O QUE FAZ A DIFERENA? (JE270) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Gilmar de Oliveira   
20-Ago-2013



Resolvi fazer um trabalho com meus filhos e preciso que ns (eu e os trs pimpolhos) assistamos ao noticirio local e regional. A primeira coisa que a minha caula, de seis anos observa e questiona por que eles mostram tanta desgraa numa hora to gostosa?... Bem, desgraa chama a ateno, filha.
Os mais velhos (nove e onze anos) tambm observam o que se mostra em forma de notcias os diversos protestos e pedidos de gua, esgoto, mdico, vagas em hospital, creches e reclamam de escolas depredadas e interditadas.
O que se v nestas reportagens, comuns em todos os jornais? Pobres e mais pobres pedindo algum benefcio do governo, algum vintm que o descaso dos homens pblicos deixou de lado e o trabalho quase escravo nas empresas no supriu a carncia. Fui questionando com os meus filhos, e eles sugerindo: so pessoas pobres; o governo errando e outras ideias.
Expliquei-lhes que a pobreza no a causa, mas a consequncia daquelas exigncias. A ignorncia tambm no a causa, mas o veculo que os leva pobreza.
O que h em comum a todos os entrevistados e desgraados que pululam para dentro de minha casa diariamente, na hora do almoo, justamente a distncia entre uma entrevista e uma reportagem de rua.
Vem a entrevista no telejornal: um artista plstico falando de sua exposio. Logo, outra entrevista, com um consultor financeiro. E agora, meus filhos, o que vocs notaram? Este rapaz e o moo dos quadros falam bem, esto bem vestidos. Aham!
O que faz a diferena? Pessoas desgrenhadas, doentes na fila do postinho sem mdicos. Uma mulher com dor de dente; mal vestidos dizendo ia, o que nois qu nossos dereito (sic), outros queimando pneus na frente de um loteamento enlameado. Em seguida, outros: falando bem, entrevistados em estdio ou nos escritrios. A diferena no comea ali...
Explico aos meus filhos que a diferena est no tempo de permanncia nas escolas.
A imensa maioria dos pobres das reportagens est ali implorando servios pblicos porque abandonou a escola antes da formatura. Se estudassem, estariam suprindo a incompetncia do governo com a recompensa de seu trabalho, como a maioria das pessoas com formao superior faz, neste triste pas. Trabalhariam para dispor de plano de sade, de casa com qualidade em lugares aprazveis, no comprariam lotes irregulares, nem viveriam dependendo de polticos oportunistas, nem os elegeriam. No queimariam pneus velhos na rua, achando que soluciona alguma coisa. Alis, se estudassem o mnimo necessrio, no deixariam pneus velhos jogados pelo bairro.
Afinal, onde fica a diferena? Aquela mulher banguela, expondo-se s cmeras, um dia foi uma jovem estudante. Qual dia disse: hoje no vou mais para a escola? E seus professores? Qual a razo de um orientador ou mesmo um diretor no ir atrs de uma criana ou adolescente que abandonou a escola sem completar seus estudos?
Como os pais das crianas reagiram deciso dos filhos em abandonar a escola? Ou mesmo o que levou estes pais a decidirem por impedir que seus filhos estudassem, perpetuando a pobreza, irm gmea da ignorncia? Claro, sucesso na escola nem sempre sucesso na vida, mas eleva muito, muito a chance de sucesso!
Ser que algum professor explicou aos pequenos que quem abandona os estudos lana sobre si mesmo uma maldio? Mas... Como foi o dia do abandono?
Como estes jovenzinhos se sentiam ao olhar os cadernos, quando associavam que no iriam mais estudar e aprender? Ser que esperavam que a professora viesse atrs deles? Ser que esperavam estudar mais tarde, num fio de esperana sobre um futuro incerto e cada vez mais distante da felicidade?
Na escola, sonharam com o dia da formatura? Com o terno e a gravata do moo da televiso? Sonhavam dirigir aquele belo carro? Como compr-lo? Como garantir conforto para sua famlia, no futuro? O que o futuro? Quem lhes disse sobre tal tema?
Lev-los a acreditar que cada um deles pode ser dono do prprio destino tarefa da escola, bem cedo, na mesma poca que se ensina a lavar as mozinhas, que se ensina a dizer bom dia.
A diferena est naquela parada da aula, para lhes contar histrias de vida. Faz-los sonhar. Lev-los a imaginar o progresso, a sada da pobreza, realizaes, atravs da escola. Mostrar exemplos de pessoas realizadas, que progrediram. No os ricos e famosos, excees tolas e utpicas; faz-los se identificar com o esforo e a recompensa, na escola e no trabalho. Pessoas que vieram da misria e conquistaram uma vida melhor.
Tambm mostrar histrias de fracasso: pessoas ricas e realizadas que, por falta de estudo, perderam tudo na vida; pessoas que abandonaram a escola e continuaram na misria.
Desde cedo na tica e na Meritocracia: Terror de faltar s aulas (claro, com um professor assduo; os que vivem arrumando atestados, morram, por favor), horror de cogitar a ideia de abandonar os estudos.
Quebrar a cultura dominante nas salas, onde quem tira zero o esperto, quem mata aula mais livre. Prevenir a evaso, denunciar as famlias negligentes. Orientar muito, desde o primeiro dia.
Esse o trabalho que estou fazendo com meus filhos. Conscientiz-los de que a escola um caminho mais seguro.
Gostaria que a escola me ajudasse. Que a sua escola, educador, faa a diferena, como fez para mim.

Gilmar De Oliveira
Sobre este autor:
Psiclogo clnico e institucional; especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educao e Cultura. CRP 12/01950. Endereo eletrnico: Este endereo de e-mail est protegido contra spam bots, pelo que o Javascript ter de estar activado para poder visualizar o endereo de email
 
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