INDISCIPLINA E HIPNOSE (JE271) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Gilmar de Oliveira   
30-Ago-2013


Meu filho mais velho tem 11 anos e detesta a escola. Não é mau aluno, respeita as regras escolares, tem até notas boas, pelo baixo nível de interesse que apresenta.

Cobro que realize os trabalhos e tarefas, mas antes de tudo eu cobro que saiba o assunto. Se ele sabe o assunto e a tarefa não tem ligação com as notas da avaliação, ele escolhe se quer fazer ou não.

Afinal, tarefa sem sentido e mal elaborada só avalia a capacidade de adestramento. Para copiar algo (acreditem, ainda há professores que perdem aula escrevendo no quadro!), sempre fica atrasado, tem letras ilegíveis para a maioria, mas ele entende seus garranchos, isso basta. Aliás, nem ele entende, confesso. Escreve por escrever.

Não o repreendo por isso. Nem o castigo por isso, afinal, não posso tirar sua razão. Se ele quer um texto sobre o assunto, se ele não sabe o que escreveu, ele visita a internet, lê vários textos sobre o tema, muitos com maior profundidade, com links bacanas. Se precisar de explicação, ele assiste a alguma aula da Khan Foudation, já traduzidas para o português, ou procura outra vídeo-aula.

Não está "nem aí" para a maioria das disciplinas, mas evolui no Inglês por causa do seu hobby: faz animações em 3D, explora programas de computador, publica tutoriais animados no YouTube sobre o Minecraft, com dezenas de acessos e amigos até na Europa, que trocam informações (vide "oitavio gameplayers", seu canal no YouTube). Isso vale por lógica, matemática, Português, Artes, Física...

Melhorou a desorganização percepto-motora que o acompanhava, exceto na escrita.

Nada disso vale alguma coisa na escola, para seu desespero, mesmo com sucesso na rede, que até pode render boa grana, aos 11 anos. Lembro-me de quantas vezes o desinteresse dele rendia chamadas à escola. Preocupadas, mas descontextualizadas com a realidade. Até ficou em exame final em 2012. Gabaritou a prova, após estudar pela rede.

Mas ele tem o caderno de Geografia em dia. Letra bonita. E vai para a escola todo faceiro nos dias de Geografia. Aliás, a aula do Professor Maba. Faz tarefas, lê um pouco mais.

Meu filho passa o dia conversando das aulas do Professor Maba. Tive pacientes que vinham nas suas sessões me contando das aulas do Maba. Os amigos do meu filho conversam sobre o Maba pelo Skype e, quando aparecem em casa, falam do quê? Aulas do Maba. Geografia passou a ter sinônimo. Meu filho compara os demais professores do passado e do presente. Diz que se todos fossem um pouco Maba, ele ficaria na escola dia e noite.

Passei a questionar a tal aula e meu filho e seu amigo definem a aula como "mágica". Ele hipnotiza os alunos, segundo os dois. "Ninguém conversa nas aulas do Maba. E ele explica, explica, explica. Até muda de assunto e sabe de tudo que é tema: História, Ciências e até de planetas!".

Ele fala de futebol, apelida alunos (meu filho é o "Gafanhoto", ele adorou!), dá risada, faz brincadeiras, distribui disputados brindes entre os alunos e até permite uma baguncinha. E aprendem.

Tenho medo até que o processem depois do que escrevi aqui. Em tempos de "politicamente correto" e no Reino da Mediocridade, ser motivador e atualizado é perigoso!

Fazer aportes interdisciplinares, cativar a partir do interesse do grupo e falar na linguagem dos alunos pode representar uma ameaça à imbecilidade reinante. Imagine o perigo: o Maba sabe outros assuntos e instiga os alunos e irem mais fundo! E vão. Alunos críticos, capazes de pensar. Artigo em falta na sociedade.

Brinca-se, diverte-se, ensina-se ao mesmo tempo e isso cria respeito. Quem desafiaria alguém que tem respostas para tudo? Quem ficaria contra a turma que idolatra o mestre amado? Quem trataria mal alguém tão divertido? "Hipnose" nos alunos, respeito na sala, alegria de aprender.

Lembro quando o conheci (ele não lembra): na porta do Marista, pedindo doação de sangue para seu pai, então doente. No desespero, mas sorrindo. Logo após, um aluno, meu paciente, o elogiou: "Sabe ensinar, está sofrendo e ainda assim é tão querido!".

Melhor remédio contra indisciplina não há. Preparo. Direcionamento naquilo que interessa. Se não interessar, faltou argumento. Faltou preparo na aula. Ou domínio pedagógico. Coisa que os livros, vídeos na internet e vontade de mudar ajudam. Ou ser Maba. Meu filho e eu agradecemos as lições!


Gilmar De Oliveira
Sobre este autor:
Psicólogo clínico e institucional; especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura. CRP 12/01950. Endereço eletrônico: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
 
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