Os professores do Brasil querem só reconhecimento e valorização (JE283) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por MARIA GORETI GOMES   
19-Out-2014


Os professores do Brasil querem reconhecimento e valorização. Mas não se trata do reconhecimento romantizado em poemas e canções no Dia do Professor ou nos discursos de candidatos a cargos públicos via eleição.
Esse reconhecimento pretendido pelas professoras e professores poderia ser traduzido em respeito. Respeito à sua importância na construção da sociedade, ao que este profissional representa e, acima de tudo, o respeito dos alunos, dos pais e, principalmente, dos gestores escolares à avaliação e às ações do professor em sala de aula visando a levar seus alunos à aprendizagem.
Vivemos num momento em que quem precisa ser protegido de agressões é o professor (a). Reconhecer a importância deste profissional para a sociedade, respeitar a sua avaliação e apoiar incondicionalmente suas atitudes em relação ao fazer pedagógico, inclusive no que tange à indisciplina dos alunos, é urgente.
E é o primeiro passo para fazer a revolução necessária na educação deste país.
Sim, porque assim como o médico tem o seu paciente e é ele o responsável pela vida daquele ser humano, o aluno é do professor.
É o médico que faz o diagnóstico, prescreve a medicação e o tratamento, prontamente acatados pelos demais profissionais da saúde, que estão ali para ajudá-lo, e, pelo próprio paciente e seus familiares.
Do mesmo modo, os demais profissionais da educação, bem como os familiares devem auxiliar o professor, acatar suas decisões e apoiar as atitudes e ações empreendidas em favor de salvar a mente daquele ser humano.
O médico cura o corpo, o professor cura da ignorância e prescreve o tratamento (caminho) para que aquele ser humanochegue ao saber.
O professor é o profissional especialista da área da educação. É ele quem tem a capacidade, a habilidade e a prerrogativa de avaliar seus alunos, e ninguém mais.
Reconhecer esta prerrogativa é o primeiro passo para uma revolução na educação do Brasil.
Ser reconhecido como o profissional do ensino é o sonho, é o desejo número UM dos professores brasileiros. Reconhecimento pelo bom trabalho passa, principalmente, pelo resgate do status de profissional respeitável, perdido em algum canto da escola nas últimas décadas.
Não é possível que a sala de aula continue a ser um ambiente de trabalho que possibilite até o pagamento de adicional de periculosidade para o professor. Isso beira às raias do absurdo. É a falência completa da escola como instituição de ensino, sua finalidade primária.
Valorização é o segundo desejo. Mas, valorizar não significa apenas pagar melhores salários e implantar plano de carreira.
Antes de mais nada, é preciso cumprir o novo Plano Nacional de Educação e equiparar o salário do professor com o dos demais profissionais de mesmo nível de escolaridade. E, ao mesmo tempo, criar mecanismos que tornem a carreira de professor mais atraente. Pois a decepção dos jovens com o magistério está intimamente ligada a falta de respeito e status do profissional em exercício.
Afinal, os bons professores precisam ser valorizados com adicionais ao salário, os quais o acompanharão na aposentadoria.  É a meritocracia. Não é possível que um professor que consiga ensinar verdadeiramente (não estamos falando de nota, mas de aprendizagem) à maioria dos alunos, esforçando-se, aperfeiçoando-se e implementando diversas atividades, cumprindo suas obrigações, ganhe o mesmo salário daquele que não consegue ter os mesmos resultados.
Desnecessário dizer também que o país tem carência de 700 mil professores. Os jovens não querem mais exercer a profissão de professor e o salário não é a principal razão. Eles não admitem o desrespeito reinante nas salas de aula (e escolas) dos alunos, dos pais e até mesmo dos diretores de escolas (que deveriam estar sempre do lado do professor, protegendo-o) em relação aos professores.
A falta de professores vai se agravar ainda mais nos próximos anos. Até porque são necessários pelo menos 4 a 5 anos para se formar um professor no curso superior. E, depois disso, serão mais três a cinco anos para que o recém-formado ganhe autoconfiança, supere os desafios iniciais e decida-se por permanecer na profissão. E não pode ser diferente.
Os profissionais da saúde passam por um período de residência médica, os administradores atuam como trainee nas empresas, os engenheiros fazem estágio remunerado. E o professor precisa atuar, ser o responsável por um grupo de estudantes, para desenvolver a autoconfiança e aperfeiçoar as técnicas, especialmente, de domínio de classe e didáticas, antes de decidir-se.
