Porque não falar de flores no Dia Internacional da Mulher(JE276) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes   
09-Mar-2014


O Dia Internacional da Mulher não é dia para entregar flores em agradecimento pela submissão e muito menos, para enfatizar as qualidades de crente, “santa” e subserviência da mulher. 
Este dia foi instituido pela ONU para que as mulheres de todo mundo refletissem sobre seu papel na sociedade. E, quer na verdade, encorajar  as ações de libertação dessa subserviência seja religiosa, seja profissional, seja doméstica. 
Mas, para não dizer que não falei de flores. A ùnica flor que cabe neste dia é a rosa vermelha, símbolo mundial da luta das mulheres por respeito, dignidade e tratamento igualitário tanto no trabalho, quando no âmbito familiar.
Vale relembrar um pouco da históriada luta das mulheres mundo afora. No dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de New York, fizeram uma grande greve. As mulheres lutavam, entre outras coisas, por redução da carga de trabalho de 16 para 10 horas diárias, equiparação salarial com os homens e, tratamento digno e igualitário no ambiente de trabalho. 
A manifestação foi reprimida com tal violência, que 130 tecelãs morreram carbonizadas, dentro da fábrica em que trabalhavam. 
As mulheres continuaram lutando, para ter direitos e tratamento igualitário no mercado de trabalho e em suas casas.  No ano de 1910, durante uma conferência na Dinamarca,  o 8 de março seria indicado como  o Dia Internacional da Mulher. 
Mas, somente no ano de 1975, em homenagem às mulheres que morreram na fábrica em 1857, a data foi oficializada como a de reflexão sobre a situação e o papel da mulher na sociedade, pela ONU.
O objetivo da data não é comemorar a condição de ser mulher, mas estipular uma data para que sejam realizadas conferências, debates e reuniões com o objetivo de discutir o papel da mulher na sociedade. Não se trata de movimento feminista, mas de um movimento feminino por respeito, dignidade e igualdade.
Todo este esforço é para tentar fazer com que cada vez mais, as mulheres se reconheçam como iguais aos homens e exijam seus direitos, terminando com o preconceito e a desvalorização da mulher. Ou seja, não é para transformar este dia numa data para receber flores e parabéns dos homens de sua convivência, como já o fazem no dia das mães.
É para que as mulheres que ainda se sujeitam aos caprichos e injustiças dos homens, tanto em casa, quanto no trabalho e na sociedade, comecem a refletir e, mais do que isso, a mudar sua atitude e hábitos, libertando-se da condição de submissão para uma de igualdade de direitos e deveres. 
Entre os objetivos, está o de acabar, por exemplo, com a jornada dupla de trabalho, implantando em cada casa a igualdade de direitos e deveres em relação às tarefas domésticas. Afinal, todos que residem numa mesma casa, devem dar sua cota de participação na limpeza, conservação e manutenção. 
Por exemplo, o marido, os filhos e filhas, todos e cada um devem fazer a sua parte na manutenção, higiene e arrumação da casa e preparação dos alimentos. É preciso acabar com a falácia: “eu ajudo minha mulher ou minha mãe”. Esta não é uma tarefa da mulher. Trata-se de reconhecer-se como responsável por todas as atividades que lhe dizem respeito. 
Ao fazer cada um a sua parte, os habitantes do mesmo teto estarão assumindo a parte que lhes cabe e, efetivamente, cuidando de si ao invés de submeter a mulher à dupla jornada de trabalho. Afinal, cada vez mais, as mulheres também trabalham fora de casa e dão sua contribuição financeira para a manutenção do “lar doce lar”.  
Infelizmente, a cada ano, vemos que o Dia Internacional da Mulher está sendo transformado em um dia comercial, numa festa para “fazer mais um agrado” com o objetivo de dizer à mulher: obrigado por ser submissa, obrigado por continuar aceitando que sou seu dono e senhor. 
A impressão que se tem é que já não são as mulheres guerreiras, cientes de seus direitos e deveres decorrentes deles, as mulheres a serem parabenizadas e festejadas neste dia. 
Estas mulheres, efetivamente conscientes de sua função social, que foram tomadas como exemplo a ser seguido porque tiveram a coragem de dizer não a seus opressores, estão sendo esquecidas. 
