Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei ..(JE 291) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes - Editora   
16-Dez-2015


Vou-me embora pra Pasárgada   
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
  Na cama que escolherei .....
                                                     
A poesia de Manoel Bandeira representa o pensamento de milhões de brasileiros diante dos acontecimentos deste ano de 2015. Os cidadãos estão atônitos com tanta corrupção, tanto desmando e até mesmo com a volta da cédula de papel nas eleições. 
Na mesma semana em que o mundo assinava acordo para reduzir o aquecimento global, os parlamentares votavam pelo retorno dos cortes de árvores e utilização de milhares de litros de água para a produção das tais cédulas. 
O mundo está com medo dos fanáticos do Estado Islâmico e os brasileiros querem se tornar “amigos do rei” para , de alguma forma, usufruir de um pouco do próprio dinheiro que sumiu das empresas e cofres públicos e foi para o bolso de alguém, que não é o cidadão comum.  
Na primeira semana de dezembro, o presidente da Câmara dos deputados, Eduardo Cunha, acusado de corrupção e comportamento antiético, deu início a um processo de impedimento contra a presidente Dilma Rousseff, sob acusação de improbidade administrativa. 
Para julgar o processo, além de Cunha, o presidente do Senado, Renan Calheiros, também acusado de corrupção. Os processos contra esses e dezenas de outros políticos correm no judiciário que têm fórum privilegiado, já que eles são “amigos do rei”. 
 A maioria  dos brasileiros sequer tem noção do quanto a corrupção e o desgoverno ROUBAM a comida de suas mesas e sua saúde física, mental e intelectual. 
O dinheiro desviado pelos pseudogovernantes, pago pelas empresas aos funcionários públicos corruptos e políticos para  “ganhar licitações” de obras públicas, é assalto a mão armada. 
As armas são letais: as canetas e a força política do cargo. E pior, na maioria dos casos, somos nós brasileiros, que colocamos as armas e o poder nas mãos dos assaltantes por meio do voto. 
As manobras para chegar a este estado de coisas, começam nas escolas. O ensino de baixa qualidade, desde a alfabetização até o fim do ensino básico e a lavagem cerebral intelectual feita nas universidades, resultou em gerações de analfabetos funcionais. 
A cultura de levar vantagem e a falta do sentimento de coletividade é cada vez mais premente. Temos a cultura do vale tudo: quem pode mais, chora menor. 
Este estado de coisas deixa à mostra a força e o poder, que os professores e professoras que atuam nas salas de aula de todo o país, estão deixando escapar das próprias mãos. 
Sob a alegação de falta de estrutura ou apoio por parte da equipe diretiva das escolas e do governo, os profissionais se deixam vencer pela pressão política e ao invés de firmar pé e ensinar de verdade, formando legiões de cabeças pensantes e ricamente instruídas, deixam-se levar pela política do faz de conta que eu ensino e você aprende, reinante nas escolas de todo o país. 
O saber é uma arma poderosa. Não amamos o que não conhecemos e se não somos capazes de produzir o próprio sustento, seremos eternos cúmplices “do Rei” para então usufruirmos das benesses dessa amizade. 
Fazem tudo em nome do não ser o salvador do mundo e com receio de lançar mãos de estratégias para evitar o mal estar da reprovação. Mas se a professora e o professor nada fazem, e ficam driblando a falta de condições das estruturas de ensino, quem o fará? 
No centro do poder do país, ainda vivemos na ditadura, apesar de estarmos há mais de cinco décadas do chamado golpe militar. E, quase três décadas após a ‘redemocratização’ os brasileiros continuam a colocar no centro do poder, as lideranças que figuravam como protagonistas no período ditatorial: seja de direita, seja de esquerda. 
Os nomes continuam os mesmos e o comportamento, também. Cada um cuidando do próprio bolso e como dizia um personagem de Chico Anísio: “Quero que o povo se exploda”. Então, quem pode mais chora menos. E, é preciso ser amigo do rei (aliado ou do governo).
