Brasileiro tem crise crônica de identidade(JE279) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes   
09-Jul-2014


Até o jogo contra a seleção de Camarões a torcida brasileira usava verde e amarelo. Naquele jogo, quando por unanimidade, os brasileiros passaram a acreditar na possibilidade da seleção chegar à final da Copa do Mundo 2014, a cor do Brasil passou a ser exclusivamente o amarelo. A razão para a torcida brasileira amarelar? Camarões entrou em campo com uniforme verde.

O simples fato da cor verde ser também uma das cores do uniforme da equipe adversária foi suficiente para o verde sair de moda entre os torcedores da seleção brasileira.

Há um ano, quando os brasileiros foram às ruas, a moda era protestar contra os desmandos, a corrupção, o governo, o desrespeito dos políticos (des)governantes. Também naquele momento, vestidos de verde e amarelo, os brasileiros diziam que já não queriam mais o que estava ali. Foi e continua difícil, inclusive para os cientísticas políticos, explicar as razões ou mesmo a motivação real daquele movimento.

Nem os próprios jovens que foram para as ruas sabiam dizer exatamente o que os levou a ir e, principalmente, a ficar na rua. Comportamento de manada? Ou modismo?

A bandeira do Brasil é predominantemente verde, mas há nela as cores amarela, azul e o branco. Vale lembrar que a seleção brasileira tem, também, um uniforme azul.

Esta crise de identidade, ou de identificação do brasileiro com suas raízes, símbolos, representantes, origens e até mesmo a comida, a dança, a música, o folclore, a fisionomia está presente no cotidiano dos habitantes do país sede da Copa do Mundo de Futebol.

Confundesse patriotismo com apoio ao governo. Governantes com o país. Presidente com administração e corrupção.

O país é um adolescente em crise de identidade.

A moda é fazer aquilo que "der na cabeça". Se há autoridade, desrespeitá-la. Hierarquia é para ser quebrada. Respeito ao outro? Só se ele fizer aquilo que eu quero.

O problema de identidade é histórico. Há momentos em que os moradores do maior país da América do Sul, identificam-se como descendentes de portugueses (país colonizador) e dos imigrantes europeus. No instante seguinte, já somos predominantemente afrodescendentes. E, por fim, os brasileiros acabam por lembrar que já havia moradores aqui, os indígenas. Então, quem são essencialmente os brasileiros?

As leis garantem privilégios às minorias: afrodescendentes e indígenas - ou a 58% da população.

A dificuldade em caracterizar os quase 200 milhões de nascidos em solo brasileiro, inclui a definição de quem é pobre, rico, descendente de europeu, de africano, indígena, sulista, nordestino, carioca, paulista, catarinense ou barriga verde, gaúcho, pantaneiro, goiano, sambista, carnavalesco, cachaceiro, cervejeiro, nordestinos, sulistas, ribeirinho, festeiro, torcedor, brasileiro ou pizzaiolo. Sim, porque, via de regra, tudo acaba em pizza.

A imensidão de nosso território, a diversidade cultural, a vontade de ser estrangeiro e ter dupla nacionalidade tirando vantagem disso, e a grande quantidade de adjetivos pátrios pode, de alguma forma, estar influenciando na formação desta identidade brasileira.

Assim, o torcedor da seleção verde amarela, pode se tornar o torcedor canarinho, se isso lhe aprover num dado momento.

A crise é mais profunda. Há uma confusão entre ser patriota e torcedor da seleção brasileira. Entre ser brasileiro e ser contra o país parar para assistir a uma partida de futebol. Entre ser brasileiro, patriota e se opor às ações governamentais e ao uso do dinheiro público para construir estádios de futebol ou fazer carnaval.

Isso mesmo, porque há brasileiros contrários a usar dinheiro público para construir todo e qualquer estádio de futebol e não somente os "padrão FIFA". E, vale salientar, que há dinheiro público, investido na construção de estádios de futebol em todas as unidades da federação brasileira.

O brasileiro está em crise crônica de identidade. A realização da Copa agravou ainda mais está crise. Se, por anos aceitamos usar o dinheiro de nossos impostos em estádios de futebol padrão Brasil, porque raios, nosso dinheiro também não pode ser usado para construir os estádios padrão FIFA?

No país do carnaval e do futebol, onde o dinheiro público é usado para financiar festas religiosas, parada gay, grupos folclóricos que visam manter as tradições de outros países e estádios de futebol, grandes clubes são patrocinados por empresas e bancos públicos, como ser contra a realização de uma festa que celebra a paz entre todos os povos e ajuda o país a equilibrar sua conta corrente em moeda estrangeira?

Pela primeira vez, em anos, os estrangeiros gastaram mais aqui, do que os brasileiros no exterior.

