A perpetuação do desequilíbrio social: A Índia e o Piauí (JE 298) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Gilmar de Oliveira   
17-Out-2016


Estou querendo trabalhar na tórrida Teresina, no Piauí. Quero prestar consultoria para as escolas particulares de lá, depois que vi o sucesso das escolas desse estado paupérrimo no ranking das melhores escolas do ENEM. 
Nada se compara ao sucesso que os coordenadores pedagógicos piauienses atingiram e, olhando bem o ranking das 20 melhores escolas do Brasil, Piauí e Ceará figuram entre as melhores, de 15 mil escolas. 
O Piauí é um dos 3 estados mais pobres do Brasil. É pobre até para os padrões nordestinos.  Como que tem as melhores escolas do Brasil? 
O Ceará, que também é um estado muito pobre, tem outra fatia gorda de escolas entre as melhores do Brasil pelo ranking do ENEM. Qual será este fenômeno educacional?  E como com tantas boas escolas, ainda há tanta miséria e desigualdade em ritmo crescente à imensa maioria de seus habitantes? 

Reflitamos: Na Índia, a sociedade é dividida em castas, de acordo com etnias e escalas sociais milenares e excludentes. Quem é dalith, a casta mais escorraçada, nunca será bem visto, aceito ou terá uma vaga como um brâmane, da elite. Praticamente não há dalith rico e, se conseguir ganhar numa loteria, ninguém quer o dinheiro dele, creem ser impuro. Ou seja: a maioria dos daliths é miserável e continuará sendo. 

Com o desenvolvimento da Educação, na Índia, este preconceito idiota cai a cada ano, mas ainda é forte. No Brasil, a “pátria educadora”, se você é pobre e estuda 11 anos em escola pública, sem reprovar e termina o Ensino Médio, tem 5 vezes menos chances de um hindu dalith em subir na pirâmide social.
Quem é pobre no Brasil, por mais que estude, tem chances mínimas de ser classe média, uma chance em 20 de uma criança de classe D chegar a ser classe B estudando 11 anos, pois raros saem com habilidades profissionais e apenas 17% entram no Ensino Superior. Veja que 85% dos alunos de Ensino Médio Privado entram na faculdade e, estes, são menos de 20% do total de estudantes. Um aluno de escola pública terá no Ensino Básico a metade da carga horária de um aluno de boa escola particular; saberá ler e interpretar, calcular e refletir questões de mundo com rendimento até 70% menos do que um aluno de escola paga que, por sua origem abastada, já teria um caminho mais fácil para ter profissão, emprego e alternativas diversas para manter o status quo familiar.  
As profissões menos concorridas, como as licenciaturas, acabam nas mãos dos mais pobres, que mal conseguem se manter, quem dirá comprar livros e pagar cursos de atualização e capacitação. Eles serão professores a maioria de escolas públicas. Faltam muito e são mal coordenados, não têm acesso a sistemas informatizados e equipamentos de qualidade. Começa aí o caos nas escolas públicas.
O que o Ranking do ENEM 2015 nos mostra, aliás, nos esfrega na cara, é que as melhores escolas do Brasil são as escolas dos ricos, dos muito ricos! O Piauí, o Ceará e todos os estados pobres possuem a elite (minoria absoluta) estudando em escolas de padrão internacional, fornecendo a estes a chance de conseguirem as melhores vagas na universidade pública, pagas pelo imposto dos pobres, que são os que pagam mais. 

As poucas escolas públicas bem colocadas são federais, com recursos amplos e excludentes do povão. Lugar de rico! Estes ricos bem instruídos serão os adultos bem formados. Mas não entendem que poderiam ser mais abastados, se conseguissem gerenciar a sociedade de forma mais igualitária, sem cair na podridão do Socialismo prático. 

