As preces e a ciência (JE 297) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Fernando Bastos   
15-Set-2015


O ser humano sempre acreditou no poder da oração, uma forma de barganha com os deuses para que estes atendessem a seus pedidos. 
Nossos ancestrais oravam para que a chuva salvasse a lavoura e que parassem as enchentes, as pestes e as doenças; o êxito na caçada e nas guerras; a fertilidade da mulher e a virilidade do homem; a conquista do coração da pessoa amada, a sorte no casamento e uma prole numerosa. Em troca, erguiam altares e sacrificavam as virgens. 
Os céticos acham bobagem rezar, porque ou não existe Deus, ou se existe, ele não está nem aí para os humanos. Ora, onde estaria a justiça de um Deus que ajuda alguém a encontrar as chaves do carro no meio da bagunça, mas ignora as súplicas de milhões de crianças famintas na África subsaariana? O religioso contorna essas questões evitando o confronto ou se apoiando na velha frase “os desígnios de Deus são desconhecidos”. 
Mas, orar funciona? Para os religiosos, sim. Fica a dúvida: Deus cura todos que oram ou seleciona os sortudos? Quando um religioso sai do hospital curado de uma doença grave, é comum ele noticiar que foi “graças a Deus”. 
Talvez ele devesse pensar naqueles pais que, embora tivessem a mesma fé e rezaram com a mesma devoção, não tiveram as orações atendidas, e viram o filho amado sucumbir à morte. O que ele deveria dizer para esses pais tão fervorosos quanto ele? Que ele é um privilegiado e Deus preferiu a ele que ao filho desse casal? 
Interessante que os religiosos só prestam atenção naqueles que são curados, mas esquecem das milhares de pessoas que morrem todos os anos em leitos de hospitais, apesar de terem recorrido igualmente às orações. 
Padres e pastores incentivam os fiéis a orar pela cura dos doentes, mas quando eles sofrem de enxaqueca ou pedra nos rins correm para a farmácia ou hospital. A oração só teria efeito acompanhada da ajuda médica? 
No século dezenove morria-se por causa de uma infecção intestinal ou uma simples gripe. Como a medicina capengava, a fé do enfermo, as missas e as novenas eram inúteis. 
Hoje, graças aos avanços da ciência, muitas vidas têm sido salvas, mesmo diante das mais graves doenças. Onde estava Deus há dois, três séculos atrás, que deixava morrer milhões de fiéis por doenças que hoje a medicina cura com alguns comprimidos?
Há também religiosos que acreditam que as orações podem livrá-los de desastres. É comum vermos sobreviventes de acidentes contarem ao repórter que saíram com vida porque Deus os salvou. 
E quanto aos outros milhares que morrem nas estradas, muitos deles igualmente fervorosos devotos? Parece que atribuir a Deus a cura de uma doença ou o triunfo de ter escapado com vida de um grave acidente é um erro infeliz, pois passa a arrogante mensagem para a família dos mortos que aquele felizardo mereceu o cuidado de Deus, enquanto seus filhos amados pereceram porque Deus não se importou com eles.
A Bíblia diz que quem crê no Senhor, nada de mal lhe acontecerá (Salmo 90,10. Na protestante é o 91,10). Será verdade? Milhões de cristãos rezam diariamente “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”. Estão sendo atendidos? Creio que teríamos que perguntar àqueles padres que pecam contra a castidade. 
Na manhã de 1º de novembro de 1755, dia de Todos os Santos, feriado religioso, Lisboa sofreu um dos piores terremotos da história, que matou pelo menos dez mil pessoas, muitas soterradas em igrejas quando oravam para escapar do perigo. 
Em 18 de janeiro de 2009 o teto da Igreja Renascer na cidade de São Paulo, desabou durante o culto, deixando sete mortos e 76 feridos. Todos os anos, centenas de romeiros morrem ou se ferem gravemente nas estradas, a caminho para eventos religiosos, enquanto cantavam alegremente hinos de louvor ao Senhor.
Não quero dizer que a fé em Deus não ajuda. Ajuda, quando ela adquire o sentido de motivação, de ter certeza que obterei êxito no final. Esse tipo de fé, todos podemos ter, independente de ser ou não religioso. 
Todavia, nunca despreze a Medicina. Como disse Carl Sagan, “Se você quiser salvar o seu filho da pólio, você pode rezar ou pode vacinar... Tente a ciência.” 

Fernando Bastos
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