A Escola Brasileira e seus significados na vida dos alunos(JE301) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Gilmar de Oliveira   
28-Mar-2017


Sries iniciais: Algum vem na porta avisar que no haver aula.

Reao da turma: AAAAAAAHHHH...

Sries finais do Ensino Fundamental: No tem aula? YUHUUUU...

 

O que leva alunos em breve espao de tempo comear a ter uma grande m vontade de ir para a escola? Ou de ir escola, mas no curtir assistir aula? De comemorarem a chegada na escola nas sries iniciais e, antes do oitavo ou nono ano, j irem com preguia, com m vontade e chegando a comemorar o dia sem aula?

Sempre repito aqui: a escola brasileira muito chata! Nossas aulas so ruins de doer. Salvo raras excees, as aulas so previsveis, no despertam a curiosidade e j chegam prontas.

Fica-se com a mesma sensao, ao assistir uma aula de Portugus ou Cincias, por mais bacaninha que seja, de ficar olhando aqueles brinquedos chineses, carrinho ou aviozinho barulhento, luminoso, estridente, mas que voc s olha, est tudo pronto e nada a ver com seu desejo, no se brinca, no se interage, apenas se olha.

Pior: com o brinquedo, se enfia na caixa e pronto. Com a aula, voc precisa estudar, responder perguntas, entender a lgica toda de algo que no usa e ainda ter de responder a uma prova sobre o assunto. E no dia que os mestres querem, no de acordo com a sua vontade. Ok, esta gerao precisa aprender que nem tudo do jeito que querem e que na vida nem tudo prazer, curtio e alegria.

Mas a escola poderia despertar mais prazer, mais desejo e curiosidade nos alunos, poderia. Alis, deveria. Pois despertar o desejo de aprender e dar sentido ao que se aprende, o nico caminho de reverter esta falta de desejo de aprender.

Nossos alunos ignoram a escola porque ela simplesmente no faz sentido em quase nenhum assunto e, ao obrigar o aluno a desenvolver assuntos que no lhes dizem respeito, ao deixar o aluno horas a fio copiando ou respondendo questes de assuntos que no compreendem a utilidade e o sentido (e to simples nortear estas questes...), a escola vai se afastando do foco de interesse de nossos alunos.

No a aprendizagem o sujeito principal da escola. Nem o professor. A escola do aluno e para a VIDA DO ALUNO. o futuro que ali se presta a ser montado. A cada aula planejada, os professores devem lembrar este princpio.

Moro num bairro que tem um condomnio fechado enorme, com manses de alto luxo e tudo que um clube de elite tem: piscinas, quadras de tnis, sauna, cinema, espao goumet. E a uns 200m antes, tem uma favela grande, baseada no esqueleto de um hospital abandonado. Sem luz, sem gua, barracos de lona ao redor do prdio do ex-futuro-hospital. Quase um condomnio da misria.

Quase vizinhos; a riqueza e a misria a uma quadra de distncia. E a vinte anos de diferena de tempo em sala de aula. Quase todos os moradores do condomnio so pessoas com muitos anos de estudo.

Fui jogar tnis l, a convite de um amigo. Questionei com mais de 20 participantes a profisso. A maioria vinha de famlias ricas e de sobrenomes famosos, tinham herana e ainda os estudos pagos at o Ensino Mdio, que detestaram, mas os fez entrar na Universidade Federal. Ou daqui, ou em outros estados.

Ou seja, a escola ajudou a manter o alto padro que j tinham. Uma nica pessoa que entrevistei veio de classe popular e deu certo na vida, de tantos, ele mesmo confirma, o nico pobre que estudou e cresceu na vida, estudando no Brasil. Isso em mais de 600 manses.

Alis, um silncio de dar d: poucas crianas, quadras e piscinas vazias, um ou outro Juninho bem engomado, roupa limpa, calado, quieto. Dia de semana, estudam at o incio da noite e dormem cedo. O condomnio todo pr-determinado, triste at.

Fui tomar uma cerveja num boteco dessa favela do hospital abandonado, pois dou carona pro lavador de carro da frente do clube, que mora ali. Juntou uma turma, sempre rola um animado forr, criana correndo de todo lado, descalas, famintas.

O mximo que um dos muitos sujeitos dali tinha era a terceira srie. Vrias reprovaes cada uma das tristes histrias de vida. Todos eles de classe muito humilde, outros tantos fugidos da dureza da seca do serto, como os paranaenses que invadiram as periferias de Joinville em busca de vida melhor.

Apanhavam de professores. Reprovavam e eram chamados de burros, Abandonavam a escola para ajudar aos pais, para ter o que comer.

Fiquei duas horas conversando, entrevistando gente com sofridas histrias, moradores da favela. A escola s os despedaou. No ficou nada da escola neles. A vida que levam no escolha deles. a imposio da escola que apenas manteve a desigualdade que faz do Brasil o gigante bbado, trpego e desorientado que continuaremos a ser, se a escola no comear a fazer a diferena em qualidade e objetivos de vida para todos.


Gilmar De Oliveira
Sobre este autor:
Psiclogo clnico e institucional; especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educao e Cultura. CRP 12/01950. Endereo eletrnico: Este endereo de e-mail est protegido contra spam bots, pelo que o Javascript ter de estar activado para poder visualizar o endereo de email
 
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