E mais, nada justifica um grupo de endinheirados sem educação desrespeitar a autoridade constituída da presidente que foi eleita pelos brasileiros como sua representante oficial. Dilma é a presidente de todos os brasileiros, mesmo dos que desaprovam seu governo, são contra sua reeleição ou sequer votaram nela.

A falta de civismo e patriotismo deixou transparecer a falta de educação de alguns endinheirados.

Este tipo de comportamento é um exemplo da carência de educação de qualidade e de respeito de alguns brasileiros pelo próprio país. Estes mesmos que bradam seu patriotismo, mas fazem suas compras no exterior, deixando lá o dinheiro ganho aqui.

Na maioria das cidades em que os jogos da copa estão sendo realizados (e nas demais também) falta ensino de qualidade, vagas nas escolas e creches públicas, professores, hospitais, médicos, enfermeiros, esgoto sanitário, água potável, luz elétrica, moradia, remédios, estradas, ferrovias, hidrovias, transporte público de qualidade e gestão pública eficiente. Sobra corrupção, benefícios para os amigos dos políticos que estão no poder e cidadão querendo levar vantagem em tudo. Se temos corruptos, temos também corruptores e corruptíveis.

O ingresso mais barato para assistir a um jogo da copa é cerca de R$300,00. Ou praticamente 50% da renda mensal da maioria dos trabalhadores brasileiros, que assistem as partidas pela televisão analógica. Mas os ingressos estão sendo disputados e chegam a ser vendidos por 2, 3 ou até 4 mil reais, geralmente para estrangeiros, por cambistas brasileiros e estrangeiros.

A quase totalidade dos brasileiros sabe de tudo isso. E sabe também que o Brasil revogou temporariamente algumas de suas leis para atender à exigência da FIFA. Se não fizesse, não realizaria a Copa.

Há décadas, num programa de humor havia uma personagem, uma gringa, mulher bonita, que tinha como bordão: "o brasileiro é tão bonzinho". Pois é, o brasileiro continua "bonzinho". Tão "bonzinho" que abriu mão do verde de sua bandeira, de leis e de muito dinheiro público.

Nos estádios, o dinheiro público foi aplicado do "jeitinho brasileiro". Camuflados em forma de empréstimos para os clubes de futebol. Por via indireta, as construções foram sendo financiadas com dinheiro público.

Alguns poucos protestaram. Houve até um alarde de que não haveria Copa. Mas a realidade é que ela está acontecendo. Aliás, ainda bem que está acontecendo, os milhares de turistas estrangeiros ajudaram a equilibrar a balança comercial brasileira, pois cada vez mais, os brasileiros gastam muito mais no exterior, do que os turistas estrangeiros no Brasil.

Ao mesmo tempo, para seguir a moda do momento, a Copa do Mundo de Futebol, o brasileiro está abrindo mão de acompanhar acontecimentos importantes, como a aprovação do Plano Nacional de Educação pelo Congresso Nacional e os "acordos políticos" que culminarão nas chapas para as próximas eleições.

Antes mesmo do final da Copa, os candidatos estarão batendo à porta dos eleitores brasileiros em busca de votos.

Mas, de todos os acontecimentos, o mais importante mesmo é a aprovação do PNE, que tramitou por quase quatro anos no Congresso Nacional e, foi sancionado somente na última semana de junho.

O Brasil estava desde 2010 sem metas para a educação. E, apra quem não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve.

Para cumprir as 20 metras será necessário muito dinheiro público bem gerenciado e aplicado, efetivamente, no ensino.

Enquanto o brasileiro cobrava dos amigos e colegas a camiseta amarela, em vez da verde, os partidos políticos faziam os conchavos impensáveis em outros tempos, mostrando que, nem mesmo os partidos políticos brasileiros têm identidade própria. A crise ética e ideológica está presente também naqueles que deveriam ser firmes em seus propósitos.

Manter-se no poder parece ser a única ideologia da quase totalidade dos partidos políticos brasileiros. E isso o torcedor brasileiro também não percebeu.

Mas, assim como a Copa, os "acordos" para as próximas eleições foram efetivados. O PNE foi aprovado no Congresso e sancionado pela presidente. Portanto, "agora é tarde, Inês é morta".

E como a vida segue, seria muito bom que as creches e escolas que serão construídas para atender nossas crianças e adolescentes, fossem construídas no padrão internacional, com qualidade na estrutura básica, no acabamento e no atendimento, no padrão FIFA.

A Copa do mundo é uma realidade. O Plano Nacional de Educação, também. O VERDE e o AMARELO são as cores da selação brasileira e torçamos para que tudo termine em ensino de qualidade.


Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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