Em nome da história desta data, é preciso reverter esta tendência e lutar pelo  fim do preconceito e desvalorização da mulher, mesmo com sacrifício de algumas. Como já aconteceu no passado e ainda acontece  pelo mundo afora. 
Pois, mesmo com as discussões em torno da Lei Maria da Penha, houve poucos avanços. As brasileiras  ainda  sofrem violência de toda ordem em casa, ganham salários menores do que os homens mesmo quando na mesma função.  E pior, na maioria das vezes, são discriminadas  inclusive por instituições religiosas que as colocam como  “as provocadoras” das agressões sejam sexuais, sejam psicológicas ou sociais. 
De vítima ela passa a ser o algoz da própria agressão. O simples fato de  ser mulher seria razão suficiente para justificar a agressão que sofrida. Este tipo de  pensamento estão sendo “plantados” culturalmente em suas cabeças ao longo da história da civilização humana. 
 No Brasil, somente no dia 24 de fevereiro de 1932 foi instituído o voto feminino. As mulheres conquistaram o direito de votar e serem votadas para cargos no executivo e legislativo. Mas,  ainda hoje, a representatividade feminina nestes cargos é muito pequena. 
As próprias mulheres não se sujeitam às candidaturas para não terem sua vida privada misturada com a pública. Vale lembrar que, o marido de uma presidente ou prefeita sequer tem definição na língua portuguesa brasileira. Ou seja, até mesmo a língua portuguesa mantém a mulher teoricamente bem sucedida na vida pessoal, fora dos principais cargos de decisão.  E, mesmo quando já investida do cargo, a mulher, ao contrário do homem, precisa provar, diariamente, que  está ali porque tem competência. 
Os números mostram que a mulher brasileira tem mais anos de escolaridade, as melhores notas nas escolas, e, na maioria das vezes, mais disposição para o trabalho, mas que continua ocupando cargos de pouca influência. 
Sua participação na tomada de decisões seja no poder público, seja nas empresas privadas ainda é pequena. E, invariavelmente, os salários das mulheres em cargos de chefia, são menores do que os dos executivos do sexo masculino. 
Por outro lado, pesquisas sobre relacionamento mostram que os homens brasileiros preferem relacionar-se com mulheres independentes e determinadas (leia artigo na página 11). Então, onde estará a elo de ligação entre os desejos dos dois gêneros. Será, que em verdade as mulheres querem continuar na condição de submissão e subserviência para não terem de assumir o ônus de tomar as decisões de vida e futuro?
Se as mulheres, desde 1857, lutam por melhores condições de trabalho, tratamento digno e igualdade com os homens e os homens querem mulheres determinadas e decididas, porque transformando o Dia Internacional da Mulher, o símbolo da luta pela emancipação feminina, em mais uma data festiva? 
Ao mesmo tempo, estudos sociológicos mostram que para educar uma sociedade, basta educar as mulheres. E esta pesquisa é que determinou, por exemplo, que o dinheiro dos programas sociais sejam entregues à mãe e não ao pai. 
As igrejas também usam estes estudos para arrebanhar mais e mais seguidores. As campanhas de marketing são direcionadas às mulheres e estas, trabalham para “engrandecer” os trabalhos sociais da igreja e, invariavelmente trazem mais seguidores. 
Então, a mulher que trabalha pela causa religiosa voluntariamente e é submissa em seu lar, será tratada como a mulher perfeita, “a santa”, a ideal, a “Amélia” da MPB. que deve ser reverenciada.  
Então, fica a pergunta, porque as mulheres continuam a contentar-se com tão pouco. Porque continuam a abrir mão da própria dignidade em favor da família, dos filhos, do marido, do namorado, da igreja e até mesmo de estranhos? 
Fica a impressão de  que estamos entrando para uma nova era,  em que as mulheres devam ser as “salvadoras do mundo”.  Se lhes foi negado o direito de criar o caos,  alimentado por anos pelos homens na sua relação com os demais homens e mulhres, porque lhes é legada à missão de “consertar”? 
Será que as mulhures, além de honestas, profissionais eficientes e humanas, deverão “ser santas milagreiras” para somente assim ter tratamento e diretos igualitários reconhecidos pelos homens? 
Ou esta é apenas mais uma estratégia do homem. O mesmo que manda flores e presentes sempre que precisa manter a mulher resignada à milenar condição de submissão. Fazendo-a acreditar ser menos merecedora de respeito e tratamento digno e igualitário?

Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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