Falta de professor deve levar à valorização deste profissional(JE275) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes   
23-Mar-2014


Na lei de mercado, o que está em falta, vale mais. Esta é a lógica do capitalismo. E vale também para as profissões, entre elas a de professor. 
Mas até que essa valorização aconteça, muitas crianças, adolescentes e jovens ficarão sem aulas. Ou pelo menos, aulas com profissionais qualificados. O alerta sobre o agravamento da falta de professores tem sido dado pelo Jornal da Educação há mais de duas décadas em reportagens e textos opinativos. 
Diversas mudanças na estrutura de formação docente, como o aumento de quatro para cinco anos da duração dos cursos de licenciatura, também contribuiram para desestimular os candidatos.    
A estrutura social e educacional do país e a universalização do ensino fundamental na década de 90, aumentou em muito a necessidade de professores. E,  entre as metas do novo Plano Nacional de Educação (2011-2020)- ainda não votado,  está a universalização do ensino médio e da educação infantil. 
A implantação do Piso Nacional do Magistério e a exigência de 33% de horas atividades dentro da carga horária para os professores, também aumentaram o número de vagas. Portanto, em cinco anos, chegaremos “ao fundo do poço”. 
Os adolescentes já não querem ser professores. Estudos do MEC apontam que 62% dos jovens que optaram pela carreira do magistério, tiveram problemas sérios de aprendizagem em sua educação básica, especialmente no ensino fundamental. 
Mas é preciso registrar que ainda há quem queira ser professor.  É relativamente fácil encontrar profissionais de outras áreas (engenharia, enfermagem, direito...) em vias de aposentadoria que pretende ser professor. 
Além de ter um ganho extra para suprir a queda na renda devido a aposentadoria, estes profissionais acreditam que dando aula podem contribuir com a sociedade, repassando parte do conhecimento adquirido com anos de experiência no mercado de trabalho, aos mais jovens. Já que a maioria chega ao mercado sem as mínimas características básicas de um bom profissional.
Há ainda, um outro segundo grupo de pessoas que pedem para ser professor. Aqueles que, não conseguindo trabalhar em nenhum outro emprego, vai “dar aula”.  Felizmente, a exigência de realizar concurso ou processo seletivo para ter acesso à função de professor, tem diminuído bastante. Mas não acabou. 
Por outro lado, os profissionais que atuam nas escolas,   “dando um jeitinho” de cobrir a falta de professor, fazem um “trabalho suicida”.  Pois enquanto a escola estiver resolvendo tudo sozinha, a situação se agrava sem que os políticos e governantes façam coisa alguma. 
Falta professor, falta diretor eficiente, falta condicionador de ar e ventilador nas salas de aula, falta computador, falta material didático, falta competência profissional, falta salário no final do mês do professor, faltam projetos para receber dinheiro do governo federal, falta vontade política de melhorar tudo isso. 
Mas, nas escolas (e CEIs) não falta somente professores. Nas escolas, falta apoio real à formação dos novos professores, porque a verdadeira e grande aprendizagem do professor, é na sala de aula, aprende enquanto ensina. 
Falta efetivar a escola como ambiente voltado ao ensino, centrada na aprendizagem e afastar dela a assistência social e, principalmente, eleitoral.  
Sobram crianças e adolescentes sem professor, escolas quase despencando sobre a cabeça de alunos e professores e, principalmente, desvio do dinheiro público que deveria estar sendo usado para pagar tudo isso. 
As universidades e faculdades que oferecem cursos de licenciatura também sentem a falta de candidatos às vagas. Ou seja, já não há professores para suprir a demanda crescente; e nem estudantes sendo preparados em quantidade suficiente para substituir os que estão em vias de aposentadoria ou abandonando a profissão. 
Cursos de licenciatura, em todo o país, estão sendo fechados, apesar de serem oferecidos gratuitamente. Praticamente ninguém paga mensalidade para fazer curso de licenciatura, inclusive nas escolas privadas.  O governo tem bolsas sobrando, pois faltam candidatos.
