O PESADELO DE REPROVAO (JE291) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Gilmar de Oliveira   
16-Dez-2015


Chegamos a mais um final de ano letivo. A, entra a questo-chave: os professores revoltados com alunos sem compromisso, desinteressados, indisciplinados e sem o preparo esperado e, ainda assim, obrigados a aprov-los. As Secretarias de Educao precisam de grandes nmeros de aprovados, porque isso melhora os indicadores de qualidade na Educao, o que resulta em mais verbas, mais propaganda poltica, mas quase nunca melhora a aprendizagem, acabam por pressionar diretores que, por sua vez, pressionam professores. Os professores, infelizmente, quando se deparam com as situaes de no-aprendizagem e de desinteresse dos alunos, acabam confundindo reprovao com vingana, com punio. Terrvel engano. Prejuzo ao pas, escola, ao aluno e ao professor.
No Nordeste, percebo que, nas cidades de vrios estados que visito, no h presso poltica por aprovao (nem diretrizes educacionais definidas) e os ndices de reprovao so altssimos! Curiosamente, dos alunos que atendi e outros que conversei, os que mais reprovaram so os que menos importncia do Educao, tal e qual no Sul. Os reprovados no mudam para uma postura de interesse. Ao contrrio: desanimam ainda mais, prejudicando um futuro, a auto-estima, a segurana.
Por outro lado, reprovar os alunos irresponsveis acima citados no melhora a qualidade da Educao. Ao contrrio: alunos com distoro idade-srie se evadem, so os mais indisciplinados, continuam com baixo desempenho e, ao longo dos nove anos do Ensino Fundamental, reprovam mais de duas vezes, fazendo-os sair dessa etapa com 17 anos ou mais, idade que deveriam terminar o Ensino Mdio, entrar na faculdade. um prejuzo enorme ao pas.
Reprovar aluno bagunceiro um tiro no p, pois ele fica ainda pior no ano seguinte e voc vai lidar com ele por mais anos. Transferir de escola outra situao fora de questo, atualmente, pois o prprio Conselho Tutelar ou o Ministrio Pblico podem devolver o aluno escola. Basta a me dar queixa, se o aluno menor de 18 anos, a vaga do aluno plenamente resguardada e ele volta rindo.
Mesmo com todas as anotaes de ocorrncia, mesmo com toda a documentao da escola provando que determinados alunos tem condutas anti-sociais e at cometem crimes (ops, desculpe, se menor no crime, ato infracional...) precisam ficar na escola. Mas como lidar? E a capacitao?
Claro que a maioria dos casos de alunos com risco social ou transtornos emocionais somados ao desequilbrio familiar e a escola no d conta de lidar. No Sul, raras as escolas possuem psiclogos escolares e assistentes sociais. Mas, aqui no Nordeste, muitas cidades, como Joo Pessoa, na qual sou psiclogo educacional da Rede Municipal, temos equipes completas e pouca coisa muda. No basta ter psiclogos e no ter instrumentos de trabalho, como testes e exames; no basta ter assistentes sociais e nenhuma estrutura de visitas, convnios, rgos de apoio. Sem base, nada de bom trabalho.
O certo que reprovar alunos com baixa aprendizagem e com grande indisciplina mais nocivo que aprov-los. Alunos com baixa aprendizagem tm alguma alterao cognitiva que no foi diagnosticada. Quando no algo inibindo o raciocnio, a ateno, a memria, alguma defasagem sensorial (viso, audio) ou situao social, familiar ou estrutural, quando no todas juntas. Qual o diagnstico? Quando h, a lei os protege e no podem reprovar (o que certo); mas a maioria no possui diagnstico, nem acompanhamento diferenciado, nem avaliaes que diminuam o efeito do dficit de aprendizagem que o aluno traz.
Ento, qual a utilidade da reprovao? Em muitos casos, a ampla maioria, alunos imaturos aos seis anos evoluem bem quando colocados a continuar o ciclo inicial (no repetir, pois no o fizeram uma vez, mas continuar o processo). Mas o PNE e seus pseudo-especialistas no permitem a reprovao antes do terceiro ano. A reprovao deveria acabar. O acompanhamento constante, o diagnstico nas escolas, as intervenes de pedagogos, psiclogos, assistentes sociais e demais profissionais num trabalho contnuo, em salas menores, reduziria o dficit de aprendizagem. Quanto aos insolentes e indisciplinados, estes s existem porque se ignora o regimento da escola, os professores acabam sem o devido treinamento para manterem o encanto e o domnio de turma, mesmo se for preciso se impor. Enquanto a utopia no se realiza, no o aluno quem deve pagar pelas falhas do processo.

Gilmar De Oliveira
Sobre este autor:
Psiclogo clnico e institucional; especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educao e Cultura. CRP 12/01950. Endereo eletrnico: Este endereo de e-mail est protegido contra spam bots, pelo que o Javascript ter de estar activado para poder visualizar o endereo de email
 
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