A corrupção foi institucionalizada. A individualidade e o tirar vantagem, também.  Um espera pelo outro. E ninguém faz coisa alguma para mudar esse estado de coisas. Grande parte dos brasileiros já está cansado desta situação. 
Nas escolas e universidades continuam os estudos sobre os mesmos pensadores. Predomina os estudos sobre a relação capital x trabalho; socialismo x capitalismo e ditadura x democracia, especialmente nas aulas de história, sociologia e filosofia. 
Não é fácil transportar esses velhos pensamentos para a sociedade atual. Um adolescente que já nasceu na época da internet terá muita dificuldade para entender as razões da luta do campo x cidade. 
Em tempos em que a internet já é realidade para a maioria da população, e pode transformar um anômino (mesmo que pobre) em celebridade seguida por milhares em minutos, falar da conspiração para tirar os judeus da Alemanha é, no mínimo, um exercício filosófico e sociológico complexo. 
Para entender como viver em uma sociedade com 60% de inflação ao mês é preciso viajar pelo mundo virtual. E como entender que as pessoas levavam um ano para ir de um para outro continente? 
Ou seja, as discussões estão centradas no passado, numa realidade que já faz parte da história e jamais poderia estar norteando as discussões nas escolas da atualidade. 
Vivemos a época em que as relações sociais e políticas são intermediadas pelas tecnologias on line e, portanto, as fronteiras e distâncias são virtualmente destruídas.     
Obviamente, o discurso reproduzido nas salas de aula, é parte de estratégias para manter no poder aqueles que dele se beneficiam. 
Sob a falsa afirmação de que o processo de  impeachment contra a presidente, seria golpe contra a democracia, seus defensores querem que a população acredite que o governo PT é o último bastião da pátria democrática. 
Mas será que um país em que o povo é obrigado a votar sob pena de perder até mesmo a oportunidade de ser funcionário público e ter uma aposentadoria integral, pode se dizer democrático? 
Um país em que os candidatos são “construídos e vendidos”  por marqueteiros como se mercadorias preciosas e extremamente necessárias pode se dizer democrático? 
Se o estatuto do consumidor valesse para as eleições, a maioria dos políticos seria processado por propaganda enganosa. Essa é a nossa democracia verde-amarela? E o vice, que assumirá o poder em caso de impeachment , não foi eleito igualmente na mesma eleição ‘democrática’ que elegeu a presidente?
Enquanto discutimos nossa democracia, acompanhamos  o mundo lutando contra o arrefecimento da ditadura religiosa proposta do Estado Islâmico. 
Assim, tão bem articulados, os ditadores e os pseudodemocratas conseguem iludir e confundir a população. 
A confusão entre sistema de governo (democrático ou ditatorial) e econômico (capitalismo x socialismo) é grande. 
Podemos concluir que, somos socialistas para distribuir o dinheiro que deveria ser do povo (pois é público) entre os detentores do poder e seus aliados. E, somos ditadores para impor os malefícios decorrentes desta apropriação indébita, à população em geral.
O brasileiro médio não consegue definir claramente o que seria exatamente uma democracia. Confunde regime democrático com voto direto (mesmo que obrigatório). E esta situação de coisas nos remete ao personagem de Chico Anísio e seu bordão: Quero que o povo se exploda”.  
Assim, chegamos ao final de 2015, com uma confusão generalizada tanto nos países em que reina a democracia (inclusive nas pseudodemocracias como o Brasil), quanto naqueles em que a ditadura predomina, como a Síria. 
Dependemos do mundo para nos manter. Com o índice de investimento rebaixado, o dólar batendo na casa dos R$4,00, a credibilidade em baixa, nosso parque industrial destruído e nossas propriedades agrícolas com produção insuficientes para produzir tudo o que precisamos até mesmo para comer, é preciso estudar novas estratégias de sobrevivência. 
Neste momento, a Pasárgada de Manoel Bandeira, se apresenta como o único destino viável  para as férias que se aproximam. 

Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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