Ensino de boa qualidade tiraria o Brasil da crise? (JE293) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes   
21-Mar-2016


Há muitos problemas, acontecimentos, pensamentos, notícias e até mesmo “análises de especialistas” que precisam ser melhor analisados neste país da corrupção institucionalizada. Entre eles está o ensino (e a educação).
Desde criança ouço um ditado que diz que a agressão é a arma dos ignorantes. Quando os argumentos terminam, começa a agressão. Podemos acrescentar ainda, quando a ética e a administração eficaz terminam, começa a corrupção, o engano, a mentira, a falcatrua, a omissão da verdade, a inversão de valores e o autoritarismo = DITADURA.
 

O argumento é a arma dos cultos. Cultura e conhecimento não são adquiridos somente na escola. Honestidade, ética e vergonha na cara se aprende em casa com a família e na sociedade, com as instituições organizadas. Mas a alfabetização e o conhecimento científico isento de ideologias são essencialmente aprendidos na escola. É preciso ter cultura para ler as entrelinhas de textos que no Brasil, inclusive as leis e livros didáticos são carregados de ideologias.    
Por isso, a educação básica, a convivência familiar e social são a base da formação de todo cidadão. Mais do que parecer honesto, é preciso ser honesto. Não basta dizer que sabe a diferença entre o certo e o errado, e continuar fazendo o errado, mesmo quando todos já viram e ouviram você falando e fazendo o errado.
 
Não basta aprender a ligar letras formando palavras, nem a colocar uma palavra seguida da outra, é preciso ler o significado da junção de palavras e dos pensamentos que estão intrínsecos nesta composição. Afinal, a palavra é 50% de quem fala e 50% de quem escuta. Depois de sair de sua boca, a palavra não é mais sua.
 
Há um outro ditado que diz: para bom entendedor, meia palavra basta. Mas como saber escolher essa meia palavra para que ela seja o bastante e leve ao entendimento? De bem intencionados o inferno (e a cadeia) está cheio. As boas intenções não se concretizam. As ações é que contam.
 
Finalizada a fase inicial de formação, a educação básica, a leitura, a busca individual pelo conhecimento, a vida em sociedade são o maior dos professores. Mesmo enquanto na escola, aprende-se a conhecer e analisar o mundo, os fatos e a política com o professor, sem o professor e apesar do professor.
 
Afinal, ninguém lê o mundo a partir do olhar de outro. Nossa leitura de mundo é a partir do próprio ponto de vista e não poderia ser diferente. Até mesmo os professores construíram sua visão de mundo a partir de sua experiência de vida.
Por esta razão, só tem argumentos quem tem conhecimento, quem aprendeu a analisar os fatos independentemente de teses conspiratórias e sem recorrer a filósofos que criaram discursos e teses sobre a sociedade européia de séculos atrás.
 
Analisaram uma sociedade do período em que a informação chegava lentamente e sempre com o filtro dos DONOS do poder da época. Ler, escrever era a arma de pouquíssimos, mesmo na Europa. Então escrevia-se para seus pares e a leitura e escrita eram as armas de guerra.
 
A deturpação da realidade e o discurso de perseguição eram armas poderosas daqueles detentores do poder. Ditadores, em sua quase totalidade, detinham e manipulavam as informações e construíam os fatos.
 
Posando de perseguidos e injustiçados criavam a falsa iminência de um ataque de rebeldes. Os donos de feudos faziam isso como ninguém. Acuados, os “protegidos do rei” faziam a aceitavam tudo: os opositores eram julgados, condenados e mortos diante da população. Esta é a principal maneira de intimidar quem tivesse a ousadia de questionar a informação contraditória ou a ordem injusta.
 
Mas hoje, com a internet, as redes sociais, os satélites de comunicação e a imprensa utilizando a tecnologia para levar a informação à população em tempo real, a informação deixa de ser privilégio privado dos poderosos e passa a ser a principal arma da sociedade para se proteger dos (des) governantes.
 
Os mesmos (des) governantes que, via de regra, acostumados a se safarem de qualquer ataque por meio de articulações com seus pares e aliados políticos, julgam-se e se colocam acima de toda e qualquer lei. E vão mais longe, assim como os donos de feudos e reinos, criam as próprias leis, interpretando a palavra escrita como melhor lhe convier.
 
Desde o final da década de 90, quando o Brasil conseguiu universalizar o ensino fundamental, a educação básica tem sido capaz de dotar de conhecimento do que é certo e errado a uma parcela cada vez maior da população.
 
A liberdade de imprensa, os telefones celulares e suas aplicações, as redes sociais e a conexão em tempo real das pessoas com os meios de comunicação de massa dotaram a população, mesmo a com baixa escolaridade, de poder para divulgar, fiscalizar e analisar fatos por conta própria.
 
Assim, quando se dirige à população ou quer manter a dominação sobre ela, os “poderosos” precisam melhorar seus argumentos e perderam, em larga escala, a capacidade de construir os fatos a seu bel prazer, com discurso persecutório. Hoje, diante de uma câmara, qualquer pessoa minimamente informada pode produzir um fato, ou uma celebridade em minutos.
 
