A aprendizagem será significativa somente quando a escola ensinar disciplina e respeito (JE 298) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes - Editora   
17-Out-2016


Há algo de muito errado com uma sociedade em que as pessoas que fazem a coisa certa são duramente criticadas e estão erradas aos olhos dos colegas.
Seguramente há algo de mais errado ainda se um professor que quer ensinar verdadeiramente é  orientado a “deixar para lá”, a aliviar na nota do aluno e a fazer cálculos diferenciado para que os alunos tenham notas melhores. 
Este será o comportamento padrão nas escolas públicas do país? O resultado são as notas que alunos e suas escolas receberam no ENEM de 2015, divulgado na semana passada.  
Que a qualidade do ensino oferecido nas escolas públicas é baixo, todos sabemos. Mas o que os brasileiros, inclusive os professores e especialmente os gestores das escolas de ensino básico, notadamente os indicados politicamente, e os que estão na direção das escolas para satisfazer seu ego de poder e fama, se recusam a reconhecer, é que a qualidade do ensino é baixa porque a qualidade da gestão do ensino é deficiente. 
Nenhum professor, por mais preparado que seja, por mais que seja pós graduado, mestre ou doutor, conseguirá ensinar se não tiver o apoio da equipe gestora da escola. 
Esta equipe, formada pelo diretor e seus auxiliares (supervisores, orientadores e auxiliares pedagógicos) na quase totalidade das escolas públicas está montando estratégias para garantir a continuidade do status quo, em vez de criar estratégias para apoiar o trabalho do professor em sala de aula. Como, por exemplo, cobrar e insistir com os alunos que respeitem o profissional que ainda resiste bravamente nas salas de aula. 
Empreender estratégias para levar os alunos a respeitarem o professor e para a valorização do mestre é a mais importante das atividades. Ao invés disso, ‘panos quentes’ sobre os comportamento inadequados e até mesmo as agressões são a regra. 
A quase totalidade das escolas trata o bulling contra o professor e os colegas, a indisciplina, a falta de responsabilidade dos alunos com as tarefas e com o silêncio em sala de aula como atitudes normais de crianças e adolescente. Mas não são.
Para cada direito, a criança tem uma obrigação. A obrigação do professor é ensinar, a do aluno é prestar atenção, fazer as atividades propostas e perguntar quando tiver dúvidas sobre o conteúdo. 
Não cabe ao professor educar o aluno e, muito menos adaptar-se ao hábito individual de cada aluno que está em sua sala de aula. São os alunos, que são em maior quantidades em sala de aula, que deverão adaptar-se ao modo de ensinar da professora ou professor. Enquanto continuarmos a exigir o contrário, nenhuma aprendizagem acontecerá. 
Ou vejamos, são 20, 30, 40 ritmos diferentes de aprendizagem em uma sala de aula e apenas um ritmo diferente de ensinagem. O que é o natural? Com certeza não será um multiplicar-se em 40. Não há sequer tempo de aula suficiente para isso. Se despender um minuto para cada “diferente ritmo de aprendizagem” fazendo o que dizem ser sua obrigação, a professora levará toda a aula a dar atenção especial. E haverá aprendizagem do conjunto de estudantes? Seguramente não. 
Portanto, enquanto a equipe gestora da escola continuar a confundir ‘ter o foco na aprendizagem’, com deixar o aluno fazer o que quer e a alimentar neles a falsa ideia de que seus pais poderão vir à escola na hora que quiserem para agredir o professor;   a aprendizagem, comprovada como deficiente pelos exames de conhecimento externos à escola, continuarão a detectar que há sérios problemas dentro das salas de aula. 
Este desvio de conduta de gestores, alunos e até mesmo de professores que se rendem “ao sistema vigente” (leia-se a este modo de gerir a escola), pode ser considerado um grande esquema de corrupção educacional. 
Parar a escola, ou mesmo estender o recreio para fazer uma chá de bebê para a professora grávida é corrupção pedagógica. 
Todos concordam que as quatro horas diárias que nossos estudantes deveriam ter de aula é pouco, então, esse tempo da festa, lhes é roubado da aprendizagem. 
Além disso, esse tipo de coisa, passa a imagem de que, a festa é muito mais importante do que o ensino. Como o filho, que ainda não nasceu, pode ser mais importante do que TODOS os filhos intelectuais de uma escola? 
O individual jamais pode prevalecer sobre o coletivo.  E esta é a principal ideia que precisa ser ‘plantada na cabeça de nossas crianças e adolescentes’, se quisermos ter uma nação de brasileiros nas próximas gerações. 
No momento em que crianças e professores estão no topo das comemorações é o tempo ideal para refletirmos sobre o que, efetivamente, é valorizar o professor e respeitar a criança. O mais importante dos direitos de cada uma das crianças é ter um teto seguro para viver e crescer. 
E como ela o terá se, em todos os ambientes em que vive é tratada como alguém absolutamente irresponsável pelos próprios atos? 
