Toda unanimidade é burra!! (JE 302) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes   
03-Jul-2017


A nova Base Nacional Comum Curricular ainda em discussão, mas já em fase de consolidação e aprovação por meio de audiências públicas que acontecerão nas cinco regiões do Brasil,traz em si algumas medidas concretas no sentido de reduzir as disparidades entre os conteúdos trabalhados nas escolas públicas e as particulares ao longo da educação básica. 
Ao estabelecer um conteúdo mínimo nacional e manter um percentual para que cada região trabalhe os conteúdos locais e regionais, garante-se aos estudantes a possibilidade de transferência sem perdas consideráveis, pelo menos no que se refere ao conteúdo curricular. 
A alfabetização ao final do segundo ano do ensino fundamental, quando a criança completa oito anos, prima pela isonomia no calendário. O ensino de língua estrangeira a partir dos primeiros anos do ensino fundamental é outra vantagem significativa admitida aos estudantes de escolas públicas. Neste caso, esbarra-se com a falta de professores. Em verdade, é preciso estabelecer contato diário com a língua estrangeira em estudo para garantir a aprendizagem mínima e efetiva. 
A falta de profissionais para atender aos estudantes da educação infantil, séries finais e ensino médio é crescente e problema a ser enfrentado imediatamente pelos governos e universidades que oferecem vagas, mas não fecham turmas. A profissão está em “baixa”. 
Aprender estatística e probabilidade desde o primeiro ano e as disciplinas relativas à tolerância, pluralidade e respeito às diferenças são outras “inovações” que podem contribuir para o crescimento individual e da consciência de coletividade nos estudantes (e professores) brasileiros. 
Contudo, os resultados práticos somente aparecerão, com outras mudanças concretas: a começar pela valorização, formação e motivação permanente dos professores, com a implementação das metas 15 a 19 do Plano Nacional de Educação. 
Afinal, nenhuma criança será alfabetizada ou aprenderá os conteúdos próprios a sua faixa etária por decreto. E, seguramente, nenhuma política pública será implementada nos gabinetes dos governadores, secretários, conselheiros ou gestores.  
A aprendizagem acontece exclusivamente em sala de aula, na relação professor x aluno x família. 
Portanto, é necessária, a valorização imediata e eficaz daqueles profissionais que atuam no dia a dia da sala de aula. Todos os demais indivíduos da escola, da auxiliar de limpeza à diretora da escola e da recepcionista da secretaria da educação ao governador do Estado, devem formar uma rede e planar no entorno da sala de aula para fazer com que a professora, ou o professor, consigam ensinar e os alunos aprenderem.  
Fatores externos, como a alimentação, o uniforme e o material escolar devem sair do âmbito público e ficar ao encargo dos pais. Além de eliminar a necessidade de fazer as tais licitações, via de regra fraudulentas, que se repasse às famílias a verba, que poderá ser usada exclusivamente para esta finalidade, algo como um cartão escolar. 
Desse modo, além de assegurar o mínimo necessário ao estudante, respeitando-se suas preferências e diferenças individuais, o comércio local receberá um reforço no caixa.  
A sociedade brasileira precisa mudar a mentalidade de Estado provedor e paternalista, retornando aos pais aquilo que é de sua responsabilidade: prover seus filhos dos bens materiais e afetivos mínimos. 
A atuação do Estado precisa ser exclusivamente para atender àquelas crianças cujas famílias efetivamente não tenham renda mínima. Esta será a única garantia de participação efetiva dos pais na vida escolar dos filhos. 
Afinal, é preciso considerar que na sociedade capitalista, se não doer no bolso, os pais continuarão a terceirizar a educação dos filhos. Mas como toda unanimidade é burra, é preciso considerar que, sem a padronização dos uniformes e materiais escolares pagos com dinheiro público, as diferenças culturais e sociais ficarão mais evidentes para os alunos e professores. 
Assim, será mais fácil aprender a respeitar as diferenças, se a padronização deixar de ser regra, especialmente nas escolas públicas. Pois, para a criança,  isso será a concretização da aprendizagem, já que as diferenças estarão visíveis “a olho e bolso nus”.  
Ao receber o crédito, o aluno e família aprenderão minimamente, administração financeira, poderão escolher a estampa, as cores e formatos de seu próprio material e uniforme escolar. E, até mesmo, a escolher alimentos mais saudáveis para o seu dia-a-adia. 
Este tipo de medida já é adotada em países desenvolvidos para assegurar às crianças, e não a seus pais, alimentação saudável. O governo americano, por exemplo, fornece um vale que possibilita aos pais comprarem alimentos diretamente no supermercado. Entretanto, há restrição sobre o tipo e quantidade de cada um dos alimentos. E, é claro, os supermercados e os pais respeitam essa determinação e regras. 
Evidentemente, haverá aqueles que dirão: no Brasil não dará certo, porque os pais comprarão besteira em vez do material escolar e alimentos saudáveis aos filhos. 
Aos incrédulos é preciso dizer que um dia teremos que começar a ensinar concretamente, e este é o momento, já que estamos passando o país a limpo. Que tal incluir os brasileiros nesse processo?
Pois se há algo com que todos concordamos é que no Brasil a corrupção é cultural. Então, precisamos mudar a cultura, não só dos políticos e empresários, mas também do cidadão. E quando se trata de cultura, o processo é lendo e longo. 
E, principalmente, como dizia Albert Einstein, “Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.

Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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