A moral nossa de cada dia (JE292) PDF Imprimir E-mail
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Dogmas ou Heresias?
Escrito por Fernando Bastos   
22-Fev-2016


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Na coluna discute a influência da religião em nosso cotidiano.
 
A religião tem sido o principal guia de valores éticos e morais desde que surgiu no seio das primeiras hordas humanas. Os teólogos costumam dizer que os sentimentos do que é certo ou errado que todos possuímos, já nascem com as pessoas e se encontram até mesmo nos selvagens.
 
Segundo eles, o fato de que matar, roubar e mentir são atitudes consideradas erradas universalmente, e honrar os pais e fazer o bem ao próximo, são aceitas como coisas boas em todos os lugares, prova que alguém colocou uma lei moral dentro de nós, e esse alguém é Deus. 
Os críticos discordam. Dizem que nossos ancestrais, os primeiros hominídeos a ter consciência da própria existência, foram aprendendo empiricamente, através de um longo processo de evolução, que certos comportamentos deviam ser mantidos e outros abandonados, não por questões éticas e morais, mas pela simples necessidade de sobrevivência. 
Por exemplo, o assassinato foi percebido bem cedo entre as hordas primitivas que não era bom, pois significava dois braços a menos para caçar, ajudar na criação das crianças, e a defender o clã de grupos rivais. 
Matar, só em caso de necessidade: crianças nascidas com algum defeito físico significavam problemas para o bando, por isso eram rapidamente mortas ou jogadas às feras. Meninas virgens eram sacrificadas aos deuses para aplacar a fúria dos céus e obter favores. Membros de tribos inimigas eram mortos em batalhas. Se fossem capturados, eram executados em rituais de magia ou oferecidos em holocausto às divindades. 
O entendimento do que é certo e errado pode variar conforme a época, o lugar, valores humanos e o nível cultural de cada pessoa. 
Sabemos, por exemplo, que a maioria condena a escravidão. Mas ela foi aceita no passado por praticamente todas as culturas.  
O incesto é reprovado pela maioria das pessoas. No entanto, no Egito antigo chegou a ser comum uniões consanguíneas. O povo não via nada de errado, pois até os deuses que cultuavam casavam com suas filhas e irmãs. 
Provavelmente, o alto número de bebês natimortos e nascidos com problemas físicos desestimulou as uniões conjugais dentro da mesma família.

Depende do lugar

Se você é ocidental, especialmente se for mulher, vai achar que a poligamia é errada (a não ser que mulher também tenha direito de levar para a cama mais de um marido). 
Mas segundo os antropólogos, a poligamia é praticada e aceita em mais da metade das sociedades pesquisadas. G.P. Murdoch “descobriu que, de 238 sociedades humanas diferentes em todo o mundo, a monogamia era imposta como o único sistema de casamento aceitável em meros 43. 
Assim, antes de fazer contato com o Ocidente, uma média de mais de 80% das sociedades humanas eram preferencialmente polígamas...” (O mito da monogamia - David Barash e Judith Eve Lipton). 
Em alguns lugares do mundo, existe a tradição do marido ceder a esposa ao visitante. Aqui no Brasil, por exemplo, isso é vergonhoso e o homem que “emprestar” a mulher fica com má reputação. 
Alguns povos do planeta praticam a zoofilia e, contanto que seja com uma fêmea, não será considerado errado. Até algum tempo atrás os sacerdotes hindus usavam langures – macacos sagrados – para copular com mulheres que pagavam pelos serviços sexuais dos animais. 
Os religiosos garantiam que tais relações as deixariam mais férteis, além de lhes trazer outras dádivas divinas.  Aqui no Ocidente, abusar sexualmente de animais é crime. 
Casais de namorados na Europa ou nas Américas podem andar de mãos dadas em público sem nenhuma preocupação. Mas não tente fazer isso em alguns países africanos. Lá, são os homens que podem andar de mãos dadas; casais, mesmo casados, correm o risco de ser apedrejados ou presos.
A questão do certo ou errado ainda pode estar atrelada à natureza humana, à capacidade de alguém em sentir empatia pelo outro, de se compadecer pela dor alheia, seja por uma pessoa ou animal. 
Muitas pessoas saem da igreja aos domingos e vão alegremente assistir a rodeios, touradas, rinhas de galo e farras do boi, e pensam que não estão fazendo nada de ilícito, e nem mesmo chegam a sentir algum remorso com os maus tratos aplicados aos bichos. 
Já outras, que costumamos chamar de sensíveis ao sofrimento do próximo, condenam qualquer tipo de violência contra animais. 
Creio que você também está percebendo como é difícil saber o que é certo ou errado, já que os conceitos humanos de bom e mau são determinados por uma série de fatores, como acabamos de ver.
 
 
Fernando Bastos é escritor, ilustrador e artista plástico. Publicou dois livros: “Teofania” e “Crimes em nome de Deus”. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email e Facebook: https://www.facebook.com/fernandocesar.bastos 
 
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