O que certo? (JE293) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Fernando Bastos   
22-Mar-2016


Antes Immanuel Kant (1724 - 1804), o Ocidente vivia a tica grega e judaico-crist; agora, andamos sob os valores ticos e morais ensinados pela Igreja crist e por Kant.
Seu princpio categrico, em Fundamentao da Metafsica dos Costumes (1785) : Age apenas segundo aquela mxima que possas ao mesmo tempo desejar que se torne lei universal. Mas, se o desejo de um homem tornar lei universal a prostituio de crianas, ou bater nos filhos com vara, ou ouvir heavy metal no ltimo volume no apartamento do prdio, o que Kant diria? Na mesma obra, ele traz um complemento para a regra anterior:
Age de tal forma que trates a humanidade, na tua pessoa ou na pessoa de outrem, sempre como um fim e nunca apenas como um meio. Isso significa que no podemos usar o outro para obter vantagens ou realizar nossos desejos, mesmo que os consideremos os mais nobres, como por exemplo, pedir a um amigo que lhe empreste dinheiro para pagar a cirurgia que ir salvar a vida do filho da vizinha, jurando que vai devolver o dinheiro em breve, mesmo sabendo que no ter condies de faz-lo, pois ganha pouco ou est desempregado.
Segundo Kant, dever de cada um agir de forma a promover o bem-estar de todas as pessoas, respeit-las em seus direitos, no causar-lhes nenhum tipo de dano fsico ou psicolgico, jamais mentir e, empenhar-nos, tanto quanto possvel, em promover a realizao dos fins dos outros.
O filsofo e escritor James Rachel nos trouxe mais subsdios para sabermos distinguir o bem do mal. No livro Elementos de Filosofia Moral ele diz que Os juzos morais requerem o apoio de razes, sendo, na ausncia dessas razes, meramente arbitrrios.
Se fulano diz: seguir o candombl errado (o exemplo meu), tem que ter uma razo para ser contra. Ele pode dizer que Deus disse. Mas, ele pode provar? Ele vai dizer que est na Bblia e uma ordem dada por Deus: Qualquer homem ou mulher que evocar os espritos ou fizer adivinhaes, ser morto. Sero apedrejados, e levaro sua culpa. De fato, est na Bblia e ela afirma que foi Deus quem deu a lei. Podemos ver at um leve sorriso de vitria nesse nosso amigo. Se a Bblia for de fato a Palavra de Deus, temos que forosamente acreditar que seguidores de religies que invocam espritos devem ser alertados que esto em pecado, de modo que aquele homem que apedrejou uma menina de onze anos no Rio de Janeiro quando ela saa de um culto apenas cumpria uma ordem divina e no pode ser acusado de ter cometido nenhum delito.
Mas, talvez nem tudo que est nas Escrituras foi recomendado por Deus; pode ser que os telogos piedosos estejam certos ao dizer que muitas leis faziam parte da cultura do povo e no foram inspiradas do cu, inclusive esta que autoriza a morte de quem fala com espritos ou faz adivinhaes.
Se me permitem, irei um pouco mais longe: talvez os historiadores e estudiosos mais competentes do planeta estejam certos ao nos explicarem que os antigos governantes e sacerdotes, mesmo antes da Bblia, sempre que queriam impor uma lei, diziam que o autor era um deus. Por que esses legisladores anunciavam que a autoria de suas leis tinha a assinatura de um deus? Dava mais credibilidade. Os autores da Bblia teriam usado a mesma tcnica.
De acordo com Rachel, temos que ter boas razes para julgar algo certo ou errado; do contrrio, estaremos sendo arbitrrios e injustos. Assim, da prxima vez que algum dizer que so errados o divrcio, o sexo para solteiros, a homossexualidade, a masturbao, o uso de camisinha e comprimidos anticoncepcionais, a eutansia; que indecente para uma mulher usar saia acima do joelho ou amamentar o filho em pblico; e que ateus so imorais e desonestos, justificando estas declaraes com base na Bblia, voc pode concordar com ele ou alert-lo para o perigo de fundamentar seus juzos morais num livro que hoje a maioria dos estudiosos e filsofos sabe que foi escrito por sacerdotes, sem nenhuma ajuda sobrenatural, segundo seus interesses e mentalidade da poca.


Fernando Bastos
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