Final de ano é tempo de desvendar os mistérios das relações de poder da ciência e da religião(JE299) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes   
09-Dez-2016


“Se quisermos realmente conhecer o conhecimento, saber o que ele é, apreendê-lo em sua raiz, em sua fabricação, devemos nos aproximar, não dos filósofos mas dos políticos, devemos compreender quais são as relações de luta e de poder. E é somente nessas relações de luta e de poder – na maneira como as coisas entre si, os homens entre si se odeiam, lutam, procuram dominar uns aos outros, querem exercer, uns sobre os outros, relações de poder – que compreenderemos em que consiste o conhecimento”.
(Foucault, 1996) 
 
 
  
O desastre aéreo que vitimou a equipe de futebol da Chapecoense e os profissionais de imprensa que acompanhavam o time para um jogo da etapa final da Copa Sul-Americana 2016, gerou centenas de milhares de mensagens de solidariedade nas redes sociais. Mas também não faltaram correntes e posts do tipo “é Deus mandando recado aos infiéis que se afastaram da igreja e da fé e etc...
Este tipo de manifestação foi sempre acompanhada de outras ligando o desastre à falta de crença desse ou daquele. Essas pessoas, plenas de ignorância, têm tanta necessidade de “professar sua fé nas redes sociais”, quanto ignoram na ciência que após décadas de estudos estabeleceu os parâmetros e regras para que os voos sejam seguros e cheguem bem ao destino pré estabelecido. 
Regras que não foram cumpridas pelo comandante e demais responsáveis pelo avião e por fiscalizar a aeronave e o plano de voo, que caiu por falta de combustível. 
Ou seja, não foi porque Deus quis ou por alguma fatalidade, foi porque alguém (homem e ou mulher) não fez a sua parte para garantir a segurança daquele voo. 
Portanto, o acidente poderia ter sido evitado se as regras da aviação, estabelecidas pela ciência, tivessem sido seguidas. Somente as investigações poderão dizer quem foram os responsáveis. 
Além disso, provavelmente, serão estipuladas novas regras para os voos fretados e as companhias que os operam. Tudo isso para que acidentes deste tipo jamais voltem a acontecer. E, porque na aviação, em todo o mundo, um acidente JAMAIS poderá ser semelhante ao outro.      
Ainda abalado pela tragédia, o Brasil conhecia o resultado do Programa Internacional de Avaliação de Alunos - PISA 2015. E, mais uma vez, o país desabou. Nas provas feitas em 70 países, o Brasil ficou na 63ª posição em ciências, na 59ª em leitura e na 66ª colocação em matemática. Posições ainda piores do que ocupou na prova anterior, em 2012.
Na prova coordenada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Cingapura ocupou a primeira colocação nas três áreas avaliadas. 
No Brasil, a prova foi aplicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a 23.141 estudantes, de 841 escolas, que representam uma cobertura de 73% dos estudantes de 15 anos.
Os resultados mostram que 70% dos alunos do Brasil têm nível de proficiência abaixo do nível 2 em matemática; 56,6% em ciências e 51% em leitura. O nível 2 é considerado básico para a aprendizagem e a participação plena na vida social, econômica e cívica das sociedades modernas em um mundo globalizado.
Ou seja, a aprendizagem de nossos jovens de 15 anos, vem caindo para níveis inaceitáveis. Portanto, nossos adolescentes estão plenos de ignorância em ciências, leitura e, pior ainda, em matemática. 
Nenhuma mensagem de solidariedade ou atribuindo a culpa pelo baixo desempenho de nossos estudantes no PISA a Deus ou a sua ira, foram postadas nas redes sociais. 
Os especialistas ouvidos nas reportagens apontaram como causas para “a morte intelectual” de nossos alunos a falta de formação adequada de nossos professores e a gestão inadequada das verbas da educação e outros já tão repetidos como salários, etc..
Nenhum deles falou que nossos alunos não aprendem simplesmente porque não estudam. 
E não estudam porque as escolas e as famílias não oferecem as condições ideais. 
Sentados em cadeiras estofadas, com ar condicionado ligado e longe das escolas básicas, os tais especialistas nem imaginam a amplitude da falta de condições e da corrupção pedagógica que reina absoluta no país.
Implantada sorrateiramente e regada diariamente pela crença de que a escola é a segunda casa e deve suprir as necessidades pessoais de alimentação, vestimenta, afeto e até de religiosidade dos estudantes. 
As escolas brasileiras estão cada dia mais praticando e , portanto, ensinando a fazer a corrupção pedagógica. No modelo atual, aos professores cabe cuidar e educar e não ensinar o saber científico. 
 Ao descumprir o calendário letivo, dispensando alunos mais cedo em dias letivos para ter tempo para discutir o que quer que seja ou fazer festas para sei lá quem, ou no final do ano, porque ‘já foram aprovados’ a escola ensina corrupção pedagógica. 
Corrupção que fica ainda mais latente neste período do ano. Época em que as escolas descumprem regras de manter os estudantes em sala de aula, ensinando conteúdos até o último, dos 200 dias letivos, do calendário escolar. 
Os especialistas não apontaram os professores da educação infantil e das séries iniciais como responsáveis. Não apontaram os país (ou responsáveis) que não acompanham a aprendizagem do filho e cobram somente a nota, pois são também plenos de ignorância no que se refere ao valor da escola tanto para si, quanto para o filho. 
Os professores foram de certa forma poupados porque seria injusto com os que fazem o esforço máximo para ensinar, mas que, jamais conseguirão mudar sozinhos a triste realidade das escolas, especialmente as públicas. 
A queda livre do ensino no País é resultado sim da corrupção pedagógica. Corrupção que tira dos alunos a obrigação e a possibilidade de estudar para então, plenos de conhecimento, ter a nota alta e ser aprovado ao final de um ano letivo. 
Mas os responsáveis são sim os professores, muitos em cargo de diretores ou gestores, que decidem dispensar os alunos para festejar esse ou aquele evento no horário escolar. 
Corrupção que possibilita a uma centena de concursados (com garantia de emprego) receberem os salários mesmo trabalhar no cargo para o qual fez concurso em troca do dinheiro público que recebe.
Corrupção que rouba de nossas crianças e adolescentes a motivação para estudar e aprender e que não há operação que possa lavar a jato. Mas que é mais prejudicial ao país e  aos brasileiros do que o vírus Zika, pois destrói para sempre os cérebros de gerações de brasileiros. 
E pior, está tão entranhada, que a sociedade continuará por muitos anos a confundir nota com aprendizagem. E a pensar que estamos ensinando adequadamente nossos alunos porque os pseudo índices de avaliação e aprovação são altos.
Os especialistas em educação, assim como a grande maioria de nossos profissionais em atividade nas escolas, seguem o raciocínio de que o nosso erro é sempre irrelevante ou muito simples. 
Há sim, muito professores que são preguiçosos, que fingem ensinar e fingem avaliar. Muitos destes adorados pelos alunos dão aulas de verdade um pequeno período do ano, somente semanas após o início das aulas e chegam ao final do ‘plano de ensino’ um mês antes da data prevista no calendário letivo. 
Nesse período intermediário, burlam o caminho que levará seus alunos ao conhecimento verdadeiro. Plenos de ignorância de sua responsabilidade nos rumos da sociedade, esses professores sempre terão uma desculpa para sua inércia e incompetência.
 
