O Brasil continua a ser o país dos contrastes(JE282) PDF Imprimir E-mail
Classificação: / 0
PiorMelhor 
Escrito por MARIA GORETI GOMES   
15-Set-2014


O disparate entre o IDEB - Índice de Desenvolvimento da Educação Básica-  de um para outro estado e de um município para outro, ou mesmo de uma para outra escola de um mesmo sistema de ensino, é o retrato da falta de políticas públicas e gerenciamento da educação. 
Os números demonstram a inexistência de metas e regras claras em todas as esferas da gestão educacional:  a sala de aula, a escola, a secretaria municipal, a secretaria de estado, o MEC. Os números do IDEB resultam em mais um reforço à afirmação de que o Brasil é o país dos contrastes. 
Ilhas de altos índices estão espalhadas por todo o país. Do mesmo modo como as de índices baixíssimos. Ou seja, o problema não está centralizado em um único local. O contraste que os professores sentem nas salas de aula e, que se aviltam com a proximidade do final do ano letivo, existe em todo o país e também em cada uma das escolas. 
A raiz do problema é sentida e refletida prioritariamente na comunidade em que a escola está inserida. As ações que envolvem a atividade de ensino e de aprendizagem na sala de aula são influenciadas pela relação professor x aluno, mas sofrem forte influência externa. A valorização (ou não) da escola como espaço do saber pela família e pela comunidade, a carreira de professor ser (ou não) atrativa, (ação governamental) e até o acolhimento das crianças, adolescentes e jovens nas centenas de milhares de escolas de todo o Brasil influenciam.  
Por outro lado, se o problema se repete em nível nacional, é claro que não está somente na escola ou na sua comunidade. O problema maior é a inexistência de uma política que valorize o saber escolar e a profissão de professor. Há anos, repete-se o discurso de que a escola precisa deixar de ser “a representante oficial - o braço amigo” do governo provedor (de merenda, uniforme e material escolar, de atendimento psicológico e social) para tornar-se o templo do saber científico. A escola foi criada pela sociedade para ensinar e não para educar. Quem educa é a família. E cabe à família fazer da escola um valor a ser preservado. 
 Desde a década de 1970, a escola foi tomando para si incumbências do estado provedor. Ação que foi cristalizada na Constituição de 1988. Há inclusive cidades que aprovaram leis obrigando o município a doar até mesmo o uniforme escolar. Em nome da “igualdade de direitos”, a escola veste, mas não ensina igualitariamente. Nossa educação continua a ser diferente porque nivelamos por baixo. Ensinar cada um dentro da medida de suas habilidades e capacidades é que seria ensinar igualmente a todos.  
Assim, atrofiando ou desperdiçando nossos talentos, o país tem perdido milhares e milhares de cientistas, empreendedores e grandes pensadores. E nossa sociedade continua a ressaltar os contrastes em detrimento do mérito e da igualdade de direitos e deveres. O IDEB retrata esta realidade construída ano após ano com erros de discursos e percursos.
O caminho correto é resgatar o valor do saber escolar. Algo nos moldes do que foi feito nas décadas de 1960 e 1970. Afinal, todos sabem que um aluno não é igual ao outro. É praticamente impossível ao professor, por mais qualificação que tenha, conseguir ensinar a todos igualitariamente. Além desse aspecto, nem todos os alunos querem aprender.
Noutro dia, durante um almoço com uma mãe de um casal de filhos adultos, seu celular tocou. Uma terceira pessoa sentada à mesa, em tom de brincadeira, comentou “Atende, deve ser tua filha”. Ao que a mulher rapidamente retrucou: “Não, minha filha tem educação, ela não telefona para mim nesse horário”. E continuou:  “Poderia ser meu filho, ele se acha no direito de ligar a qualquer horário”. Imediatamente, o interlocutor perguntou: “Como pode? Os dois não foram educados por você e do mesmo jeito?” Ao que a mãe naturalmente respondeu: “Sim, mas ele não quis aprender”. 
Este conversa fez-me perceber que aquela mulher, com apenas o ensino fundamental, compreendia muito bem o problema da aprendizagem. Que é, também, o problema da educação brasileira: há muitos alunos que não querem aprender nas salas de aula. 
A verdade é que temos nas escolas muitos alunos que estão lá sem saber exatamente o por quê. Alguns os pais obrigam para não perder “a bolsa doada pelo Estado brasileiro”. Outros, vão para encontrar e conviver com os colegas. Restam poucos os que estão lá por causa do saber. 
Enquanto isso, a grande maioria está na escola sem nenhuma razão lógica. São realmente poucos os familiares que entendem e repassam aos filhos que a escola é o lugar de criança e de adolescente em busca de sabedoria. 
Não há nada errado em ir para a escola para encontrar e brincar com os amigos. Afinal, a escola também é um lugar de convivência entre pessoas com objetivos e metas em comum. Os seres humanos vivem em grupo e precisam sentir-se participantes de um grupo. É o sentido de pertença.
