Impeachment ou pizza em forno a lenha? (JE292) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes   
23-Fev-2016


Neste início de ano de eleições municipais, os programas jornalísticos praticamente  pararam de noticiar as ações sobre a disputa entre a presidenta Dilma e o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, para saber qual perderá, e se perderá, o mandato antes. 

Sem a avalanche de informações, os brasileiros pudemos avaliar a importância desta disputa e jogo de força política no centro do poder do país. O espaço deixado pelo noticiário político foi logo ocupado pelo econômico. 
A crise econômica tornou-se evidente. Saúde e educação, ao contrário do que o governo anunciou, foram as pastas que tiveram maior redução de verbas. 
Desde o primeiro anúncio de corte no orçamento, em momento algum foi considerado, pelo governo Dilma, reduzir gastos com a inchada e aparelhada máquina governamental. 
Os cortes foram feitos em programas cruciais para o Brasil na área da educação e saúde. Grande parte das crianças que deveriam ser benecifiadas com o tal Brasil Carinhoso, estão até mesmo sem o mais básico dos cuidados, falta vacina em todo o país. 
Os jovens, dispostos a estudar e fazer ciência são prejudicados com o fim ou redução drástica das verbas de programas como ProUni, Ciências sem Fronteiras, Pronatec, entre outros. 
Até mesmo o PIBID- programa que incentiva os estudantes de licenciaturas a seguir a carreira de professor, está em vias de acabar. Isto porque o Brasil é a Pátria Educadora.
Na economia, os números do desemprego, queda das exportações e da arrecadação governamental, a disparada dos preços dos serviços públicos e dos impostos e a desvaloração do Real frente ao Dolar, dão uma ideia da dimensão do abismo em que o país foi jogado.   
A dilapidação do patrimônio pela corrupção e a gestão fraudulenta da maior empresa estatal brasileira, a Petrobrás, gerou um efeito dominó nunca antes visto nesse país. 
A quebra de contrato com as empresas terceirizadas provocou milhares de demissões e o fechamento de centenas de pequenas e médias empresas em todo o país. 
Os trabalhadores que investiram seu FGTS em ações da empresa, hoje têm menos – nominalmente – do que tinham há 15 anos. 
E ainda não acabou. O dinheiro que deveria ter sido usado para pagar as pequenas empreiteiras e investimentos, como o pré sal, foi desviado para pagar campanhas políticas do PT e aliados, além de alimentar a voracidade de meia dúzia de políticos e empresários adeptos do ditado popular mais brasileiro de que se tem notícia: Quero tirar vantagem em tudo.    
Assim, começamos o ano com desemprego recorde e aeroportos lotados de brasileiros com alto nível de escolaridade deixando o país para morar no exterior. Nas malas, a vergonha de ser brasileiro, muita indignação, sensação de impotência e a necessidade de se afastar para avaliar melhor o papel do cidadão brasileiro.   
A crise política provocada pela maior investigação contra a corrupção, já deflagrada no Brasil, a operação Lava Jato, remeteu-me à minha juventude.  
Em época de eleições, minha mãe, que completa 80 anos neste mês de março, ao ser questionada sobre qual seria seu candidado, era enfática em anunciar que não votaria em nenhum . Ela sempre justificava: “porque nenhum deles colocava comida na sua mesa”. 
Minha resposta, na tentativa de persuadi-la, era que os políticos não colocam comida em nossa mesa, mas que tiram,  tiram!!!
Em suas dificuldades diárias, da vida de empregada doméstica e cozinheira de restaurante, com dupla e até tripla jornada de trabalho, minha mãe, que diferentemente de meu pai que participava ativamente das campanhas políticas, se pudesse passaria ao largo das eleições. 
Quando completou 75 anos e conquistou o direito de não  votar, ninguém mais a viu em sessões eleitorais. Assim como minha mãe, milhares de mulheres,  homens e jovens jamais iriam às seções eleitorais se não fossem obrigados e, muitos pensam como mamãe: “nenhum político coloca comida em nossas mesas”. 