E nesta primeira fase de sua vida profissional, os demais profissionais da educação deverão fazer papel semelhante ao dos enfermeiros com o médico, auxiliá-lo no trato direto com o paciente (ou o estudante).
Se para tratar da saúde do corpo é preciso ser auxiliado, imagine tratar da saúde da mente que é quem comanda o corpo.
Há um grande percurso entre o diagnóstico inicial e a cura total da ignorância (falta de conhecimento sistematizado).
Os professores não querem ser reconhecidos como “salvadores da pátria” ou super-heróis, eles querem ser reconhecidos como os profissionais responsáveis pela formação do cidadão. Porque o cidadão é o comandante do corpo físico, tratado pelo médico.
A sociedade brasileira só funcionará e será boa para todos, quando cada um fizer a sua parte. Quando cada um entender que deve esperar na fila pelo atendimento, deve respeitar quem está lá, tentando organizar.
Quando as famílias perceberem que devem respeitar o zoneamento para matricular seus filhos na escola e o fizerem porque todas as escolas são boas.
Então, o Brasil será uma nação para os brasileiros. Quando a família efetivamente participar da vida escolar dos seus filhos, exigindo que ele faça a sua parte na aprendizagem e respeite o professor e a escola como instituição do saber.
Quando a escola voltar a cumprir o seu papel na sociedade, o de ensinar, e somente este.
O papel de educar é da família. E o de catequisar é da igreja. É preciso que cada um faça o seu papel na formação do cidadão brasileiro.
A família é quem deve reconhecer o valor da escola, o valor do professor, o valor do ensino. É ela quem educa. Cabe a ela criar é fazer com que a criança, o jovem e o adolescente construam uma escala de valores e de prioridade, colocando na escala mais elevada o ensino, a escola e, por consequência, o profissional responsável pela ensinagem: o professor.
Os brasileiros mais pobres não precisam de esmola, de bolsa disso ou daquilo, o brasileiro precisa única e exclusivamente de ensino de qualidade.Se nossas escolas públicas conseguirem efetivamente ensinar com qualidade, todo resto virá no rastro.
Somente com muito conhecimento adquirido na escola e determinação é possível sair da pobreza (e não voltar a ela).
E, ao construir uma vida melhor para si, o cidadão está também construindo uma vida melhor para os seus familiares e um país melhor.
Criar mecanismos de avaliação externa da aprendizagem de todos os estudantes é uma boa maneira de mudar a relação professor x ensino x aluno. É um modo fácil e rápido de fazer a revolução necessária no ensino no Brasil. Quando o professor for um aliado para que o aluno alcance o sucesso (e a nota)ele será respeitado pelo que ensina e não pela nota que atribui. Assim como são os professores dos cursinhos.
Todas as avaliações deveriam ser externas. Esta é uma mudança drástica de metodologia de avaliar a aprendizagem. Nela, caberia ao professor planejar e ministrar as aulas seguindo ao programa e conteúdos próprios para a turma e o nível de ensino estipulados pelo sistema de ensino.
Deste modo, ao invés do professor atribuir notas aos seus alunos, ele irá somente ensinar. As avaliações devem ser feitas pelos gestores, equipe pedagógica e pela secretaria de ensino.
Ao mesmo tempo, é preciso criar mecanismos de valorização da carreira de
professor. Quem ensina melhor deve ganhar mais e sem limites para este crescimento.
Deste modo, os bons professores, os que conseguem bons resultados de aprendizagem serão incentivados a continuar o bom trabalho.
E, para incentivar também os colegas, um programa de capacitação permanente deve promover estes professores a trocar experiência com os colegas com dificuldades em ensinar.
Assistir às aulas do colega por um período significativo é, ao mesmo tempo, aprender com quem sabe fazer bem e reconhecer o trabalho do outro.
Reconhecimento e valorização. Os dois grandes desejos dos professores poderão levar mais jovens a optar pela profissão de professor, mas é preciso, também, criar mecanismos para transformar a carreira de professor atraente. Já que esta é uma profissão fim e não intermediária.
Afinal, professor sempre será professor. Diretor de escola não é promoção, ser secretário de educação, não é promoção. Estas são apenas ocupações temporárias de um professor.
Portanto, é necessário criar mecanismos, além da valorização e do salário pelo mérito, que deverão acompanhar o professor na sua aposentadoria.  É preciso que o plano de carreira proporcione um “upgrade” pessoal e profissional de tempos em tempos. E o gatilho para este crescimento deve ser o trabalho bem feito, o desempenho em sala de aula e a aprendizagem dos alunos.
 
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