A ANTA (JE 281) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Gilmar de Oliveira   
25-Ago-2014



Paulo um menino bem legal com os colegas. Na escola ele agitado e divertido, corre bastante e se tornou popular porque nas brincadeiras e esportes com corrida o seu time leva vantagem. bom aluno em matemtica. Mas escreve mal, l pouco, se atrasa para escrever, sua letra ruim. Nas provas, sua escrita ilegvel e sua demora em escrever fazem-no ir mal a ponto de sempre ficar em exame. Esquece as tarefas, sempre pede mais uma chance, outro dia esquece o caderno e sempre perde ou esquece algo. Diariamente cobrado pela professora, a qual ele odeia.
A professora experiente, rgida, afirma que tem o prprio mtodo, pois so vinte anos lecionando e aguentando tudo quanto tipo de aluno e diz que seu estilo j automtico, de tanto fazer a mesma coisa. Adora que seus alunos mantenham a disciplina e aprimorem a escrita, por isso passa textos interminveis no quadro. No conselho de classe, a professora mostra-se frustrada com as baixas notas de Paulo e sua compulso por uma conversa em hora imprpria, como se no percebesse as repetidas chamadas, no se conteve: Ser que ele to tolo? Mais parece uma anta essa criatura! Pronto. Paulo, virou a Anta. A professora e seus 20 anos de mesmice e copismo, esta esperta! !
A Anta, do alto de seus dez anos, segue a vida: adora jogar bola, fixado no videogame, passa horas em jogos de lutas e de guerras. Apronta mil coisas e, muitas vezes, sua me vai loucura de raiva!
Em casa, a Anta sempre chamado ateno por deixar as coisas jogadas e, de to serelepe, esquece de fazer sua mochila, de colocar os cadernos do dia, perde lpis, deixa tarefas pela metade, trocam datas de entrega de trabalhos. Nos sermes, sempre lhe pedem mais responsabilidade, mais cuidado. A Anta chora. Sempre tem uma desculpa pra tudo e, de vez em sempre chora e se faz de coitadinho. So desculpas fceis de desmascarar. E a Anta gosta de mentir, se gosta! Mas suas mentirinhas so to ingnuas... J pegou dinheiro da carteira do pai sem pedir, j levou brinquedo da casa dos amigos da vizinhana, se empresta algo no devolve ou no cuida, a ponto de estragar o objeto. Parece que tende a trair a confiana de todos, fazendo arte o tempo todo.
A Anta, conforme a professora, precisa amadurecer. Vai reprovar neste ano. Os especialistas da escola concordam e seus pais tambm. Como pode um menino to esperto ser to irresponsvel?
Nunca diagnosticaram Paulo. Com algum do lado, ele rende. Um neurologista o consultou, e mesmo com exame da cabea, nada foi encontrado. A culpa, ento, poderia ser dos pais, que deixam-no jogar videogame demais? Falta-lhe limites, castigos ou uma surra (como se surra educasse)?
A este ponto leitor, se voc educador, lembrou de tantos alunos assim. Quantos Paulos viraram antas e foram reprovados ao longo das ltimas dcadas? Quantos alunos que abandonaram as escolas por seguidos fracassos, sem diagnstico, sem acompanhamento competente e rotulados?
O Paulo (nome fictcio, obviamente) do texto uma descrio muito comum na cena escolar brasileira. Ele existe. No um. So milhares. So crianas com TDA, Transtorno do Dficit de Ateno.
No so distrados, apenas: esquecem fcil (a ateno baixa impede os dados de se fixarem na memria), no refletem sobre seus atos (por isso sentem culpa imediata e passageira), planejam muito pouco, no pensam em consequncias, se organizam mal, executam tarefas de forma desorganizada, copiam lentamente pois gastam muita energia para poderem se concentrar na tarefa e cansam do foco rapidamente. So impulsivos e descuidados; as mentiras so mal elaboradas porque a baixa ateno impede de pensarem profundamente sobre a situao. Parecem preguiosos e lentos para tarefas e rpidos para brincar. Levam vantagem ao ar livre, pois a ateno perifrica preservada. Sofrem, mas nem sempre entendem o motivo de serem to cobrados. Quase 90% desses estudantes seguem sem o diagnstico. Cerca de 75% dos presidirios brasileiros foram crianas com TDA ou com hiperatividade, sem diagnstico.
Um bom diagnstico por um psiclogo especializado (que deveria estar nas escolas) em aprendizagem, com o uso de testes especficos e muitas vezes acompanhamento mdico e medicamentoso fazem estas crianas se sentirem pessoas novamente e retirariam do fracasso escolar milhares de cidados que estendem tais problemas para sua vida sem saber que tem tratamento e que so muito mais que seus limites. Encaminhe alunos com dificuldades. Uma sociedade melhor comea por uma escola bem informada, que trata, sem excluir! E lembre-se: aulas dinmicas e inovadoras, sempre!

Gilmar De Oliveira
Sobre este autor:
Psiclogo clnico e institucional; especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educao e Cultura. CRP 12/01950. Endereo eletrnico: Este endereo de e-mail est protegido contra spam bots, pelo que o Javascript ter de estar activado para poder visualizar o endereo de email
 
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