AS COMPARAÇÕES(JE278) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Gilmar de Oliveira   
12-Mai-2014


Estou exilado. Larguei o consultório e as consultorias em escolas do Norte de SC, as aulas nas faculdades e recomecei a vida no interior do Rio Grande do Norte, perto de Mossoró. Passei, logo em seguida (em primeiro lugar), para psicólogo escolar para a Prefeitura de João Pessoa (PB). Sabia que comer com farinha Wallon, Piaget, Vygostkii, Luria e Yudovich serviria para alguma coisa, ao menos inflar o combalido ego de psicólogo escolar, com tantas dificuldades de se exercer a função e, com tanto desinteresse, pela falta de oferta, dos novos estudantes. Assim, minha família nem veio morar em Tibau, litoral potiguar (a 40 km de Mossoró): mudou direto à linda e receptiva João Pessoa. Continuarei longe deles por mais um tempo, trabalhando nas universidades daqui, consultando pessoas com distúrbios de aprendizagem na clínica, visitando escolas, palestrando e ensinando na faculdade que me abraçou, aguardando a convocação. Depois, vou assumir, pela primeira vez em 22 anos de carreira, um cargo público. 
Nesse tempo em que estou na região de Mossoró, visitei escolas públicas e particulares (há muitas, para uma cidade com pouco menos de 300 mil habitantes). A primeira constatação, para quem vem do Sul, é que as escolas das principais cidades do Nordeste têm psicólogos escolares. Já visitei diversas escolas quando lecionava nos cursos de pós-graduação e esta realidade tem feito a diferença. As escolas públicas de Mossoró passarão a ter psicólogos, o concurso já foi feito e serão chamados. Ufa! 
Nenhuma cidade de Santa Catarina fez concurso para ter psicólogos escolares lotados nas escolas. E nunca o governo do Estado se preocupou com esta temática. Também é a regra no Rio Grande do Sul e no Paraná. Eu e minha equipe de trabalho (na época), em 1998 levamos à Assembleia Legislativa e à Secretaria de Educação do Estado, em Florianópolis, um projeto para inserção de psicólogos escolares e, mesmo protocolando, sequer recebemos resposta.
Em João Pessoa, a nota do Ideb da escola dos meus filhos é 6,1. É superior à média de quase todas as escolas do Sul. E agora, já adaptados, sentem que o ensino é rigoroso, mas gostoso, criativo. Há três psicólogos trabalhando na escola, orientadores e supervisores. Assistentes sociais fazem parte do quadro de educadores. Isso faz a diferença, O professor se preocupa apenas em ensinar, sabendo que há um grupo de apoio e de coordenação dando-lhe suporte, além de laboratórios, aulas de música, esportes, ginástica e xadrez. 
Em Santa Catarina, o Sinte fala muito em qualidade de educação, mas não trabalha com propostas concretas e planos de melhorias pedagógicas específicas, talvez porque o engajamento político-partidário e suas ideologias suplantem o real desejo de ver os alunos de fato aprendendo mais e melhorando a sociedade com o conhecimento. Fica evidente a luta por salário, mas apenas isso e um pedido genérico de qualidade não são suficientes para elevar a técnica dos educadores.
Já no Rio Grande do Norte, onde tenho atendido, as escolas apresentam as mesmas falhas que o descaso e a ineficácia política (para não dizer incompetência e má intenção) deixam como rastro nos Estados do Sul: as escolas com ar de abandono, pouco investimento em treinamento, pouca valorização profissional e carência de recursos técnicos e materiais. Resultado: raríssimos estudantes da educação básica potiguar na região Oeste do Estado ficaram livres de reprovação. É epidêmico! 
Na minha seleção para as secretárias, de 50 currículos lidos, 46 candidatas não tinham compatibilidade idade-série. Ao questionar com elas (já fazendo uma minipesquisa), disseram que reprovação é ato contínuo, comum a todos. Os pais dos meus pacientes relatam absurdos e que jamais procuraram encaminhamento para saberem as causas de duas, três ou quatro reprovações. 
A diferença é que em Santa Catarina, Estado e municípios aprovam quase que automaticamente. Respirou e bateu o coração, aprova-se! Sou contra a reprovação, pois deve-se saber as causas do fracasso escolar. Mas diagnóstico e intervenções para melhorar a aprendizagem, raríssimo! 
Já a renovação na visão educacional está fazendo a diferença na Paraíba: educação integral, mais resultados positivos na educação, menor envolvimento de menores no crime, estruturação da família do aluno com dificuldade e capacitação técnica. 
Psicólogos escolares e assistentes sociais não fazem milagre, mas a sua presença é uma possibilidade a mais de qualificação, de apoio ao estudante e ao mestre, de planejamento e intervenções para melhoria da qualidade do ensino. Só prédios e computadores não resolvem. Atenção aos exemplos!

Gilmar De Oliveira
Sobre este autor:
Psicólogo clínico e institucional; especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura. CRP 12/01950. Endereço eletrônico: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
 
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