E a classe pobre brasileira, continuará nesse engessamento social, sem as mudanças que a Educação de qualidade já produz no mundo todo, até na Índia, até no Piauí, mas só pra quem pode! 
Nos estados brasileiros, as escolas públicas chafurdam no IDEB com médias entre 2,3 e 3,1 e no ranking do ENEM se encontram na rabeira do ranking, acima da 8500º posição, dali para trás. As escolas particulares vêm com IDEB de 6,6 para cima e, no Ensino Médio, lideram o ENEM com folga!
Por mais que o governo comemore as raras escolas públicas que aparecem entre as 200 melhores, ou entre as 900 melhores, de 15 mil escolas que pontuaram no ENEM, é fácil de perceber que tais escolas são federais, ou Institutos Federais ou escolas ligadas às universidades federais, os chamados “colégios de aplicação”, gratuitos, mas que só entram com rigorosos testes de seleção ou servem aos abastados funcionários públicos, que podem deixar seus filhos estudando com mestres e doutores e se refestelam com verbas próprias, diretas da fonte de Brasília. 
Outras escolas públicas, as que recebem verbas das regiões industriais onde se situam (como de Valinhos, Joinville, Jaraguá do Sul e Caxias do Sul) e que possuem em seus conselhos membros da administração dessas empresas para fiscalizar as verbas doadas, acabam indo bem, mas muitas perdem nota porque os professores são pagos pelo Poder Público e mal recebem para fazer um curso de atualização ou comprar um livro. 

A desigualdade social é reforçada por nosso modelo educacional em nossa sociedade desequilibrada, isso não é culpa da elite do Piauí. 
Mas as elites que lideram o ranking e que ocupam as melhores vagas nas universidades não produzem alternativas de melhor distribuição de renda, de produção de estudos que embasem leis para justificar a diminuição de impostos, a fiscalização de contas públicas, pesquisas científicas de peso que contribuam para o avanço da ciência, a melhoria do caos urbano, dos problemas ambientais, de saúde e da própria educação. 

Ou seja: estas escolas dos ricos nos estados pobres adestram muito bem os jovenzinhos arrogantes e infantilizados de sua elite, que conseguem bons resultados nos cursos superiores, mas sem pensar profundamente, sem serem cientistas mesmo. Isso porque se demora muito para se desfazer do condicionamento de estudos enlatados das fórmulas de passar no ENEM (dificuldade de pensar de forma ampla e holística)e porque o diploma, sem avanço em pesquisa, para quem tem patrimônio, emprego, renda familiar e influência social, vale muito, mas não o suficiente para transformar informação em conhecimento. Renda, eles possuem, só lhes cabe manter.

Não se trata aqui de uma polarização rico x pobre. Há pobres que sobem na vida estudando, mas são tão raros quanto ricos que empobrecem. 

Se trata de manutenção de status quo e de injustiça social. Falo aqui que as classes mais ricas continuam a dominar as melhores vagas, não dominam a sociedade que é dominada por criminosos das drogas ou da política. Trato apenas de lembrar que a imensa maioria pobre não pode competir pelas mesmas oportunidades em igualdade de condições, se as escolas públicas não melhorarem.
Alunos que mal têm o que comer e o que vestir, como os jovens que vejo diariamente na periferia de João Pessoa, nas escolas reviradas do avesso, de professores faltosos, sem iniciativa e sem o devido preparo de gerenciamento multidisciplinar dos conteúdos, sem a fala da experiência variada, que ilustra e inspira, com seus pais que mal conseguem entender o mundo em que vivem ou como não fazer mais filhos, que passaram por uma escola, mas que não fez diferença.  A elite continuará elite. Isolada do mundo, como os humanos sobreviventes em relação aos zumbis de Walkind Dead. A riqueza das escolas dos ricos mantém, mas não transforma. A pobreza da escola dos pobres também. Eis o problema!

Gilmar De Oliveira
Sobre este autor:
Psicólogo clínico e institucional; especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura. CRP 12/01950. Endereço eletrônico: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
 
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