Mas... volto a afirmar, que tira, tira!!! Tira por meio de serviços públicos de péssima qualidade que nos obrigam a reservar parte do salário para atendimento simples de saúde e para pagar mensalidades de escolas privadas. 
Tiram nossa comida por meio dos impostos embutidos em todos os produtos. Somos o segundo maior pagador de impostos do mundo. Em média 40% do valor pago por qualquer produto. 
Tiram da nossa mesa e desviam. Roubam dinheiro da merenda escolar,  da compra de medicamentos, das rodovias, do SUS, das bolsas de estudos. 
Tiram da nossa mesa pagando aposentadorias vergonhosas, (R$ 880,00) à pessoas que trabalharam desde os 12, 13, 14 anos de idade, contribuindo por mais de 40 anos para a previdência. Quem consegue viver com este valor por mês? 
Tiram e enviam para suas contas particulares, para contas no exterior, para suas campanhas políticas, pois assim vão se manter nos cargos e no centro do poder. 
E... manter funcionando a roda da própria fortuna. “Quero que o povo se exploda”, bem dizia o deputado personagem de Chico Anísio.     
As investigações  da Java Jato, estão contribuindo para tirar a máscara de “bons meninos”, tanto dos políticos (e seus indicados para chefia), quanto dos próprios altos funcionários que, no mínimo foram omissos. 
Eles poderiam ter denunciado todas essas manobras antes, mas não o fizeram. Optaram por “garantir a própria  vantagem em tudo que o emprego lhes dá. A certeza da impunidade motivou ambos a manterem o círculo vicioso da corrupção na petroleira. 
Assim como a comida, em forma de desemprego, que foi tirada da mesa de mais de 30% de brasileiros nos últimos meses, também a possibilidade de estudar, as vacinas para evitar doenças, os remédios para tratar doenças crônicas e até tratamento para doenças graves como o câncer, foram tirados dos brasileiros. 
O governo continua garantindo que está tudo bem, que a Pátria é educadora. E que são os fornecedores(empresas) que não entregam os medicamentos ou fizeram doações espontâneas para suas campanhas. 
Mas os hospitais que atendem pelo SUS estão fechando as portas porque estão desde novembro sem receber um centavo de verba federal. Os postos de saúde estão há mais de seis meses sem receber vacinas e as prateleiras de remédios dos centros de distribuição e hospitais públicos, estão vazias. 
Os jovens conseguem sequer financiamento do FIES (que pagarão após a formatura). Bolsa de estudos, dinheiro para pesquisas, para os hospitais universitários, etc, tudo “desapareceu”....
Os estudantes de licenciatura, futuros professores da educação básica participam de movimento nacional desde o ano passado e fizeram manifestos em todo o país em fevereiro. 
“Está tudo bem”, diz o ministro da educação. 
Por mais que a imprensa noticie e peça providências, ninguém se responsabiliza. O forno a lenha já está esquentando. Depois do carnaval, com o retorno dos serviços no Congresso Nacional, recomeçou a linha de montagem da fábrica de pizza. 
Nas cidades em que será implantado o voto eletrônico, os eleitores tem somente até março para fazer o recadastramento, houve panelaço durante o programa do PT quando o ex-presidente discursou, a operação lava-jato chega mais perto dos principais mandatários e ex-governantes do país. 
Os movimentos pró impeachment estão chamando a população às ruas no dia 13 de março. 
Acuados pela sociedade e sob o manto protetor dos partidos políticos (mesmo que disfarçados) Dilma e Cunha continuam articulando um a saída do outro.
Enquanto isso, a crise política e econômica se agrava, o Brasil já perdeu o status de país bom pagador e seguro para se investir, a Argentina está saindo do buraco e os brasileiros continuam perplexos diante do forno a lenha que vai assar a pizza, ou será  o impeachment? 

Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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