Brasil investe errado e continua com ensino sem qualidade nem quantidade (JE272) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Maria Goreti Gomes   
30-Set-2013


Em economia doméstica todos sabem que o importante não é o quanto se ganha, mas como se gasta. Deixar comida no prato. Comprar mais verduras e frutas do que se come em uma semana. Roupas e calçados caros. Aparelhos eletrônicos obsoletos. Cremes, maquiagens, enfim... Desperdiçar dinheiro com o que se pode passar sem, é o mesmo que jogar seu salário no ralo. Em administração pública não é diferente. É preciso investir no que é prioritário, necessário e, principalmente, beneficiará o maior número possível de cidadãos.

É comum observarmos famílias que conseguem viver com razoável conforto e ainda construir um patrimônio ganhando pouco mais de dois ou três salários (que convenhamos, é muito baixo).

Empresas que nascem micro, mas devagar e sempre vão crescendo e ampliando seu mercado de atuação. Muitas vezes por opção do proprietário, continuam pequenas por décadas, mas são sólidas e seguem firmes com saúde financeira.

O segredo desse sucesso não é o tamanho da carteira, mas a qualidade da administração e do gasto do dinheiro.

Já passou da hora dos administradores públicos deste país, relembrar a lição ensinada por nossos avós: ganhar regularmente, mesmo que pouco, mas gastar bem o que se arrecada.

Pesquisas apontam que somente 10 a 15% do montante aplicado em educação neste país vão efetivamente para a atividade do ensino. O restante vai para o ralo da burocracia, da corrupção. O resultado é o que vemos. Milhares e milhares de Reais desperdiçados, por exemplo, em programas para acabar com o analfabetismo que ao invés de diminuir, aumentou em 0,01 na última década.

O que significa que o aumento do investimento em educação não está sendo aplicado no que é prioritário e essencial. A merenda escolar, que é necessária, pois ainda temos muitas crianças que só comem na escola, está incluída no orçamento da educação. Mas é assistência social.

O pagamento dos professores aposentados, o salário dos milhares e milhares de outros trabalhadores, como os profissionais de educação física que trabalham nas fundações de esportes, culturais e às vezes, até mesmo profissionais da saúde, todos "encostados" no orçamento da educação.

Não que estes profissionais não sejam necessários à comunidade, aliás muitos deles são essenciais para o desenvolvimento dos esportes, da cultura e programas de atendimentos à comunidade das cidades. Mas o correto é que sejam pagos com o orçamento da área em que atuam e não da educação.

Após a implantação do Piso Nacional do Magistério, as maquiagens para não pagar um salário adequado aos professores só tem feito aumentar.

Em vez de estipular uma política de valorização do professor, privilegiando os que ainda estão em sala de aula e continuam a ensinar, os governos continuam a investir em obsolescência. Os professores da rede municipal do Rio de Janeiro em greve por causa do plano de cargos e salários que o prefeito pretende implantar, que o digam.

O professor com salário defasado, tendo que trabalhar 40, 50, 60 horas semanais terá de usar os tablets que estão sendo distribuídos a eles e aos alunos (em alguns municípios) em escolas que, em grande parte das vezes, sequer tem copiadora para reproduzir as provas e testes para os alunos. Estes mesmos professores tem que pagar cotas de fotocópias ou escrever o teste no quadro. Quando muito, não tem que comprar as próprias canetas para escrever nos quadros brancos que foram instalados sobre o verde de giz.

Impressoras com toner e papel para impressão de testes e trabalhos são essenciais. Rede sem fio, tablet, notebook ainda é possível passar sem. Ou seja, o Brasil investe errado. O Brasil continua acreditando que educação se faz c om prédio escolar e equipamento eletrônico. Não há política de ensino de qualidade. A maioria quase absoluta de nossos governantes acredita que basta construir prédios e distribuir materiais aos alunos e professores. Aliás, continuamos nas últimas posições do mundo quando se compara o desempenho de nossos estudantes aos do restante do mundo.

Nunca antes nesse país se arrecadou tanto imposto. Nunca antes nesse país se investiu tanto dinheiro em bolsa família, bolsa gás, vale alimentação, vale transporte e, o mais recente, vale cultura. Nosso cidadão ganha tudo, mas não aprende sequer a ler, escrever e calcular.

Estamos dando o peixe, mas não estamos conseguimos ensinar a pescar. O país continuar sem política de valorização do trabalho do professor, que está solitário na sua tarefa de ensinar, e porque solitário, não tem como medir a eficácia de suas escolhas pela ensinagem e nem, obviamente, a eficácia da aprendizagem de seus alunos.

Administrar suas finanças para viver bem o momento e ter um plano de investimento futuro é do que o Brasil precisa. É preciso redefinir também as políticas e ações de controle dos gastos públicos tanto do orçamento educacional, quanto o comportamento dos servidores púbicos (tanto os eleitos, como os de carreira).

É preciso traçar metas e acompanhar, dar suporte efetivo aos professores que sabidamente saem das universidades sem formação adequada para assumir o rumo da vida de nossas crianças e adolescentes.

Os professores precisam cuidar menos e ensinar mais. Amor é necessário, mas ao professor cabe ensinar. À família cabe amar e, ajudar o professor em sua tarefa de ensinar.

E, principalmente, investir dinheiro naquilo que é prioritário em cada escola ou cidade. O Brasil precisa acordar e descobrir-se um país continental. As soluções, obrigatoriamente, devem ser diferentes para cada uma das centenas de milhares de escolas.

Já está provado, especialmente por estatísticas, que grandes projetos, com números estratosféricos, como distribuir livros didáticos e tablets, por exemplo, sem traçar planos de uso efetivo destes em sala de aula, incluindo a formação do professor, são obsoletos, portanto, desperdício de dinheiro público. A única solução é avaliar qual investimento dará maior retorno em cada uma das escolas.

Precisamos parar de produzir números e acordar para o fato de que uma escola não é uma linha de produção, onde todas as peças devem ser feitas e produzidas do mesmo modo.

Numa sala de aula, que é onde efetivamente se dá o ensino, para se ter um padrão mínimo de qualidade, é preciso ter também um padrão de auxílio aos agentes do ensino, os professores, que continuam sozinhos em sala de aula.

As políticas públicas, hoje voltadas ao cuidar, papel da família, devem ser aquelas que levem as crianças, adolescentes e jovens a se disciplinar para o estudo.

É preciso investir certo, Investir dinheiro numa escola falida em sua missão maior: ensinar, é jogar dinheiro público no ralo. Afinal, antes e até mesmo para usar um tablet, o aluno precisa aprender a ler, escrever, calcular, planejar e, principalmente, a traçar metas.

Caso contrário, continuaremos a dar certificado de conclusão a brasileiros que não conseguirão crescer nem pessoal e nem profissionalmente com aquilo que estão aprendendo na sala de aula.


Maria Goreti Gomes
Sobre este autor:
É diretora, editora e jornalista do Jornal da Educação  (ISSN 2237-2164)  e do Jornal do Santos Anjos.   Mestre em Educação e Cultura pela UDESC. Especialista em Jornalismo pela FURJ-INPG. Membro do Comitê de Planejamento Estratégico de Educação, do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville, do Comitê Regional de Educação da SDR-Joinville. É voluntária na Comissão OAB vai à Escola, da seccional de Joinville.
 
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