HOMENAGEM CÍVICA: CIVILIDADE OU SERVIDÃO? (JE275) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Gilmar de Oliveira   
22-Fev-2014


Recebi, via Facebook, muitos post’s sobre “os bons tempos das homenagens cívicas”. Todos comentando que eram bons tempos, alunos perfilados, cantando o Hino Nacional. Eu, quando criança, já achava um horror! E realmente, após pensar e pesquisar o sentido, digo: as homenagens “cívicas” são ATROCIDADES ao civismo. Nada cívica; ela é quase militar. Representa tempos de guerra, de servidão cega e ufanista a uma “pátria” que não é nação, que nada oferece em troca para termos orgulho deste país.
Atrocidade, quase violência, que vem com ares de saudosismo de uma época TENEBROSA, o regime militar. Ainda nos comentários a estes post’s nas redes sociais se nota que estes saudosistas falam em “orgulho”, “obediência” às regras. E o pior de tudo: a maioria dos que postam aquela foto é de educadores. Não é numa homenagem que o aluno não entende que se criará um patriota e seguidor de leis. E se for para SEGUIR sem entender, onde está a autonomia e a liberdade que a escola democrática deve, por lei, desenvolver em seus alunos? Nada obrigatório gera autonomia. As homenagens em nada ajudaram até hoje! 
O que este pobres educadores e simpatizantes de disciplinas como OSPB e EMC sonham é numa escola de obediência cega, de respeito ao que não se faz compreender, coisa indevida num mundo autônomo e diversificado, que não aceita gente como gado domado. (Para os mais novos: os alunos eram submetidos até o final dos anos 80 e início dos anos 90 a aulas de Organização Social e Política do Brasil e Educação Moral e Cívica. Tinha o PPT, Preparação para o Trabalho: faziam hortas, pregavam botões, artesanato e outras formas de “ensinar trabalho”, sem leva-los a entender o mercado de trabalho e a profissionalização). 
Achar homenagens algo útil é a prova de que muitos educadores não se adequaram aos novos tempos. E, cada vez mais, se veem perdidos em relação às novas  realidades que a diversidade de um mundo pluralista e globalizado traz à sua frente. 
Homenagem cívica, obrigatória por lei nas escolas, é uma excrecência, uma herança do regime imposto pelo golpe de 1964. 
Já existia antes do Golpe, mas como herança do período de patriotismo cego da Era Vargas, simpatizante do Fascismo. 
É isso que não se vê, mas é intrínseco à homenagem: obediência e respeitos cegos, mudos e burros. Tudo que os políticos gostam.
Só o fato de ainda se fazer fila (fila não é organização, é subserviência de república bananeira e sua desorganização), ficar no calor ou no vento frio, de pé, falando um hino que não se entende bulhufas, já é uma atrocidade. 
Não desenvolve civismo. Nem cidadania. Ainda perdem aula para cada turma preparar a homenagem, promove-se a decoreba, alunos gagos de tão nervosos, poeminhas e jograis tolos, cantorias forçadas, com microfones estridentes (geralmente sem), datas cívicas sem sentido, dando importância ao que não tem. 
E os professores, tentando conter as crianças e suas risadas infames. Queriam o quê? Respeito? As crianças ali, forçadas, foram respeitadas? Incrível que tais educadores tenham ficado na universidade tanto tempo se preparando para se submeter a isso (e ainda uns gostam). 
E a sala de aula esperando, os livros fechados, laboratórios vazios, a consciência crítica, verdadeira forma de trazer patriotismo e liberdade, longe de ser ensinada nas aulas!
Civismo real nós teríamos se as escolas trabalhassem com os alunos seus direitos de cidadãos, capacitassem os alunos a cobrar e fiscalizar as melhorias sociais, o dinheiro público, a qualidade nos serviços públicos, a começar pela escola, tão defasada!  
Uma ou duas gerações de jovens críticos e cobradores, diminuiria a bandalheira política e social no país.
Saber os símbolos de uma pátria de TODOS, seria menos hipócrita, com respeito verdadeiro, se a cidadania viesse com mais qualidade, com mais tempo nas salas de aula e laboratórios, não na decoreba de um hino. 
Que tal trocar cantoria e jogral e fazer as homenagens com debates sobre cidadania, direitos civis, voto consciente, corrupção?
Sugiro aos amantes das “homenagens”, que venham, por amor à Pátria, ANTES OU DEPOIS DAS AULAS, cantar o hino, recitar poemas... Que convidem os alunos, mas NÃO OS OBRIGUEM. Fora do horário de trabalho, por opção. Patriotas que são, farão o sacrifício. 
Civismo não se ensina; se sente, ainda mais quando a Pátria fizer sentir que os filhos deste solo têm uma verdadeira Mãe Gentil.

Gilmar De Oliveira
Sobre este autor:
Psicólogo clínico e institucional; especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura. CRP 12/01950. Endereço eletrônico: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
 
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