Atualização didática e de currículo ou perda do futuro (JE296) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Gilmar de Oliveira   
22-Jun-2016


Textos complexos, nomenclaturas estranhas, escalas de milhares de quilômetros, operações abstratas demais, análises textuais, fatos históricos desprovidos, muitas vezes, da devida contextualização. 
Alguns minutos com livros didáticos na frente dos olhos e percebe-se a complexidade que se tornou o ensino, ávido por enfiar goela abaixo mais e mais conteúdo, como se a vida do estudante se resumisse a aprender a responder questões do ENEM.
Não vou esquecer uma situação narrada por uma estagiária que supervisiono, ao assistir uma aula: Uma sala de 4º ano, superlotada, cerca de 70% da turma não sabe ler, e a professora pede à turma que leia a página 140 e 141 sobre continente asiático e resolvam os exercícios da página 142, senta na sua cadeira e começa a teclar ao celular e pedir silêncio quando a turma se dispersa. 
O que representa este tipo de ensino para esta criança? O que é um continente? E o que é a Ásia? Será que, se contextualizarmos sobre Japão, China, Arábia, Índia... o aluno se localiza? 
Quem sabe vendo alguns vídeos? Nada! Abrir o livro, ler sem saber, com termos difíceis, tentar resolver questões apenas no velho e burro “questionário”, eis a realidade de uma aula perdida, do interesse perdido. Não demorou muito para que os alunos fizessem aquela algazarra e meia dúzia deles parassem na sala da orientadora... pudera!
As aulas brasileiras são mortas. Eu venho escrevendo isso há anos, como pesquisadores do Brasil e do exterior atestam o fracasso do ensino brasileiro. 
O pior dessa situação é que sabemos, as famílias sabem, mas pouco ou nada fazemos para reverter a maior desgraça que um país poderia ter, que é a falência da instituição escola como elemento formador de atitudes, conceitos, habilidades e saberes. 
Sem cérebros funcionais, a sociedade se torna enfraquecida, sujeita a ser tomada por espertalhões e suas promessas, desses que invadem a política através do voto e que agora vemos na mídia o mal causado à Nação. Sem escola de qualidade, não há como refletir e planejar o futuro, não há sociedade. 
Até temos escolas: na verdade os prédios, mal conservados pela incompetência de diretores que, em sua enorme maioria no Brasil, são escolhidos por serem cabos eleitorais de políticos corruptos. Mas não temos um currículo decente para ensinar. A maioria dos assuntos não corresponde à realidade dos alunos em sua forma de ver o mundo e interagir nele. Parece que a escola é uma ilha perdida em outra dimensão, onde passam alunos por um portal mágico, verificam temas como o relevo do Noroeste africano, as fossas abissais, operações matemáticas que, em geral, não respeitam o desenvolvimento intelectual de cada idade para a devida compreensão. 
A questão não é A NECESSIDADE DE UMA REFORMA NO CURRÍCULO, como o MEC propôs recentemente. Menos disciplinas no Ensino Médio, mais horas de ensino, ludicidade e experimentação no Ensino Fundamental. Propostas que precisam ser ouvidas, estudadas, repensadas, mas precisamos de reforma.
Sem assuntos que possibilitem mudança na realidade, na forma de ver o mundo, na habilidade de pensar, diferenciar, analisar, refletir, teremos uma geração alienada e perdida. Isso já está ocorrendo, mas se reflete na absurda falta de interesse e passividade do aluno frente ao mundo que o cerca e na crescente indisciplina em sala de aula. Se o tema da aula não desperta desejo, a tendência é o aluno extravasar sua energia aprontando de tudo na sala.
Se tivermos escolas bem preservadas e currículo adequado à vivência e à experiência trazidas para a reflexão pelos alunos; se tivermos disciplinas que despertem o desejo, o interesse e o compromisso com os alunos, então precisaremos do toque final na qualidade de ensino: a Didática, a forma de ensinar. 
Ainda ensinamos à moda jesuíta, salvo raras exceções. Fica-se na saliva, quadro, exercícios e provas, usa-se muito mais a memória e bem menos o raciocínio . Nada de aulas práticas, interdisciplinares e projetos integrados, uso de recursos multimídia, na contramão do mundo desenvolvido.
Ainda hoje no Brasil, prioriza-se a escrita e perde-se tempo com letra e cópia. Já a maioria dos países “que deram certo” aboliu a escrita que não seja digital, algo impensável aqui. 
Além desse choque, o padrão didático europeu, por exemplo, favorece o desenvolvimento do raciocínio e da análise, da cidadania, da ética e de saberes integrados, como é o mercado de trabalho atual. Ensina-se a pensar, a criar, a resolver, a integrar. Isso é desenvolvimento. 
Não temos alternativa para o Brasil crescer que não passe por profunda reforma na visão de escola e de mundo, com conteúdo e forma transformados. Pare, repense e planeje, depende de você leitor, esta nova práxis educacional. 

Gilmar De Oliveira
Sobre este autor:
Psicólogo clínico e institucional; especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura. CRP 12/01950. Endereço eletrônico: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
 
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