 
A quem interessa a manutenção dessa atitude de não ensinar? E quem ganha com isso? 
Com certeza os políticos que se perpetuam no poder por meio do voto do ignorante. 
E àqueles que, mesmo sem cumprir com sua obrigação junto a sociedade, recebem o salário no final de cada mês, pago com dinheiro dessa mesma sociedade. 
 
 
Cabe aqui trazer a tona o pensamento de Darci Ribeiro: “há professores que ganham POUCO pelo trabalho que fazem, mas há também professores que ganham MUITO para o que fazem”. 
Sem saber que estão sendo enganados, os alunos fazem a festa e chegam ao cúmulo de agredir os professores que não praticam a corrupção pedagógica.
Alunos brasileiros não aprendem porque não estudam. Até mesmo os que conseguem nota máxima, por vezes sabem tanto quanto quem zera na prova. 
Os alunos não têm orgulho por ter aprendido algo, por ter habilidades intelectuais, mas todos orgulham-se pelas notas altas, muitas vezes colando, mais uma  forma de praticar a corrupção pedagógica. 
A inversão de valores é tamanha que todos se alegram quando não há aula ou o professor falta; e ficam tristes e até agressivos e raivosos se algum professor prolongar alguns minutos a aula para completar uma linha de raciocínio. 
Mas já estamos no final do ano e o resultado do PISA já estará na vala do esquecimento em fevereiro, quando os alunos e professores retornarão às escolas.
Contudo, assim como aconteceu com o avião que caiu próximo do aeroporto onde deveria ter aterrisado com segurança, o Brasil terá de abrir suas caixas pretas da política para o setor e investigar cada detalhe de sua trajetória educacional.
Não podemos continuar a apontar culpados do mundo espiritual (ou virtual) para justificar o não cumprimento das normas e regras básicas estipuladas pela ciência como as corretas e ideias. Sob pena de jamais chegarmos ao destino minimamente promissor com segurança, seja num futuro imediato ou longo prazo. 

Afinal, o conhecimento é a única saída para que o aluno brasileiro tenha o poder de entender e intervir no próprio futuro e, consequentemente, no futuro do País.  

Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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