Isentas de erros e obrigações, nossas crianças estão sendo transformadas em tiranos, travestidos e tratados como príncipes e princesas.
 Aquele tipo que é muito paparicado, mas que o mundo jamais dará o suficiente para a importância que julga ter ou para satisfazer seus desejos que são maiores e mais tiranos a cada dia. 
Já é tempo da equipe gestora e dos pais entenderem que, a qualidade de ensino melhorará somente quando a escola tratar o aluno como um ser em formação e que precisa cumprir metas comportamentais. 
A escola é o espaço no qual a criança deverá aprender a viver com o outro cidadão, que tem os mesmos direitos e deveres que ela própria, independe da classe social, religião, sexo, raça, cor da pele ou características físicas e psíquicas.
Os professores são a primeira autoridade pública a que são submetidos os cidadãos. Mais tarde virão os patrões, gerentes, legisladores, os governantes e  os juízes.
Nos países desenvolvidos, como os Estados Unidos e Japão, e em todos os que conseguiram excelência em ensino, tem regras disciplinares claras e rigorosamente cumpridas pelos estudantes de todos os níveis de ensino. 
Nos Estados Unidos há policiais em todas as escolas. Os estudantes têm tempo determinado para ir ao banheiro e, no lá, alguém fará o registro do horário de chegada e saída. A medida visa a controlar o tempo despendido no trajeto e evitar o consumo de substâncias entorpecentes no ambiente escolar.
No Japão, fazer o trajeto de casa à escola é a primeira responsabilidade atribuída integralmente aos pequenos. Os vizinhos caminham juntos até a escola cuidando uns dos outros. Quando a segurança está sendo ameaçada, a própria população encontra meios de possibilitar as crianças que se defendam “do inimigo”.
Quanto mais conhecemos sobre  realidade educacional de outros países, mais convictos ficamos de que não é somente com mudanças curriculares ou a ampliação do tempo de permanência na escola, que vamos conseguir qualidade de ensino no Brasil. 
É preciso, antes de mais nada, deixar o romantismo de lado e fixar regras disciplinares claras e rigorosas a serem cumpridas pelos estudantes. 
Afinal, a aprendizagem deve ser significativa e prática. Nada mais significativo e prático do que cumprir regras claras de convivência em sociedade, do que aprender fazendo. Cumprir horários, fazer a sua parte na rotina diária e na manutenção da própria segurança é apenas o primeiro passo para a vida autônoma e responsável. 
Nossas crianças e jovens deveriam ser responsabilizados desde casa: despertando e levantando sozinha com o alarme, vestir-se, fazer a higiene, tomar café e sair para a escola em horário fixo para chegar pelo menos dez minutos antes na escola. 
Chegar alguns minutos antes não prejudicará ninguém, e ainda será a aprendizagem para administração do próprio tempo, especialmente para quando ingressar no mundo do trabalho remunerado. 
Enquanto as escolas brasileiras continuarem a relativizar as regras, o horário, o respeito mútuo, disciplina e a valorizar a nota em vez da aprendizagem (comprovadamente inferior as notas expressas nos boletins escolares), nada mudará em termos de qualidade de ensino no país.
A reforma necessária na educação não virá de planos ou políticas governamentais. Ela acontecerá somente no momento em que gestores, professores e pais assumirem verdadeiramente seus papéis na educação de nossas crianças e adolescentes estabelecendo e fazendo cumprir regras disciplinares e comportamentais claras e rigorosas. 
Não há, na face da terra, uma única sociedade que consiga progredir para uma qualidade melhor de ensino, e consequentemente de vida, sem disciplina. 
A escola e o conhecimento que ela proporciona são a porta de saída da miséria financeira e da pobreza social. 
Todos os empresários, gestores, trabalhadores, artistas e atletas bem sucedidos são pessoas disciplinadas em seus afazeres básicos cotidianos. A indisciplina é a causa número um dos gordos não conseguirem emagrecer. 
Não há sucesso sem dedicação, disciplina (o modo certo de fazer as coisas), erros e, principalmente, acertos. 
Não importa quantas vezes se caia, o importante é quantas vezes você seja capaz de erguer-se e seguir adiante, até alcançar seus objetivos. 
Lembre-se, ninguém tem inveja de mendigo maltrapilho jogado na sarjeta da vida. Somente as pessoas bem sucedidas (sempre disciplinadas) são invejadas. E não adianta dizer que o importante é o que se é por dentro, não raras são as vezes que os órgãos internos espelham as distorções da indisciplina no cuidado com o próprio corpo.
Ninguém nos julga pelo que está por dentro, somos julgados pelo que somos na sociedade (profissional e pessoalmente) e pelo que fazemos por ela e não pelo que ela faz por nós. 
É chegada a hora de ser bom caráter, profissional eficiente e cidadão honesto. E ninguém é isso tudo, sem antes ser um estudante disciplinado, dedicado e interessado verdadeiramente no saber e no conhecimento.  

Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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