O que é certo? (JE293) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Fernando Bastos   
21-Mar-2016


Antes Immanuel Kant (1724 - 1804), o Ocidente vivia a ética grega e judaico-cristã; agora, andamos sob os valores éticos e morais ensinados pela Igreja cristã e por Kant.
Seu princípio categórico, em Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785) é: “Age apenas segundo aquela máxima que possas ao mesmo tempo desejar que se torne lei universal.” Mas, se o desejo de um homem é tornar lei universal a prostituição de crianças, ou bater nos filhos com vara, ou ouvir heavy metal no último volume no apartamento do prédio, o que Kant diria? Na mesma obra, ele traz um complemento para a regra anterior:
“Age de tal forma que trates a humanidade, na tua pessoa ou na pessoa de outrem, sempre como um fim e nunca apenas como um meio.” Isso significa que não podemos usar o outro para obter vantagens ou realizar nossos desejos, mesmo que os consideremos os mais nobres, como por exemplo, pedir a um amigo que lhe empreste dinheiro para pagar a cirurgia que irá salvar a vida do filho da vizinha, jurando que vai devolver o dinheiro em breve, mesmo sabendo que não terá condições de fazê-lo, pois ganha pouco ou está desempregado. 
Segundo Kant, é dever de cada um agir de forma a promover o bem-estar de todas as pessoas, respeitá-las em seus direitos, não causar-lhes nenhum tipo de dano físico ou psicológico, jamais mentir e, “empenhar-nos, tanto quanto possível, em promover a realização dos fins dos outros”.
O filósofo e escritor James Rachel nos trouxe mais subsídios para sabermos distinguir o bem do mal. No livro “Elementos de Filosofia Moral” ele diz que “Os juízos morais requerem o apoio de razões, sendo, na ausência dessas razões, meramente arbitrários.” 
Se fulano diz: “seguir o candomblé é errado” (o exemplo é meu), tem que ter uma razão para ser contra. Ele pode dizer que Deus disse. Mas, ele pode provar? Ele vai dizer que está na Bíblia e é uma ordem dada por Deus: “Qualquer homem ou mulher que evocar os espíritos ou fizer adivinhações, será morto. Serão apedrejados, e levarão sua culpa”. De fato, está na Bíblia e ela afirma que foi Deus quem deu a lei. Podemos ver até um leve sorriso de vitória nesse nosso amigo. Se a Bíblia for de fato a Palavra de Deus, temos que forçosamente acreditar que seguidores de religiões que invocam espíritos devem ser alertados que estão em pecado, de modo que aquele homem que apedrejou uma menina de onze anos no Rio de Janeiro quando ela saía de um culto apenas cumpria uma ordem divina e não pode ser acusado de ter cometido nenhum delito. 
Mas, talvez nem tudo que está nas Escrituras foi recomendado por Deus; pode ser que os teólogos piedosos estejam certos ao dizer que muitas leis faziam parte da cultura do povo e não foram inspiradas do céu, inclusive esta que autoriza a morte de quem fala com espíritos ou faz adivinhações.
Se me permitem, irei um pouco mais longe: talvez os historiadores e estudiosos mais competentes do planeta estejam certos ao nos explicarem que os antigos governantes e sacerdotes, mesmo antes da Bíblia, sempre que queriam impor uma lei, diziam que o autor era um deus. Por que esses legisladores anunciavam que a autoria de suas leis tinha a assinatura de um deus? Dava mais credibilidade. Os autores da Bíblia teriam usado a mesma técnica. 
De acordo com Rachel, temos que ter boas razões para julgar algo certo ou errado; do contrário, estaremos sendo arbitrários e injustos. Assim, da próxima vez que alguém dizer que são errados o divórcio, o sexo para solteiros, a homossexualidade, a masturbação, o uso de camisinha e comprimidos anticoncepcionais, a eutanásia; que é indecente para uma mulher usar saia acima do joelho ou amamentar o filho em público; e que ateus são imorais e desonestos, justificando estas declarações com base na Bíblia, você pode concordar com ele ou alertá-lo para o perigo de fundamentar seus juízos morais num livro que hoje a maioria dos estudiosos e filósofos sabe que foi escrito por sacerdotes, sem nenhuma ajuda sobrenatural, segundo seus interesses e mentalidade da época. 


Fernando Bastos
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