E o prêmio vai... para a coragem de realizar e divulgar(JE284) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes   
17-Dez-2014


As primeiras palavras de vencedores de concursos e prêmios são sempre de agradecimento. A coragem de realizar,registrar o passo-a-passo e divulgar o projeto inscrevendo-o no concurso que lhe deu visibilidade passa ao largo naquele momento. Mas é exatamente esta coragem individual que o diferencia e o inscreverá no capítulo da história.
 
O muito obrigado geralmente é direcionado para a família que deu suporte e abriu mão do convívio, aos colegas de trabalho que deram suporte intelectual e ou material para a realização do projeto e à instituição que organiza o concurso, ampliando o campo de visibilidade do premiado.
 
Vencido o concurso, o prêmio passa a ser mais importante do que o caminho percorrido para chegar até lá. Ganhar um prêmio significa abrir mão da individualidade, para tornar a vitória uma conquista coletiva. 

Assim, passados algumas semanas, o projeto, na maioria das vezes, idealizado, desenvolvido e registrado por uma única professora na solidão da sala de aula, já é de domìnio público. 
Portanto, mesmo que uma única pessoa tenha idealizado, implementado e desenvolvido um determinado projeto, ela não terá o mérito, se não divulgar, registrar e ter o reconhecimento de seus pares.

Assim é a sociedade. Assim é a vida. Temos a necessidade da convivência social, da aceitação, do pertencimento, da ajuda, do viver coletivamente. Mas não basta ser e ter, é preciso parecer ser e ter e, principalmente, é preciso dizer para um número cada vez maior de pessoas o que fez. 

E depois de ser, parecer e contar é preciso ter novamente o reconhecimento dos seus pares a começar pela família, como é o caminho natural da humanização: nascemos para a família, ampliamos nossa convivência para a sociedade por meio das instituições sociais como a igreja e a escola e depois, ganhamos o mundo via veículos de comunicação, redes sociais e tudo o mais que pudermos usar. 

Mas o que conta mesmo, é o reconhecimento do nosso pequeno grupo de convivência. É deste grupo que dependemos para continuar motivados a abrir os olhos a cada dia, levantar da cama e cumprir um ritual que culminará em fechar os olhos e dormir tranquilamente.
Afinal, esse é o ciclo natural da vida pessoal. Todos os seres humanos têm a necessidade de serem reconhecidos, valorizados e receber isso primeiramente de seus pares, mesmo que o caminho "natural" seja invertido e o recebimento de um prêmio seja o primeiro passo para "enfiar goela abaixo" o valor individual. 

Entretanto, a coragem de fazer acontecer, superando as dificuldades impostas pelo modelo de gestão educacional brasileiro, no qual a escola é proibida de cobrar sequer uma ajuda de custo. Mesmo que para cobrir as despesas de fotocópias, dificulta qualquer ação individual ou mesmo coletiva que possa elevar os alunos a experienciar ambientes diferenciados de conhecimento. 

Assim, os projetos bem sucedidos, via de regra, são poucos e desenvolvidos por abnegados que têm muita coragem, diposição, dedicação, proatividade e sabem pedir (e muitas vezes implorar) por ajuda financeira. 

Nunca há dinheiro para pagar um passeio de barco necessário para levar os alunos para conhecer o “terreiro ampliado” de sua casa. 

A professora tem que fazer um projeto, justificando imensamente no papel aquilo que é visivelmente indispensável na prática. A diretora precisa recorrer aos contatos pessoais e a de cerca forma, "burlar" as orientações superiores, para que o projeto seja realizado. 

O modelo brasileiro de escola é contraditório. Os pais são obrigados a matricular seus filhos nas escolas e recebem até dinheiro para garantir isso. Os professores são obrigados a dar aula, mas terão de tirar uma parcela (mesmo que pequena) do próprio salário para reproduzir material didático. 

Os gestores devem garantir ensino público e gratuito, ambiente escolar adequado e equipado e manter o bom relacionamento com a comunidade e com os governantes (políticos), mas não têm verba alguma para administrar. Tudo o que vai para escola, são normas proibindo qualquer cobrança. E, para agravar, não têm qualquer ingerência sobre quem e quantos profissionais atuarão sob sua orientação na escola. 

