para a moça, mas que a encontram morta, ladeada por anjos e por jesus (crença cristã). 
A polêmica sugere que o assunto deve ser amplamente discutido pelos professores que utilizam os livros do Programa Nacional do Livro Didático, considerando especialmente a sua responsabilidade com a formação de seus alunos. 
Afinal, o professor ou professora é o único profissional  realmente capacitado a analisar o livro a ser usado com seus alunos. 
A análise até agora está ao encargo de doutores e mestres fechados em gabinetes de universidades, sob a tutela das editoras que faturam milhões com toda qualidade de livro vendidos ao MEC. É hora de passar também este programa a limpo no Brasil.  
Sugerimos a leitura da íntegra do parecer técnico: ceale.fae.ufmg.br/pages/view/selecao-do-livro-enquanto-o-sono-nao-vem.html  

Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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