Eu tenho vergonha de ser brasileiro (JE286) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes   
20-Mai-2015


A afirmação de um jovem caixa de supermercado em Joinville é o retrato do pensamento da quase totalidade dos brasileiros diante das manchetes jornalísticas diárias desde o final do ano passado. 
O rapaz, de cerca de 18 anos, expressou seu sentimento  diante de clientes que conversavam na fila, enquanto aguardavam para serem atendidos por ele. 
E complementou rapidamente, sem dar tempo para argumentos contrários, “Se eu pudesse, iria embora daqui. É muito roubo, muita corrupção. E em vez de parar de roubar, os caras que estão no poder, lá encima, dizem que roubaram porque os outros também já roubavam. 
Os politicos roubaram e continuam roubando. As pessoas roubam e querem tudo pra si. O governo não governa. É muita incompetencia. E muita hipocrisia, é muita corrupção. E o exemplo vem lá de cima”, disparou o rapaz enquanto passava as compras pela máquina registradora. 
A cliente logo contrapôs o rapaz:”mas não basta ter vergonha, o que você tem feito para melhorar nosso país? “Eu sozinho não posso melhorar nada disso. São eles que fazem as leis e eles estão lá no bem bom e nós aqui trabalhando no domingo, e ainda temos que pagar a conta da roubalheira. O Brasil não tem mais jeito. Os políticos me envergonham.
  Os caras que estão lá é que tem que parar de roubar e de enganar e mentir pra gente”, continuou atendendo e falando num tom suave e simpático. 
A resposta do garoto deixou perplexos os clientes que estavam próximos. É comum ouvirmos que o jovem não quer saber de nada, está alienado. E foi o estudante de terceiro ano do ensino médio, que demonstrou muita consciência de sua condição de cidadão brasileiro.  
Aquele brasileiro disparou sua fúria contra a sua Pátria Amada e expressou-se com tanta raiva e veemência, mas em tom suave e cordial, que  naquele momento conseguiu resumiu o pensamento da maioria quase absoluta da população brasileira. 
Os clientes dois professores, um pesquisado do setor de comunicação e um vendedor de produtos industriais, não conseguiram acrescentar nada à sua fala ou demovê-lo de sua vontade de deixar o Brasil.  
“Eu não posso fazer nada! Repetiu diversas vezes, enquanto trabalhava. Se eu pudesse iria embora desse país, mas eu tenho vergonha até de ir lá pra fora e ter que responder quando perguntarem, que sou brasileiro”. O sentimento de impotência, reina soberano entre os brasileiros. Independente da idade, da camada social ou do nível de escolaridade, os brasileiros sentem-se envergonhados de sua cidadania e impotentes. 
Já não acreditam na própria capacidade de mudar a situação do país, em uma solução vinda dos políticos  e menos ainda dos atuais governantes. 
Na contramão desse sentimento de impotência, está a prepotência dos políticos e do governo. A grande maioria se julga acima do poder e merecedor de todas as beneces que o dinheiro público possa lhes prover, independente de onde vier.  
Se é para fazer ajuste fiscal, que seja no salários dos desempregados ou dos aposentados e pensionistas. Se é para reduzir os gastos públicos, que seja  o do investimento em bolsas de estudos do Pronatec (ou até mesmo com o não pagamento das parcelas vencidas em 2014), do ProUni ou financiamento estudantil-FIES. Pode ser ainda na redução das verbas para pesquisas ou bolsas de pós graduação ou com o fim de programas de intercâmbio científico. 
As contas com a não compra e distribuição de vacinas, como a BCG que está em falta sistematicamente em todo o país, também reduzem as contas do governo. 
Mas o fundo partidário pode ser triplicado. Se for para recuperar o caixa da Petrobrás, que seja mantendo o preço dos combustíveis nas alturas, enquanto o barril de petróleo é vendido no exterior por valores cada vez mais baixos. Crise? É coisa que a imprensa está colocando está na cabeça dos brasileiros. Desemprego, bolso  vazio, dívidas aumentam na mesma proporção que a sensação de impotência e a vergonha dos brasileiros.  
O sentimento de impotência e a falta de luz no fim do túnel provoca uma espécie de depressão coletiva a ponto de, nem o governo e nem a oposição, conseguirem mobilizar a população para ir às ruas manifestar sua aprovação ou reprovação. 
As pessoas não querem mais sair de casa, preferem fazer panelaço de dentro do conforto do lar. As postagens nas redes sociais são feitas em sua maioria por profissionais de comunicação contratados exclusivamente para este fim. Idealismo? Esta em crise.  
O caixa do supermercado, os professores em greve em quase todo o país, os cidadãos que ocuparam às ruas ou fizeram panelaços, os vendedores, os funcionários da Petrobrás, enfim todos que não são políticos ou corruptos, tinham (e têm) em comum a mesma sensação de impotência e vergonha. Para os brasileiros conscientes da situação limite em que vive o país, a única solução, é deixar o Brasil...
Trata-se, infelizmente, da mesma sensação de impotência e a vergonha que reporta a mulher vítima de violência doméstica praticada pelo pai de seus filhos ou uma vítima de estupro que tem vergonha de denunciar seu agressor. De vítima, passa a sentir-se culpada. 
E assim como a mulher espancada pelo marido que prometou protegê-la,  se pudesse o abandonaria; o brasileiro, agredido em sua dignidade e desrespeitado política, intelectual e economicamente, sente-se impotente e dependente de um Estado pseudo protetor e paternalista. 

Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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