Ali Bláblá e os 40 alunões (JE 268) PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Gilmar de Oliveira   
09-Jun-2013


Gostaria muito de concordar com os professores e seus órgãos representativos, quanto à polêmica da “reenturmação” das classes, para diminuir o número de turmas e de professores. Aquele professor que nunca se deparou com 40 alunos à sua frente na triste realidade das escolas da Rede Estadual de Ensino que atire a primeira carteira! Mas, ao meu ver, os educadores erraram.
O problema não é a tentativa, sob muitos protestos, da Secretaria de Educação tentar reestruturar as salas. O problema é a existência das leis que permitem que se lecione com 40 alunos em sala e ninguém tentar um novo projeto para corrigir o que não se aceita. 
Ou seja, mais uma vez, a classe dos educadores de Santa Catarina acorda para chorar sobre um leite já derramado (a “reenturmação”), mas não se atenta para o quê derruba o leite (a lei existente).
Uma excrescência é a falta de uma fiscalização da Vigilância Sanitária, tal como faz nos restaurantes e boates, de colocar placas nas portas, dizendo a capacidade máxima da sala. Existe lei sobre a área mínima para cada aluno ficar em sala, sentado na carteira. Isso já basta. 
Se quiserem colocar 40 alunos em sala de 30m2, creio que a lei não permitirá, principalmente se os órgãos representativos dos professores estiverem em conjunto com a Vigilância Sanitária, o Ministério Público, a Associação de Pais e Mestres da escola, o Conselho Municipal de Educação e quem mais possa abraçar a causa. 
Se a sala for maior que o espaço mínimo e couberem 40 alunos, existe a lei, ninguém lutou por sua revogação, então, ela lamentavelmente deve ser cumprida. 
São situações como essa que demonstram o grau de desorganização política da classe. Se os educadores catarinenses quiserem demonstrar voz e vez, que pensem em medidas preventivas contra os desmandos. Por exemplo: nenhum professor percebeu a falta de infraestrutura e de condições mínimas nas escolas interditadas? Sim, perceberam, mas os pedidos de atenção, manutenção, as reclamações devem ir além da sala dos professores e dos momentos de cafezinho. Se os sindicatos, Vigilância Sanitária e demais órgãos fossem avisados à medida que a ausência de manutenção mínima e preventiva fosse percebida, nenhuma das escolas estaria interditada.
Importante ressaltar que, como o colunista Gustavo Ioshpe escreveu em sua coluna na Revista Veja, não é o número de alunos que prejudica ou facilita para que o professor consiga dar uma boa aula. Concordo com o referido colunista. Um bom professor mantém uma turma hipnotizada com 40, 50, 60 alunos, se o assunto for trabalhado de uma forma interessante.  Já um professor sofrível destrói o entusiasmo de dois alunos, meio metro à frente.
Recentemente, dei palestras em escolas estaduais, com 80, até 100 alunos “socados” numa sala de vídeo ou auditório onde não caberia 60 pessoas. Falei por uma hora, sem grandes truques. Os alunos engraçadinhos se manifestavam. Ótima chance para ilustrar, chamar à discussão com as perguntas-chave que deixo engatilhadas, porque costumo preparar o assunto e parto da premissa que, em certo momento, preciso cativá-los, noutro instante, ocupá-los, quebrar o gelo, seja com o tema da palestra ou com tópicos de uma aula bem planejada. Aprendi na faculdade, com professores que ensinavam a ensinar, nas disciplinas de Licenciatura e, na prática, nos 10 anos que atuei como professor da Rede Estadual, naquelas turmas e escolas que ninguém quer encarar.
 Lá estão os que precisam de projetos, que precisam de professores que não pensem que o Magistério é um conto de fadas e os alunos, as próprias fadas. Ou se conhece a realidade do aluno, suas necessidades, anseios, ou os deixam à margem do ensino, porque é o professor quem deve conhecer o aluno, não o contrário. 
O bom professor encara turmas de 40, 42 alunos, sem microfone. Com boa vontade e preparo. É a melhor resposta para este governo “água pura” (e de muito blá-blá-blá): incolor, inodoro e tão sem gosto na área educacional quanto um picolé de chuchu: responder com resultados marcantes, surpreendentes, com turma de 50 alunos, se for o caso. 
Os alunos lembrarão de ti, mestre, e de sua garra. Lembrarão que aprenderam bem, mesmo sem as condições, e se vingarão do governo nas urnas, farão a devida faxina que nós, adultos, não conseguimos fazer. Suas aulas bem planejadas desenvolverão a criticidade necessária para que nossos representantes aprendam a lição de respeitar a educação, a partir do prédio e do espaço para se respirar!


Gilmar De Oliveira
Sobre este autor:
Psicólogo clínico e institucional; especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura. CRP 12/01950. Endereço eletrônico: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
 
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