A escola é o terceiro grupo a que pertencemos ao longo de nossas vidas. O primeiro é a família. O segundo, geralmente, é a igreja. Mas quem nos levará para a igreja e para a escola é a família. Ou seja, somos socializados pela família, portanto, só há uma saída para a escola, conseguir chegar à família daqueles que têm o desejo de estudar e criar este desejo naqueles que não o têm. 
E somente a escola poderá fazer isso. Os governos não conseguem criar esse sentimento de pertencimento nas pessoas. Cabe aos gestores, diretores, professores e demais profissionais que atuam nas escolas aumentar a autoestima dessa mesma escola. 
A escola que sofre de baixa autoestima tem IDEB baixo, não alcança metas. Portanto, não se reconhece como o Templo do Saber. 
E não sendo o Templo do saber, não consegue criar sentido de pertença nos alunos. Pois ninguém quer pertencer a um time de derrotados.  Ou seja, enquanto a escola estiver com baixa autoestima, a família não a valoriza e os estudantes não considerarão importante fazer parte daquele time. 
Assim como todo organismo vivo, a escola precisa se redescobrir, resgatar seu verdadeiro papel e valor social e, mais do que tudo, cumprir sua missão prioritária que é ensinar.
Entretanto, se a escola continuar a se posicionar e adaptar “aos ditames da família”, ela continuará a ser tratada como dispensável. Se continuar permitindo, por exemplo, que os estudantes do ensino médio saiam antes ou entrem 10 minutos depois do horário porque trabalham. Permitir que os pais peguem os filhos para participar de cerimônias religiosas. Ou dispensar alunos para fazer homenagem aos aniversariantes ou um chá de bebê ou de panela para uma professora ou professor, a própria escola está passando a mensagem de que a sala de aula é menos importante. 
O cálculo do IDEB considera, além dos testes de conhecimento, dados como formação dos professores e evasão escolar e, por esta razão, o ensino médio tem sempre os piores índices. Com um mercado de trabalho aquecido e a necessidade pessoal do adolescente de ter a própria renda e sair da dependência dos pais, a evasão neste nível de ensino é grande. 
Para agravar este quadro, a escola minimiza a necessidade de cumprimento de regras e horários por estes alunos. Nesta fase da vida, tudo que os adolescentes precisam é tomar as rédeas de sua própria existência, responsabilizando-se e sendo responsabilizado por todas as suas atitudes e ações. 
Disciplina e regras claras e rígidas são as suas necessidades. Há muita oferta de vaga para adolescentes, mas todas as empresas querem jovens autônomos, disciplinados e com desejo de aprender. Se ao longa da vida escolar, ele nunca teve ou aprender estas atitudes, como as terá na empresa e na vida adulta?  
Para o adolescente, é importante permanecer na escola, pois quanto mais dedicado ao ensino, mais disciplinado e mais ávido por aprender, maiores as chances e melhores as ofertas de emprego.  O Brasil vive  num paradoxo: há uma crise de ensino e as salas de aulas estão lotadas. 
Vale ressaltar que os centros de educação infantil devem sim cuidar das crianças pequenas, mas nem a escola de ensino fundamental e muito menos a de ensino médio devem cuidar dos alunos. A escola deve cuidar é da estrutura física e pedagógica dando segurança aos estudantes no caminhar em direção ao saber. 
A escola não pode repetir o erro dos pais, que infantilizam seus filhos, a ponto de mantê-los em casa até 30, 40 anos de idade. Se o fizer, os adolescentes continuarão a fugir da escola, exatamente como fogem da casa dos pais, porque tudo o que ele quer (e precisa), é cuidar de si mesmo.  
E é exatamente esta a razão que faz com que muitos adolescentes deixem a escola para trabalhar e, depois, voltam porque o trabalho exige mais estudo, fazendo com que o Estado gaste duplamente na formação do mesmo cidadão. 
Escola tem que ensinar autonomia na prática. Responsabilizar e cobrar resultados dos adolescentes. Sempre com regras claras.  
Seja de ensino fundamental ou ensino médio, a escola é lugar de aprender a ser autônomo. É lugar de ser orientado em suas atitudes em relação ao saber.  
Portanto, a crise na educação brasileira só poderá ser resolvida pela própria escola, pois é ela que se perdeu no cumprimento de sua função ao trazer para si a função de educar. Ninguém poderá precisar exatamente o momento em que isso aconteceu, mas aconteceu. E talvez ninguém consiga precisar exatamente o momento em que iniciaremos esta recuperação de autoestima, mas seguramente, o ponto de partida será cada uma das centenas de milhares de salas de aula das escolas deste país. 
Aos professores cabe ensinar a aprender o saber científico e nada além disso. Todas as interferências e reuídos externos são problema da gestão da escola. Caberá à equipe gestora da escola conseguir fazer com que as famílias valorizem a escola. 
Enquanto a escola não resolver seu problema de baixa autoestima, os índices como o IDEB mostrarão a triste realidade do ensino brasileiro. Pois a escola que é valorizada pela própria comunidade, assim como os filhos de cujos pais acompanham a vida escolar, respondem com números positivos e metas alcançadas.
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
Advertisement

Qual a sua opinião?