O discurso persecutório usado pelos detentores do poder desde o período dos feudos e na atualidade, tanto pelos petistas, quanto pelos terroristas do estado islâmico, já não convence a população minimamente informada.
 
Enquanto tentam “plantar na cabeça das pessoas’ aquilo que o beneficiaria para manter-se no poder, os que se julgam “donos do Brasil”, afundam-se cada vez mais no fato que criaram. As coisas não mudaram muito. No passado, a ordem hierárquica era imposta na população pela força da chibata, ou pela força oculta da religião e do discurso do protecionismo necessário.
 
Atualmente o acesso à informação foi democratizado. Ou seja, um número muito grande de pessoas têm acesso à informação e podem desconstruir tais castelos e discursos pseudo democráticos.
 
No Brasil, desde a vinda da família real portuguesa, vivemos uma dicotomia entre educação (ou ensino) de qualidade ou para toda a população. Como se toda a população não fosse merecedora de ensino de boa qualidade. Vivemos também a dicotomia entre o público e privado.
 
A confusão entre governo e país está tão institucionalizada que a população chega a confundir governo com pátria. Ao invés de ter vergonha de ter tal e qual governante, tem-se vergonha de ser brasileiro.
 
O Brasil de 2016 vive uma dicotomia entre o público e o privado. O dinheiro público é usado pelos governantes corruptos como se fosse pessoal. E o dinheiro privado financia a campanha eleitoral, para o setor público.
 
A Inglaterra tem um dos dez melhores sistemas educacionais do mundo. Lá os prédios privados abrigam escolas públicas subsidiadas com o dinheiro público. Os professores e a comunidade administram a verba, seguem o currículo básico e são sistematicamente auditados e avaliados pelo governo local. E funciona muito bem. O ensino é de qualidade e para todos, sem ideologização dos conhecimentos.
 
O Brasil gasta pouco e, pior, gasta mal em educação, já que alta porcentagem da verba destinada à educação é consumida só na burocracia. Fato indicador de que o problema mais sério talvez seja o de gestão das verbas. E já é sabido, a burocracia é um a bola de neve, que quanto maior, mais facilidade e o crescimento da corrupção.
 
Assim segue, entram ministros, saem ministros da educação e tudo continua mais ou menos da mesma forma. Muda-se o nome, muda-se os planos, ideias e estratégias de vários dos mais ilustres pensadores, mas o ensino no Brasil continua o mesmo.
 
Todos estamos em busca de soluções estruturais para esse problema crônico. No seu conjunto, a situação continua crítica da creche ao doutorado a ideologização do ensino e até da aplicação das verbas transparece nas ações do dia a dia. 
 
Não sabemos a quem atribuir a responsabilidade por este estado de coisas. Mas seguramente os professores também tem sua parcela nesta situação. Ou por ter se deixado levar pela corrente política dominante e deixado de ensinar conteúdos necessários ao desenvolvimento do aluno, ou por ter se omitido de pensar e mudar a situação em sua sala de aula.
 
Não se pode jogar sobre o professor esta responsabilidade, talvez não seja justo, moral e nem ético criticar os docentes, mesmo os incompetentes.
 
Mas talvez seja, porque afinal, o professor é um elo muito importante, mas é apenas um, na corrente que representa o processo educacional brasileiro. O melhor professor do mundo nada conseguirá se as condições do conjunto não são adequadas e favoráveis. Acredito que o inverso também é verdadeiro.
 
Apesar de tudo, e de todos, acreditar que o ensino de qualidade pode melhorar os brasileiros e, claro, a sociedade brasileira é essencial para continuarmos lutando. O que não podemos é tratar a escola pública como se fosse a escola para manter um grupo no poder e o outro fora de tudo.
 
É urgente ensinar os brasileiros da mais tenra idade ao idoso que o país é nosso e que todos temos direito a vacinas, atendimento de saúde, comida, saneamento básico, segurança de vida e de direitos políticos, liberdade de pensamento, de vestimenta, de religião, de passear, de ler e de entender o que estamos lendo e fazendo.
 
E seguramente somente a escola poderá fazer isso. Alfabetizar-se é essencial. O alfabetizado sabe ler, escrever, usar a tecnologia em defesa de seus direitos e até mesmo da própria integridade física, moral e política. É preciso saber mais do que ouvir um professor e responder a questões prontas ou previamente passadas.
 
Os professores tem a responsabilidade de ensinar os brasileiros a ler o caráter da pessoas que se pretendem públicas e a calcular os efeitos de colocar este ou aquele político no comando de nossa nação. As escolas precisam cumprir seu papel de ensinar a distinguir o certo do errado nas páginas das redes sociais, nos meios de comunicação e no discurso de seus governantes.
 
Afinal, ninguém colhe o que não plantar. Quem semeia arroz, colhe alimento. Mas quem deixa a terra abandonada, colhe erva daninha. Precisamos plantar cidadania senão continuaremos a colher conformismo e corrupção. Jamais formaremos estadistas se não plantarmos um Estado Brasileiro. Somente assim conseguiremos acabar com a crise crônica de ética, patriotismo, honestidade e democracia em que o país está mergulhado. 

Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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