Um nariz de palhaço!? (JE274) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Editora   
13-Dez-2013


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ContribuiçãodoLeitor PJRP
 
Nesta época do ano, basta cinco minutos de conversa com um professor em atuação em sala de aula, para que a conversa seja sobre a pressão para aprovação em massa, inclusive dos alunos sem condição de seguir adiante. 
O resultado dessa pressão é a realidade educacional que temos: o Brasil continua nos últimos lugares de exames internacionais que medem a qualidade do ensino, especialmente o PISA.
Se durante todo o ano, os professores estão solitários na luta por ensinar e levar seus alunos ao sucesso escolar; no final do ano, o sistema que abandonou professor e aluno durante o ano, faz pressão para manter a situação que se repete há anos: índices de aprovação e notas, altíssimos; e nível de aprendizagem, baixíssimo.
O Brasil tem índices de aprovação semelhantes aos de países desenvolvidos, mas a aprendizagem diminuiu ano após ano. Esta diminuição é facilmente medida pelo mercado de trabalho. 
Temos centenas de vagas abertas para pessoas minimamente preparadas, e não há profissionais para ocupar as vagas. O Brasil tem centenas de desempregados desqualificados que não conseguem emprego ou não conseguem permanecer neles por muito tempo. 
São centenas de bolsas de estudos do PRONATEC, PROUNI, Jovem Cientista, dentre outras e sem candidatos. Sobram bolsas, falta candidatos, conhecimento. Ou seja, o ensino de qualidade passa ao largo da grande maioria das escolas.  
Os professores que fazem trabalho sério são os que sofrem maior pressão pela aprovação. Numa sociedade super protetora das crianças e adolescentes, o que mais se ouve dos professores é: ‘sinto-me com um nariz vermelho instalado no centro da face’. 
Talvez o final de ano seja o pior dos momentos para o profissional da educação. As escolhas por uma ou outra avaliação, por uma ou outra metodologia e, por vezes, até conteúdos, leva o professor ao estresse. 
A pressão de um diretor ou supervisor pela aprovação é a gota que transborda o copo. 
Mas se por um lado, os professores se sentem pressionados à aprovação, seja por fazer a autocrítica e pensar que talvez pudesse ter feito mais “um trabalhinho” que resultaria em mais uma “notinha extra”; seja por pressão de diretores ou do próprio sistema de ensino. 
Por outro, a reprovação representa um investimento em dobro (ou triplo) de dinheiro público em um cidadão que não está fazendo a sua parte para fazer jus ao investimento governamental(ou familiar). 
Mesmo cidadão que continuará a prejudicar mais um grupo de alunos que poderiam aprender mais e melhor, sem sua presença. Às vezes a solução é transferir o problema para outra escola. Também não resolve.  
A má qualidade do ensino nas escolas públicas estaduais e municipais já é de conhecimento e de domínio público. Mas não é um privilégio do estado de Santa Catarina e de nenhum município em particular. Fala-se muito, faz-se pouco para mudar o que realmente acontece dentro da sala de aula. 
Entretanto, talvez o mais difícil seja definir exatamente o que é ou seria ensino de qualidade. Seria aquele que prepara o cidadão para poder escolher a profissão que o fará feliz, independe se seja ser médico ou gari? Ou seria o ensino que levasse o cidadão a ter consciência de que está aqui para servir, e não para ser servido pelo mundo. 
Nesta roda viva, os professores sentem-se palhaços pois, ao longo do ano, na grande maioria dos estabelecimentos de ensino, estiveram sozinhos na missão de ensinar. E, no final do ano, aqueles que deveriam tê-lo ajudado durante o ano, pressionam tentando decidir pelo professor se aprovam ou reprovam este ou aquele aluno.
Não raro são os casos que, mesmo após dezenas de pedidos verbais e registros em livro de ocorrência (que ninguém lê), nada se fez. Então, se nada se fez para ajudar, como reprovar um aluno? Certamente, será mais fácil adiar ou transferir o problema (e o aluno).  
Mas é preciso refletir. Como um professor poderia ensinar um grupo de 25, 30 ou 35 alunos em uma sala, onde cinco ou seis destes alunos ocupam 100% do tempo em conversar, brincar, mandar e receber mensagens via celular,  desafiar o professor ou mesmo cutucar os colegas para dispersar a turma? 
Ano após ano, a situação se repete e NADA É FEITO, no sentido de levar este aluno ou o professor ao sucesso escolar. Mas como conseguir que a família e a escola (equipe gestora e pedagógica) intervenham no processo no próximo ano?
Ou, novamente, a criança ou adolescente continuará a desrespeitar regras mínimas de convivência social, a não fazer exercícios e tarefas solicitadas pelos professores e a colecionar notas baixas e relatos de indisciplina, a não ser ajudado durante o ano letivo e, aprovado por conselho, no final de cada ano. 
E, por outro lado, aquele que faz tudo, convive mas foi prejudicado pelo colega de turma e, apesar do esforço pessoal não aprendeu, merece ser aprovado? E estes são a maioria. 
Jean Piaget dizia que “a inteligência é o que você usa quando não sabe o que fazer”. E é exatamente esta habilidade que o professor  terá de usar neste momento.
Além de tudo isso, com o nariz de palhaço na face, o professor terá que considerar que não há como medir o quanto o bom aluno inteligente está sendo prejudicado, em sua aprendizagem, pelo negligente, bagunceiro (mau aluno) e desinteressado.
E se, como disse Piaget, “a principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. 
E a segunda meta é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe”.
Como decidir por manter um mau aluno no meio dos bons sabendo-se que ele prejudicará os demais? Com ou sem nariz vermelho, esta é a missão do professor.

Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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