Está Tudo Errado! (JE285) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Gilmar de Oliveira   
24-Fev-2015


Iniciei uma nova jornada na Educação. Agora, como funcionário público municipal, em João Pessoa, numa escola pública de periferia, como psicólogo escolar. Vejam que legal. No Sul, ainda uma raridade, mas no Nordeste as escolas de muitas cidades contam com psicólogos educacionais, assistentes sociais, orientadores e supervisores, além de inspetores e cuidadores aos alunos com deficiência.  Agora, sou como a maioria dos leitores deste jornal, um educador.
Mesmo assim, a qualidade do ensino pouco progride, sendo baixíssima, mesmo com os melhores salários do Nordeste, com 14 salários por ano e boa estrutura material. Comparo com o Sul, onde com excelentes escolas, ótimas titulações e muitos resultados mascarados, mas ainda assim, os resultados do Ideb são baixíssimos também. 
A maioria dos professores do Nordetes acredita que a culpa das aulas serem ruins é do desinteresse e da má educação dos alunos, os quais não encontram na família os alicerces de boas maneiras e de uma orientação capaz de lhes trazer respeito e cordialidade junto com o interesse nas aulas, cada vez mais raro. 
A indisciplina e a falta de respeito são os vilões da vez.  Aí, pergunto: pagando bem aos educadores, os pais adestrando os filhos a serem verdadeiros querubins, alguém acredita que, com este modelo de escola, os padrões de qualidade, os padrões de aprendizagem real vão melhorar? Eu não creio nisso, faz tempo!
No grupo de discussão do qual participava, com outros psicólogos educacionais, professores e pedagogos, fui detonado com palavras indecorosas e com deboches quando afirmei que não há culpados, mas há responsáveis pela indisciplina e baixo rendimento: as péssimas aulas. E tais culpados não são os pais, nem os alunos e nem os professores. 
O modelo de escola está errado! Assim como o modelo de sociedade está errado. Explico: a escola praticamente em nada difere de uma prisão ideológica, quando não prisão material, com seus muros e grades, com os inspetores e professores correndo atrás de aluno “aprontador”, como gatos e ratos, parecendo mais carcereiros e detentos.
Talvez e, vejo como mais provável, a gênese dos maiores problemas educacionais atuais está na má formação universitária dos professores. Em geral, a maioria dos acadêmicos de cursos de licenciatura foram alunos com deficiências enormes na sua formação no Ensino Básico, e por não usufruírem na universidade de formação prática que os capacite a ensinar e a se apropriar do conhecimento, repetem, depois de formados, modelos de educadores que passaram em suas vidas, perpetuando o déficit. 
Mas, ainda assim, mesmo com gênios entrando para os cursos de formação de professores e educadores, não teríamos egressos com pleno domínio do saber docente e dos processos didáticos: os cursos de licenciatura não ensinam a ensinar, não explicam como se aprende. São fracos, teóricos e anacrônicos demais! 
Os alunos estudam a epistemologia, mas não vivem a construção do saber; sabem que há indisciplina nas escolas, mas não saem da teoria para manejos práticos que inibam este fator. Sabem que há fracasso, mas não sabem identificar causas ou minimizar o desinteresse. Nos últimos anos, o discurso de que os alunos não respeitam os professores e não vêm educados e comprometidos de casa se intensificou. E um número crescente de professores se limita a culpar as famílias. 
Ora...quer dizer que, se as famílias não educam, não oferecem bons exemplos, o fracasso escolar ficará por isso mesmo? 
Não esqueçamos de que os pais de hoje foram alunos de uma escola de ontem. E a escola de ontem falhou com estas pessoas no planejamento familiar, na conscientização do preparo profissional, na construção da cidadania e da dignidade. Estamos repetindo os mesmos erros e perpetuando um discurso que não cola, por não ser verdadeiro. 
Se um lar não dá exemplos, não forma um bom caráter, a escola não supre a família, lógico. Mas minimiza (e muito!) os estragos na formação da pessoa: com postura ética do professor, com vivências dos conteúdos contextualizados à realidade, com exemplos de dignidade, com debates sobre a vida, o trabalho, a família, por exemplo, no lugar de tanto assunto morto e que não faz diferença na vida do educando, a menos que seja trazido à realidade, que se dê sentido ao que se aprende. 
Ou perpetuaremos as desigualdades, impediremos os pobres de mudarem sua condição, ajudaremos a encher o mundo de filhos não desejados, de pessoas despreparadas para os desafios da modernidade.
Não se pode desistir porque o fracasso educacional passado formou uma geração de pais ineptos, com sólida ajuda da classe política, adepta do “quanto pior, melhor”. Nem desistir por termos uma formação incipiente. Afinal, a formação do mestre nunca acaba, mas se reinicia a cada desafio, a cada meta a superar, pois ensinar bem é aprender sempre e reaprender mais ainda.

Gilmar De Oliveira
Sobre este autor:
Psicólogo clínico e institucional; especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura. CRP 12/01950. Endereço eletrônico: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
 
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