Secretarias de educação implantam um ano e eliminam no ano seguinte, disciplinas como língua inglesa e artes para anos iniciais por falta de professores. 
Estudantes do ensino médio reclamam do despreparo para fazer o ENEM, porque ficaram dois, três, quatro ou mais meses sem aulas de química, física, biologia, matemática, geografia, história, artes ... 
Concursos e processos seletivos se multiplicam por absoluta falta de candidatos às centenas de vagas que abrem a cada ano na educação infantil, ensino fundamental e ensino médio. 
O fator salário não é a única causa do “desgosto” pela profissão. A talvez mais “bonita” e, seguramente a mais necessária, em qualquer sociedade. Não há democracia em uma sociedade em que a educação de qualidade seja para poucos.  
A situação tem se agravado cada vez mais porque nem governos, nem universidades, nem gestores educacionais e nem mesmo os sindicatos, sabem o que pode ser feito para reverter a tendência de “extinção” da categoria de professor.  
Se perguntassem aos professores que efetivamente atuam em sala de aula, talvez tivessem uma resposta imediata: resgatem a dignidade do professor, reconheçam nossa importância social e nossa condição de profissional da Educação.
Restabeleçam o status social que o professor e a professora já tiveram, quando a educação era efetivamente um prêmio que todos deveriam receber.  
Restabeleçam o respeito pelo valor do professor e da escola na formação de todo e qualquer cidadão. Devolvam ao professor o papel de ensinar e trabalhem todos pelo bem estar daqueles que atuam na sala de aula, a alma da escola. 
A sociedade vive da adoração. Temos templos para adorar a Deus - a igreja; o templo do consumo - o shopping center; o templo do esporte – o campo de futebol; o templo da cultura – o teatro; o templo do lazer – a praia, mas não temos o templo do saber – a escola. 
A escola deve ser o lugar em que se aprende a viver em e para a sociedade, para o bem comum, para a comunhão com o nosso irmão social – o outro cidadão.  
Transformem as salas de aula no templo do saber e o professor no sacerdote deste templo. Respeito, tratamento digno como intelectual e formador de opinião (e de cidadãos) que é. 
Somente assim, será possível transformar cada escola num templo do saber e da sabedoria e então teremos resgatado o valor social da escola e do bom professor, que seguramente voltará  para as salas de aula. 
Há alguns anos foi lançado um adesivo automotivo dizendo: Hei de vencer, mesmo sendo professor! Alguns profissionais criticaram tal adesivo, dizendo-se contrários a esta ideia de submissão.
Atualmente, este espírito de abnegação transferiu-se do professor e da professora para os secretários e secretárias de educação e diretores e proprietários de escolas particulares. O adesivo seria: Hei de ensinar mesmo sem professor. 
O sentimento de “sou necessário à sociedade” que historicamente tem movido cidadãos comuns a se tornarem professores já não é suficiente para motivar nossos adolescentes e jovens a optarem pela carreira nada atraente de professora ou professor. 
Aliás, os adolescentes são os primeiros a desistirem de ser professor. Não pelo salário, pois o salário inícial de um professor, que não precisa ter experiência para iniciar na carreira e ganha salário idêntico ao formado há anos, mas por perceberem o desreipeito crescente ao professor. Não somente de seus colegas, mas no relacionamento professor x direção da escola x aluno x pais.
Assim, cada vez mais, os portadores de diploma de curso de licenciatura estarão sempre empregados (ou subempregados) e portanto, está mais do que na hora de partimos para a prática. 
Já não se aceita discurso de descompactação de plano de carreira, a maquiagem de números, o “nós queremos não temos é as condições”. 
Chega de discurso! Discurso dá aula. Maquiagem não ensina e sem ensino, não há desenvolvimento, sem desenvolvimento não há cidadania. Sem cidadania, os números do IDH e da economia do país, despencam. 
E se a economia do país não despencar é preciso educação, e de qualidade. Para se ter educação de qualidade, precisamos de bons professores!  
Então, que se aplique a lei de mercado, porque PROFESSOR está em falta.  

Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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