Os profissionais que atuam nas escolas, desde os professores (os responsáveis diretos pela qualidade do ensino e da aprendizagem), a trabalhadores de serviços de limpeza e alimentação, aceitam esta situação e continuam dando o melhor de si sob a alegação de que "as crianças merecem e precisam". 

Agindo assim, eternizam este modelo cruel de gerir o sistema educacional. Neste modelo, as iniciativas individuais e o reconhecimento coletivo a estas iniciativas são determinantes para que a escola consiga qualquer bom resultado positivo. 

Portanto, vivemos numa época em que não poderemos admitir que haja pessoal que, se dizendo profissional da educação e vivenciando as dificuldades inerentes ao modelo fálido de escola pública e gestão dos sistemas educacionais, insinue mesmo que brandamente, que festejar uma conquista da escola, seja exibicionismo. 

Essa inveja negativa e esse sentimento mesquinho de impotência ou imposição de comportamentos individuais ao coletivo talvez seja a maior barreira para o crescimento em termos de qualidade de ensino. Aliás, esse é um comportamento típico do brasileiro de décadas passadas, quando o patrulhamento político ideológico era a mola motriz da sociedade.  

Chegamos ao cúmulo das pessoas aceitarem ter seu dinheiro da poupança confiscado com felicidade porque o fulano de tal-empresário importante- também tinha só aquela quantia também. Este comportamento deixa claro a ingenuidade e o desconhecimento profundo sobre o funcionamento da máquina governista e econômica da sociedade brasileira.  

É este patrulhamento e ingenuidade decorrente da ignorância  que insiste em voltar e talvez esteja levando parte dos brasileiros às ruas pedindo pelo retorno da ditadura militar. 
Não felicitar-se intimamente e verdadeiramente com a vitória do outro, do colega professor ou diretor, é a prova mais cabal do egoísmo, do egocentrismo e da pequenez de um ser que se diz humano, mas não é. 

Este comportamento tipicamente feminino das sociedades latinas onde as mulheres são educadas para ser mãe e cuidar dos membror do sexo masculino, o que leva às mulheres e lutarem pela prole (mesmo não a sua individualmente) faz com que algumas professoras (e diretoras especialmente) se mantenham em constante competição uma com a outra. Esta necessidade de dizer que "a minha escola" é melhor, leva à necessidade da da outra não se sobressair.

Ou seja, divulgar alguma coisa é exibir-se. E exibir-se é feio, é coisa de mulher mal educada. Mas sempre é bom lembrar que, na sociedade do ano 2014, quando uma informação pode percorrer o mundo em segundos, este tipo de comportamento não cabe mais. Divulgar um trabalho bem feito é socializar conhecimento. É motivar os demais a adaptarem e melhorarem ainda mais o seu fazer pedagógico.  

Aliás, é preciso divulgar para um grupo maior de pessoas, cada uma das boas ações empreendidas nas escolas para que, não sabemos quando, nem como, o Brasil mude sua maneira de gerir a educação e, como resultado, passe a efetivamente ensinar os brasileiros a ler, escrever, calcular e, principalmente, valorizar o saber, o conhecimento, a escola e, o mais importante de seus agentes, o professor. 

Afinal, os diretores e diretoras de escola estão diretores, mas são professores. E mais importante, é preciso reconhecer publicamente o bom trabalho do colega e festejar sua conquista diariamente, porque não existe nada mais gratificante seja para o mais simples dos mortais, seja para o mais sábio dos estudiosos, do que ler algo a respeito de si mesmo. 

O brasileiro precisa aprender a festejar e comemorar muito nos momentos de vitória e deixar para reclamar e criticar em todos os demais períodos da vida. 

Anunciar a vitória é perpetuar o momento de alegria. Festejar a vitória é agradecer a si mesmo, mas divulgar a conquista é, antes de tudo, permitir ao outro que inicie a caminhada definitiva em direção à própria vitória. Pois, mais do que ser vencedor, precisamos parecer vencedores e principalmente, levar a conhecer que somos vitoriosos.

Deste modo, estaremos recarregando as baterias para continuarmos a traçar o caminho para a vitoria do ensino nas escolas brasileiras. 

Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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